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Boa gestão das compras resulta em aumento da produtividade

Segundo relatório do Instituto McKinsey, investir na gestão de compras e cadeia de suprimentos (além de outras seis áreas estratégicas) pode aumentar a produtividade da construção civil em mais de 50%

Redação AECweb / e-Construmarket

O relatório do McKinsey Global Institute (MGI) intitulado Reinventing construction: A route to higher productivity analisa o setor da construção civil mundial e estabelece um roteiro para elevar a produtividade em até 60%. Entre as recomendações denominadas “sete dimensões” consta a melhoria da gestão de compras e da cadeia de suprimentos.

De acordo o estudo, “o setor da construção emprega cerca de 7% da população mundial em idade produtiva e é um dos maiores da economia, com gastos anuais de US$ 10 trilhões em bens e serviços relacionados à atividade”. Contudo, enfrenta um grave problema de produtividade, com potencial para aumentar em US$ 1,6 trilhão seu valor agregado.

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O relatório McKinsey Global Institute analisa o setor construtivo mundial e estabelece um roteiro para elevar a produtividade em até 60% (wutzkohphoto/shutterstock)

Francisco Ferreira Cardoso, professor doutor do Departamento de Engenharia de Construção Civil da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, confirma que, no Brasil, a construção civil absorve um percentual da mão de obra em idade produtiva até maior do que esse valor, dependendo do momento de crescimento da economia do país. “É a maior indústria, porém não apresenta o nível de produtividade médio nos canteiros de obras, comparável com o da maioria dos países”, observa.

CAUSAS

Produzido com base em pesquisas do MGI Construction Productivity Survey, o relatório aponta que a construção é um dos setores menos digitais do mundo. Nos Estados Unidos, ocupa o penúltimo lugar e, na Europa, é o último no Índice de Digitalização do MGI.

As razões da baixa produtividade seriam, entre outras, a elevada regulamentação e dependência do setor público. A ampla prática da informalidade e, muitas vezes, a corrupção colaboram para distorcer o mercado. Além disso, os contratos não estão alinhados em termos de alocação de risco e recompensas. E, com frequência, compradores e proprietários inexperientes têm dificuldade para navegar em um mercado com pouca transparência.

O resultado disso é má gestão e execução dos projetos, habilidades insuficientes, desenho de processos inadequado e baixo nível de investimento no desenvolvimento de capacidades, pesquisa, desenvolvimento e inovação.

NO BRASIL

Para Cardoso, a construção civil brasileira evolui nos momentos de expansão. Mas as empresas não fazem a gestão adequada do conhecimento e, quando vem a crise econômica, há um retrocesso. “É o efeito ‘serrote’, ou seja, desenvolve e cai. Estamos no momento de baixa. Em muitas empresas, principalmente do setor imobiliário e de infraestrutura – os mais penalizados –, as áreas de inovação e de engenharia estão sendo desmobilizadas, perdidas. Isso terá consequências, claro”, analisa, ressalvando que, se comparada à construção praticada há 20 anos, é possível perceber um desenvolvimento acentuado.

O professor discorda, porém, de uma das conclusões do relatório de que a maior ineficiência está apenas nas pequenas empresas da construção. “Há dez anos, quando havia grande volume de financiamento e juros baixos, as grandes construtoras transferiram sua ineficiência para o preço dos imóveis. Naquele período, perderam uma grande oportunidade de evoluir no controle gerencial e em tecnologias construtivas. Exceção feita àquelas que atuam no segmento de habitações de interesse social, no qual o ganho de eficiência é inegável”, diz.

Já diversas pequenas empresas prestadoras de serviços conseguiram se consolidar naquele momento, incorporando tecnologia e inovação. “Agora, estão sofrendo enormemente”, lamenta Cardoso. Há, ainda, outras que não se veem motivadas a evoluir, já que, em geral, são contratadas pelo menor preço. As construtoras não querem pagar pelo valor agregado por esses fornecedores. “É uma das formas mais perversas de perpetuação da ineficiência. Sofrem as pequenas e também as contratantes. E aí estamos falando da cadeia de suprimentos”, diz.

