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O problema da Copa e a sustentabilidade de estádios modernos

Artigo de Mario Biselli e Paulo Malucelli, diretores gerais da RMJM Brazil

Enquanto o furor dos Jogos Olímpicos de 2016 aumenta desenfreadamente, o Brasil depara-se com um desafio monumental. A maior economia da América do Sul tem pela frente a tarefa nada invejável de justificar o valor de aproximadamente 52 bilhões de reais da organização da Copa do Mundo FIFA 2014. Para o fazer, será necessário encontrar uma segunda vida para os cinco estádios de futebol erguidos para o torneio. Com um custo total de construção estimado entre 4,15 a 13,6 bilhões de reais, receia-se que a solução não virá tão cedo.

O grande elefante branco

Passados pouco mais de dois anos após a Copa do Mundo, muitas das arenas construídas para sediar o torneio precisam de reparos, gastando o dinheiro de uma economia pouca dinâmica e dos próprios clubes esportivos associados a eles. Os custos de manutenção já começaram a ultrapassar qualquer rendimento da venda de bilhetes e merchandising. Vários desses estádios foram construídos em áreas onde não existe um clube profissional popular a ponto de justificar a continuidade do seu uso após o torneio.

Vejamos o Estádio Nacional Mané Garrincha, por exemplo. Construído em Brasília por cerca de 3,4 bilhões de reais, a arena, com capacidade para 72 mil pessoas, é usada como uma estação de ônibus. O projeto ‘Casa Futebol’ propôs tornar os estádios da Copa do Mundo do Brasil - incluindo o Estádio Nacional de Brasília - em habitações de baixo custo. Este projeto, no entanto, tem recebido uma enorme resistência, o que nos faz acreditar que as chances de avanço são pequenas, o que é um grave problema tendo em vista a necessidade de o país tentar superar um déficit residencial.

Quando desenhados e construídos de forma estratégica, os estádios podem se tornar uma fonte integral de receita e orgulho para a comunidade local. Com o crescimento das vendas de bilhetes e receitas dos clubes esportivos que ocupam as arenas, a receita tributária das comunidades em que eles estão inseridos também aumentaria. O Brasil não pode pagar esses enormes monólitos para que mais tarde eles caiam numa espiral de degradação e abandono.

Embora seja compreensível que se tenha instalado esta histeria acerca da Copa do Mundo, teria sido importante que um olho se tivesse mantido aberto ao futuro, nomeadamente em relação os usos dos estádios após a Copa.

Estádio Nacional Mané Garrincha, em Brasília (crédito: cortesia do Governo Brasileiro / CC-BY 3.0 Br)

O estímulo da Copa do Mundo 2014 e dos futuros Jogos Olímpicos de 2016 poderá ajudar a compensar a estagnação econômica, mas é preciso considerar o uso a longo prazo que vai ser dado a esses estádios. A maioria deles não voltará a ver nenhuma grande competição nos próximos anos, e os encargos municipais construídos nas costas de uma nação onde cerca de 7,4% da população total vive em pobreza são gigantescos. A única forma de impedir o contínuo desuso dessas arenas que fazem sangrar as cidades brasileiras é encontrar uma funcionalidade alternativa o quanto antes.

Como fazer com que complexos esportivos se mantenham atuais?

Ao projetar um grande complexo esportivo é vital que os designers considerem o seu enquadramento. Outros futuros projetos nas redondezas, assim como eventuais mudanças nas leis de zoneamento poderão vir a ter um impacto dramático na esperança de vida de um projeto. Ao considerar a situação dos clubes esportivos e atletas que mais frequentemente utilizam os complexos esportivos, os designers começam a construir um retrato mais completo do quão sustentável o seu projeto será.

No processo de design, elementos como o frequentemente ridicularizado teto retrátil podem garantir uma maior duração do edifício assim como contribuir para as capacidades poliesportivas do mesmo. O campo de tênis Margaret Court, em Melbourne, na Austrália, incorporou um telhado que cria sombra para os seus clientes. Ao fazê-lo, os designers permitiram que o campo obtivesse a versatilidade necessária para ser utilizado como um espaço de música e teatro, com a capacidade de ter equipamento teatral para concertos interiores pendurado na cobertura.

Margaret Court em Melbourne, Austrália, antes da renovação e acréscimo da cobertura (crédito: domínio público / Wikimedia Commons)

Da mesma maneira, versatilidade foi um elemento-chave em cada estágio do processo de design do Beijing Olympic Green Centre, da RMJM, que após os jogos viria a chamar-se China National Convention Center. Originalmente criado como um dos quatro espaços principais para os Jogos Olímpicos de 2008 em Pequim, esse complexo esportivo de 375 mil m² foi desenhado com o intuito de ajudar a impulsionar o turismo após o torneio. Durante os Jogos, o complexo hospedou o maior centro de mídia da história olímpica, assim como os espaços para Pentatlo Moderno e Esgrima Olímpica. Depois de ser renovado e reaberto em novembro de 2009, o edifício foi palco de quase 200 exibições, conferências, banquetes e performances, com mais de 100 mil delegados e milhares de expositores até o Festival da Primavera de 2010. Esse espaço foi desenhado com paredes ajustáveis e um piso facilmente regulado, com particular atenção para assegurar que pudesse vir a ser utilizado para o mais diverso número de funções possíveis após o torneio Olímpico.

