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Manta líquida. Realidade ou mito?

Artigo de Marcos Storte, mestre em Engenharia Civil pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo.

Há alguns anos vemos chamadas comerciais para inúmeros e diferentes produtos de impermeabilização com o nome de “manta líquida”.

É complicado explicar, de forma simples, que não existe solução mágica de impermeabilização para tudo. As promessas de resolver desde unha encravada até infarto do miocárdio estão em muitos apelos de venda, ainda mais quando não mostram que seguem as normas técnicas que devem disciplinar o uso dos produtos.

Vamos ao básico, que é checar a definição que existe à nossa disposição sobre este nome.

No dicionário Aurélio ou no site Wikipédia não existe o termo “manta líquida”, mas encontramos “manta”: Cobertor, coberta, colcha, pano que se põe por baixo do selim, manta de retalhos, manta de toucinho, entre outras...

Pois é, então vamos onde existe esta definição à impermeabilização, que é na norma ABNT NBR 9575 (e tem gente que não gosta das normas!).

Manta para impermeabilização: produto impermeável, pré-fabricado, obtido por processos industriais, tais como calandragem ou extensão

Vamos explicar: manta para impermeabilização é um produto que passa por um processo de pré-fabricação, ou seja, não é líquida.

Certamente para quem fabrica ou presta serviços na área de impermeabilização não se pode dar o conforto de desconhecer as definições da norma ABNT NBR 9575.

Será que temos um conflito de interesses entre usar de tudo para vender com a realidade dos fatos? Será que nas embalagens dos produtos existem dados e informações técnicas que amparem o consumidor para que ele, como leigo no assunto impermeabilização, não compre gato por lebre?

Eu pensei e conversei com várias pessoas para entender o porquê do uso deste termo “manta líquida” para um produto que não é pré-fabricado e cheguei à seguinte conclusão: as mantas pré-fabricadas transmitem segurança a quem as compram pelo princípio de que elas passam por controles de qualidade que comprovam o atendimento das normas técnicas, o que faz deste produto – entre eles, a manta asfáltica – ser uma referência às obras novas e em reformas, nos mais diversos tipos de construção.

Mas sempre com o apelo de que é necessária uma mão de obra treinada para aplicação, que precisa ser colada ao substrato com uso de asfalto a quente ou com auxílio de maçarico a gás (GLP).

Bingo! Temos um produto líquido com o apelo de que não é necessária mão de obra especializada e que vai resolver o problema, custando pouco ou quase nada, pois qualquer pessoa pode fazer sua aplicação. Por que se preocupar com o que está ou não escrito nas embalagens?

Acho que deve se preocupar sim. Gaste um tempinho para ler, com paciência, o que está nas embalagens dos produtos, pois encontrará muitos termos superlativos: excelente cobertura, alto poder de alongamento, alta resistência a intempéries, secagem ultrarrápida e sem emendas, elevada estanqueidade à água etc.

Mas não temos parâmetros para os termos usados! Onde estão os resultados que comprovam, por meio de testes, os desempenhos alegados?

Em alguns casos vamos encontrar a citação de que a “manta líquida” atende à norma ABNT NBR 13321 – que é para membranas acrílicas –, o que leva essa referência à seguinte definição na mesma norma já citada: a ABNT NBR 9575.

Membrana para impermeabilização: camada de impermeabilização moldada no local com características de flexibilidade e com espessura compatível para suportar as movimentações do substrato, podendo ser estruturada ou não.

Eureka! Toda “manta líquida” é uma membrana para impermeabilização!

Para facilitar o entendimento de todos, vamos focar nos produtos de base acrílica que devem atender à ABNT NBR 13321, na qual estão as exigências quanto ao desempenho, com uso ou não de reforço/estruturante, bem como as condições de aplicação; para deixar mais claro, segue o que é previsto para este tipo de impermeabilização, logo na primeira página da norma.

1 Escopo da ABNT NBR 13321
1.1 Esta Norma fixa as condições mínimas exigíveis para membrana acrílica monocomponente à base de polímeros acrílicos termoplásticos em dispersão aquosa, destinada a impermeabilizar as superfícies que devem ficar expostas às intempéries, sobre as quais é limitado o trânsito para manutenção eventual.
1.2 Esta Norma não se aplica à utilização de membrana acrílica em lajes com proteção mecânica ou em qualquer tipo de piso de acabamento, bem como em lajes sujeitas ao trânsito de pessoas ou veículos de qualquer natureza.

