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Conheça as principais atitudes para a gestão de projetos sustentável

Gerenciar projetos com olhar na sustentabilidade envolve, entre outras ações, cultivar relações éticas com clientes, fornecedores e a sociedade como um todo

Redação AECweb / e-Construmarket

No atual contexto político e econômico, as organizações estão conscientes de que o modelo de gerenciamento dos seus empreendimentos deve refletir uma prática sustentável, para que possam perpetuar e cumprir seu papel social. “É preciso construir um novo modelo de gerenciamento de projetos, adequado à nossa cultura e com respeito consciente entre as partes envolvidas, numa relação ética e mais transparente, baseada no ganha-ganha", defende a pós-doutora em engenharia de Produção, Tânia Belmiro.

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Empresas da construção reavaliam questões ambientais e sociais (Ditty_about_summer/ Shutterstock.com)

Embora a avaliação tradicional baseada no lucro e em indicadores financeiros tenha se mostrado insuficiente para perpetuação dos negócios no mundo todo, o setor da construção civil por muito tempo continuou estagnado nesse modelo de gestão. Mais recentemente, contudo, as empresas da construção passaram a reavaliar as questões ambientais e também as sociais.

“Está claro que uma empresa não é considerada sustentável se não considerar as relações éticas com seus clientes, fornecedores e o conjunto da sociedade. Portanto, reavaliar os modelos de gestão tornou-se urgente”, menciona. Inclui-se aí a discussão de métodos de proteção ambiental, justiça social, métodos construtivos, inserção da tecnologia da informação baseados nos modelos BIM e eficiência econômica.

Além disso, as empresas devem considerar a aceitação cultural de seus negócios pela sociedade, ou seja, preocupar-se com a forma como o seu empreendimento vai afetar a comunidade do entorno. E saber quais são os trade off que elas estão dispostas a fazer com essa vizinhança, de forma a conciliar os interesses das partes para a sustentabilidade do negócio.

ATITUDES SUSTENTÁVEIS

Uma gestão sustentável envolve questões como:

  • contratar e exigir de fornecedores que sejam sustentáveis, por exemplo, no transporte dos materiais até o canteiro, na aquisição de matéria-prima e na escolha do método construtivo

  • estar atento aos que prestam serviços na obra em relação à sua capacitação, treinamento, segurança

  • cumprir tudo o que foi prometido em contrato

  • optar por materiais regionais sempre que possível e com menos impacto ao meio ambiente

  • dedicar-se a estudar as soluções disponíveis que garantem economia de energia, ou seja, implantar gerenciamento de projetos utilizando recursos de maneira mais sustentável

A IMPORTÂNCIA DO PLANEJAMENTO

De acordo com Tânia Belmiro, cada organização tem seu próprio modelo de gerenciamento de projetos, mas o que mais tem influenciado negativamente os resultados do setor é a falta de planejamento. Essa é a etapa em que a maioria das construtoras falha. Na ânsia por conquistar um novo contrato de obra ou licitação de governo, elas reduzem ao mínimo essa etapa – considerada vital pelas boas práticas da gestão de projetos.

No planejamento, avaliam-se o escopo do projeto e os requisitos que atendem às necessidades do cliente e respeitam as regulamentações vigentes. E mais: em quanto tempo é possível entregar esse projeto, considerando as restrições de recursos, sejam eles de materiais, de equipamentos ou de pessoas; e quais são os riscos a ser avaliados, desde os ambientais aos sociais e operacionais, passando pelos financeiros. “É com essa discussão integrada, considerando todas as variáveis, que o setor da construção deve se preocupar antes de iniciar a execução de um projeto ou, até mesmo, antes de assinar o contrato com o cliente. Portanto, ainda na fase de planejamento”, recomenda a professora.

Ela alerta que não será possível cumprir com o descrito no contrato caso o planejamento não seja consistente e capaz de mitigar riscos. “Essa cultura deve ser disseminada entre todos, construtoras, incorporadoras, clientes, governo, fornecedores e assim a cadeia de negócios fluirá com menos atropelos”, diz.