SETE DIMENSÕES

Fundamentado em exemplos de empresas e regiões inovadoras, o relatório do Instituto McKinsey sugere que atuar em sete dimensões, simultaneamente, pode aumentar a produtividade em 50% a 60%. São elas: redefinição da regulamentação; readequação do modelo contratual para redefinir a dinâmica da indústria; remodelação dos processos de desenho e engenharia; melhoria da gestão de compras e cadeia de suprimentos; melhoria na execução das obras; uso de tecnologia digital, novos materiais e técnicas avançadas de automação; e capacitação da mão de obra.

Como professor da disciplina de Gestão de Suprimentos em curso de pós-graduação da Poli-USP há 17 anos, Francisco Cardoso vem apresentando um modelo para o qual muitas empresas estão migrando. Ele enfoca de modo sinérgico a gestão de compras, o processo interno das construtoras, e a gestão da cadeia de suprimentos, que se volta para os fornecedores.

Mudou muito o perfil do profissional de compras. Antigamente, era aquele funcionário que tinha uma boa agenda de telefones e contatos com fornecedores. Agora é o profissional qualificado que participa das decisões estratégicas da empresa
Francisco Ferreira Cardoso

“Mudou muito o perfil do profissional de compras. Antigamente, era aquele funcionário que tinha uma boa agenda de telefones e contatos com fornecedores. Agora é o profissional qualificado – engenheiro ou arquiteto – que participa das decisões estratégicas da empresa. Ele tem uma visão sistêmica da organização, pois entende da produção, do cliente que é a obra e do contratante. As ferramentas de uso gerencial também são outras, assim como a rotina de compras e contratações”, destaca.

A principal questão, de acordo com o professor, é perceber que a gestão da cadeia de suprimentos deve se pautar pelo papel estratégico do serviço ou produto que o comprador contrata dos fornecedores. “Se é um produto fundamental, com poucos fornecedores, a negociação envolverá tempo, conhecimento e histórico da empresa fornecedora e os seus dirigentes. Na outra ponta, de materiais de rotina, ele poderá fazer compras por comércio eletrônico, pois tem muitos fornecedores que podem ser qualificados pelos critérios de atendimento às normas técnicas. E entre esses, é possível comprar por preço – é outra lógica”, ensina.

INDUSTRIALIZAÇÃO

O uso em larga escala de componentes padronizados pré-fabricados é recomendado pelo relatório. Segundo os dados, sistemas industrializados permitem à obra um aumento de cinco a dez vezes na produtividade. “Esse é um modelo ótimo, na teoria, pois estamos muito longe disso”, observa o professor.

A industrialização da construção não precisa ser feita num ambiente industrial, pois seus conceitos podem ser aplicados no próprio canteiro de obras
Francisco Ferreira Cardoso

Novamente, reportando-se à produção de moradias do programa Minha Casa, Minha Vida, ele conta que as grandes construtoras do segmento não adotam sistemas pré-fabricados. Mas pensam e executam a obra num ritmo industrial. “A industrialização da construção não precisa ser feita num ambiente industrial, pois seus conceitos podem ser aplicados no próprio canteiro de obras. Essa vertente já é uma realidade”, relata.

Leia também: Departamento de compras pede gestão integrada

Colaboração técnica

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Francisco Ferreira Cardoso – Graduado em Engenharia Civil pela Universidade de São Paulo (1980), fez mestrado em Engenharia de Construção Civil e Urbana na Universidade de São Paulo (1986), doutorado na subárea de Économie et Sciences Sociales na École Nationale des Ponts et Chaussées (1996) e pós-doutorado no Centre Scientifique et Technique du Bâtiment (2001), ambos na França. Professor Titular da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo da Especialidade Tecnologia e Gestão da Produção na Construção Civil. É vice-chefe do Departamento de Engenharia de Construção Civil e presidente da Comissão de Graduação da Escola Politécnica da USP. É membro do Conselho Fiscal do Conselho Brasileiro de Construção Sustentável (CBCS) (suplente); foi presidente da Associação Nacional de Tecnologia do Ambiente Construído (ANTAC) (2008-10), vice-presidente (2010-12) e diretor de Relações Inter-Institucionais em duas gestões (2006-08 e 2012-14). Atua no Programa Brasileiro de Qualidade e Produtividade do Habitat (PBQP-H) do Ministério das Cidades e é membro do Comitê Nacional de Desenvolvimento Tecnológico da Habitação – CTECH. Tem experiência de pesquisa na área de Engenharia Civil (Construção Civil), com ênfase nas linhas “Competitividade, qualidade e modernização produtiva” e “Gestão da produção na construção civil”.
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