Não é discriminação, mas ao pesquisar na Internet encontrei mais de 10 produtos com o apelo comercial de “manta líquida”. E, ainda por cima, que podem ser feitos com diferentes matérias-primas – entre elas, asfálticas, poliuretano e resinas sintéticas – e diversas cores; que aceitam o assentamento direto de revestimento; que podem ser aplicados em áreas molhadas, em lajes expostas ou não; e que tem elevada estanqueidade à água. Ufa!

No que diz respeito ao que a ABNT NBR 13321 exige de requisitos de desempenho mínimo para membrana acrílica sem armadura e ao que os fabricantes declaram em seus informativos ou boletins técnicos, temos uma enorme distância. Para este fim, apresento uma tabela comparativa, só com quatro produtos que facilmente se encontram em lojas de varejo da construção civil.

Tabela comparativa de desempenho, de acordo com a ABNT NBR 13321 – sem uso de estruturante – para produtos de base acrílica.

Requisitos da ABNT NBR 13321

Unidade

Parâmetros

Produto A

Produto B

Produto C

Produto D

Resistência à tração na ruptura- mínimo

MPa

1,5

Vide obs.*

Nada informa se atende à norma

Nada informa se atende à norma

Nada informa se atende à norma

Alongamento na ruptura-mínimo

%

100

Vide obs.*

Idem acima

Idem acima

Idem acima

Absorção de água-máximo

%

15

Vide obs.*

Idem acima

Idem acima

Idem acima

Envelhecimento por intemperismo artificial

-

Sem alterações

Vide obs.*

Idem acima

Idem acima

Idem acima

Alongamento na ruptura após envelhecimento mínimo

%

100

Vide obs.*

Idem acima

Idem acima

Idem acima

Flexibilidade à baixa temperatura após o envelhecimento (5°C)

°C

Sem fissuras

Vide obs.*

Idem acima

Idem acima

Idem acima

Obs.* O fabricante A já comete um equívoco ao citar a ABNT NBR 13321, pois essa norma não reconhece o termo “manta líquida” e não mostra os resultados de desempenho do seu produto.

Basta de jogar dinheiro e tempo fora, só porque se parte da premissa de quem compra deve saber o que está fazendo. Será?

Enfim, o que queremos é explicar e não confundir. Para isso acontecer é necessário que as informações ou indicações para aplicação de um tipo de impermeabilização sejam claras e objetivas. E só temos uma maneira, que é disciplinar essa atividade, criando ou revisando normas técnicas.

Uma oferta legítima de soluções de impermeabilização é pertinente para todas as necessidades. Afinal, não é o tamanho da área impermeabilizada, mas sim a importância da garantia de estanqueidade, desde um pequeno local em uma residência modesta até a mais sofisticada cobertura.

Todos querem a mesma coisa: sossego e certeza de que não será incomodado pelas consequências – sempre danosas – da presença ou passagem de água pela sua construção.

Como a intenção desta série de artigos é ser iterativa, seguem as minhas propostas à discussão do tema, para as quais conto com seus comentários.

Você já usou?
O que você acha deste tipo de impermeabilização?
Como foi sua experiência?

Normas citadas
ABNT NBR 9575:2010 – Impermeabilização – Seleção e projeto. Confirmada em 16.06.2015
ABNT NBR 13321:2008 - Membrana acrílica para impermeabilização

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Marcos StorteArticulistaMarcos Storte

PERFIL

Mestre em Engenharia Civil pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, é Diretor Técnico da A2S Engenharia e perícia e possui larga experiência na área de impermeabilização e acústica. Autor de mais de 60 trabalhos apresentados em simpósios nacionais e internacionais, é professor de pós-graduação em cursos de patologia em obras civis. É autor do livro "Látex Estireno Butadieno – Aplicação em Concretos de Cimento e Polímeros", do e-book “Impermeabilização na Construção Civil” e do capítulo "Impermeabilização" no livro "Materiais de Construção", 6ª edição, volume 2, Luiz Alfredo, Falcão Bauer.

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