Está claro que uma empresa não é considerada sustentável se não considerar as relações éticas com seus clientes, fornecedores e o conjunto da sociedade
Tânia Belmiro

A QUEM CABE

Para Tânia Belmiro, uma gestão sustentável começa com uma definição clara dos valores do dono da empresa e do empreendimento. Para uma organização madura em gerenciamento, é usual o processo de avaliação estratégica do empreendimento, antes de aceitá-lo. É preciso analisar quais seriam as diretrizes que garantiriam a sobrevivência do negócio a curto, médio e longo prazo. Depois de aceito, a empresa autoriza um profissional de sua equipe a assumir o papel de gestor de projetos. O planejamento e os requisitos de gestão daquele empreendimento serão da alçada desse profissional, que vai planejar essas variáveis de maneira integrada a partir do desenho estratégico. “Se ele não tem sustentação do dono do empreendimento e nem uma visão orientada para a sustentabilidade, é quase impossível pautar suas ações pelos parâmetros sustentáveis”, comenta.

As construtoras que incorporam seus próprios empreendimentos têm mais maleabilidade para implementar uma gestão sustentável, se comparadas às que constroem para terceiros e aquelas dedicadas às obras públicas. De acordo com a professora, todas as decisões estão nas mãos dessas empresas para fazer a gestão do empreendimento de acordo com o que consideram mais adequado. As restrições estão, neste caso, mais relacionadas aos aspectos conjunturais e culturais, externos à organização. “Nada é simples. Mas se as empresas tiverem em seus quadros executivos com valores orientados às boas práticas de gerenciamento de projetos, implantar uma gestão sustentável fica mais natural. Porém, a maioria passa ao largo, porque tem práticas arraigadas pouco sustentáveis e pouco produtivas”, comenta.

Na categoria de construtoras de obras públicas, ela lembra que as licitações falham no estabelecimento de requisitos para a execução do empreendimento com base em gerenciamento sustentável. Já no caso da construção de projetos para incorporadoras, a demanda é executar o mais rápido possível, com a garantia de elevada margem de receita. As questões relativas à sustentabilidade da gestão ficam em segundo plano.

“A gestão dos empreendimentos na construção está sob controle das áreas financeira e comercial, quando deveria ser da alçada dos técnicos e dos engenheiros. São eles que detêm o conhecimento para avaliar os requisitos ambientais, de qualidade, de eficiência energética, para desenvolver o planejamento do projeto que concilie os aspectos de segurança, qualidade e rentabilidade”, conta. Uma gestão ideal seria feita a quatro mãos: financeira, comercial e técnica, todas com o mesmo peso nas decisões.

A gestão dos empreendimentos na construção está sob controle das áreas financeira e comercial, quando deveria ser da alçada dos técnicos e dos engenheiros
Tânia Belmiro

O resultado dessa falta de integração é a baixa produtividade nas obras. Associada a esta prática unilateral nas decisões, a produtividade deve permanecer baixa enquanto não forem adotados métodos construtivos como o Lean Construction, além da aquisição de equipamentos mais modernos, já que os utilizados são arcaicos.

“Como não dispomos de indicadores, esbarramos na carência de uma gestão baseada em fatos. O que temos são empresas familiares, habituadas a determinados processos e resistentes às mudanças. Embora exista entre seus executivos a consciência de que os métodos de gestão deveriam ser aprimorados, incorporando ferramentas como o BIM e a integração de todos os projetos e variáveis, o dono da empresa permanece no passado”, revela.

Segundo Belmiro, avanços nesse sentido são necessários, contudo, a mais desafiadora quebra de paradigma é a da mudança na gestão. Empresários precisam olhar de forma diferente para o empreendimento e considerar que seu negócio deveria investir 60% do tempo em planejamento para crescer de forma sustentável. Assim, seriam reduzidos substancialmente os riscos e prejuízos da fase de execução e o atual grau de retrabalho, atrasos, estresse e pleitos contratuais. “Também seriam evitados os orçamentos que extrapolam o valor inicialmente previsto e, que por fim, impactam a lucratividade”, conclui.

Leia também: Decisões da gestão de projetos devem levar em conta critérios sustentáveis

Colaboração técnica

Tânia Belmiro – Pós-doutora em Engenharia de Produção (USP); Ph.D. em Engenharia de Produção (Heriot-Watt University, Escócia). Engenheira Eletricista (UFU). Certificação PMP (PMI). Certificação Prince2 Practitioner - Project Management. Auditora Líder NBR ISO 9001. Ex-Diretora Eventos do capítulo do PMI São Paulo. Profa. do Sinduscon São Paulo. Consultora e instrutora nas áreas de Gerenciamento de processos (BABOK) e projetos (PMBOK). Revisora do guia de extensão em Construção do PMI (2015). Professora em MBAs da FGV, FIA e BBS. Autora de livros e artigos sobre gestão de projetos, processos e qualidade.
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