Legado pós-copa

Nem todos os complexos esportivos têm que permanecer dentro do mesmo setor durante toda a sua existência. Em Barcelona, o Las Arenas foi um símbolo do legado da tauromaquia na cidade e herança catalã. O declínio tauromáquico fez com que o estádio fosse abandonado no final da década de 1970, mas o governo local optou por não o destruir. Seguindo extensivas renovações, a arena foi reaproveitada como um shopping center, assegurando que o estádio mantivesse um propósito e infraestrutura enquanto salvaguardando a sua herança arquitetônica.

As arenas da Copa do Mundo de 2014 podem vir a ser uma fonte de receita para o país uma vez mais, mas, para isso, será preciso que aprendam a potencializar a comunidade circundante. O país deve avaliar as necessidades das cidades e agir com a maior celeridade possível.

Um edifício de vários milhões com pouco valor comercial não tem lugar numa nação desenvolvida, mas, num país em constante luta contra o desemprego e pobreza, torna-se mais um obstáculo no caminho para a estabilidade econômica.

A praça de touros Las Arenas, em Barcelona (crédito: © José Luiz Bernardes Ribeiro / CC-BY-SA 3.0)

Construir para o contexto, não o evento

Uma das mais importantes considerações a se ter no design de um estádio é seu contexto cultural e econômico. A Arena da Amazônia, construída na cidade de Manaus especificamente para a Copa Mundo, custou por volta de 600 milhões de reais. Localizado a centenas de quilômetros das áreas mais povoadas do Brasil e com nenhum time local profissional, o estádio sequer pode hospedar jogos da liga local porque fica muito caro. A arena hospedou apenas onze eventos nos cinco meses que se seguiram à Copa do Mundo. Os custos de manutenção quase ultrapassam a receita do estádio, o que eventualmente significará que a arena custará mais dinheiro à cidade.

A receita do imposto predial, que poderia ser retirada pelos terrenos onde os estádios foram construídos, é dinheiro que poderia ser utilizado para aliviar os problemas socioeconômicos da população das redondezas.

Arena da Amazônia, em Manaus (crédito: cortesia do Governo do Brasil / CC-BY 3.0 BR)

Enquanto o China National Convention Center foi desenhado para se adaptar às necessidades do evento, os estádios construídos para a Copa no Brasil sofreram as consequências da sua inflexibilidade.

Cada vez mais, frequentemente espaços esportivos são desenhados de forma a serem mais adaptáveis à dimensão da sua audiência ou tema do evento. Com a tecnologia adequada, os espaços podem ser rebaixados, alterados e mesmo transformados para que possam cumprir uma nova função. Isso garante que os estádios sejam ocupados com maior regularidade e durante maiores períodos de tempo, trazendo uma receita sistemática para o proveito da comunidade local.

Sustentabilidade ambiental

Ao desenhar grandes complexos esportivos, um dos grandes desafios enfrentados por arquitetos está em desenvolver instalações capazes de integrar inovações, antecipando futuros elementos de design, deixando assim as portas abertas para renovações. Com o desenvolvimento da tecnologia BIM e mapeamento de dados inteligentes, o potencial de integração de novos elementos dentro de uma estrutura já existente é atualmente possível, a tal ponto que estruturas possam ser renovadas enquanto o complexo ainda está em uso. Ao incluir tecnologias tais como painéis solares, gestores de águas pluviais e turbinas eólicas, o Brasil poderá colher frutos do seu clima tropical e, consequentemente, reduzir drasticamente o consumo energético, o que resulta na poupança durante e após determinados eventos. Em Taipei, o Estádio Nacional Kaohsiung faz uso do seu clima subtropical com uma fachada completamente coberta por painéis solares. Os painéis deste estádio geram a maior parte da energia necessária para a sua operação ao mesmo tempo em que fornecem energia adicional para a área circundante em dias em que não estão em uso.

O mais importante aqui é que estes estádios sirvam aos interesses da comunidade local durante mais do que meia dúzia de dias por ano. Eles têm que ser desenhados de forma a poder responder às futuras evoluções econômicas, culturais e físicas. Poderá ser demasiado tarde para ter um impacto significativo na atual crise brasileira, mas não é por isso que deixa de ser vital que cada projeto incorpore maior flexibilidade, investimento e inovação para atrair mais investimento e manter a sua relevância bem após o apito final.

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