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Edificações sustentáveis beneficiam comunidades rurais

Projeto premiado na Itália sugere construções que proporcionem bem-estar aos agricultores de pequenas comunidades

Redação AECweb / e-Construmarket

Edificação sustentável
Com 46 m², é um abrigo com copa, refeitório, banheiros, mesas para manuseio de sementes e mudas, além de área para guardar ferramentas (foto: divulgação/Estúdio Flume)

Um projeto brasileiro de abrigo para trabalhadores rurais foi o vencedor do prêmio Call For Solutions 2016, promovido pela Fondazione Giacomo Brodolini, da Itália. O trabalho elaborado pelo Estúdio Flume é um protótipo de edificação sustentável, que prevê o uso de materiais locais e tem como objetivo melhorar a condição de trabalho dos agricultores. Trata-se de um abrigo com copa, refeitório, banheiros, mesas para manejo de sementes e mudas, além de área para guardar ferramentas – tudo distribuído em 46 m².

A proposta é que esse tipo de edificação dispense o uso de tecnologias sofisticadas, mas sem deixar de aproveitar estratégias arquitetônicas inteligentes. “Levando em consideração as características bioclimáticas das regiões Norte e Nordeste do país, com clima quente e períodos definidos de fortes chuvas, a estrutura do piso foi elevada e a cobertura duplicada, gerando assim correntes permanentes de ventilação natural”, explica a arquiteta Noelia Monteiro, titular do escritório Flume.

Materiais locais

A cobertura cumpre a função de criar sombras, diminuindo as altas temperaturas, e também de captação da água da chuva. “A cobertura foi desenhada em formato de ‘V’ para canalizar toda a precipitação pluvial. A água é armazenada em tanques, que os agricultores poderão administrar para cultivo ao longo dos meses de seca”, detalha a arquiteta. Para as paredes, o tradicional tijolo é substituído pela palha de babaçu – com fechamento mais leve, de pouca massa construída e que reduz ao máximo a inércia térmica.

A folha de babaçu é uma vegetação abundante nessas regiões do país, assim como a madeira usada na estrutura da edificação. “O projeto foi concebido, inicialmente, para ser executado nos estados do Maranhão e Pará. Entretanto, uma vez que a estrutura independe do fechamento, o projeto se adapta a qualquer local: o que muda é somente o material de fechamento”, ressalta Monteiro, destacando que no caso de as obras serem realizadas em outros estados, é preciso verificar os insumos disponíveis.

Vantagens

Queremos retomar práticas construtivas locais esquecidas por serem associadas à precariedade, à pobreza e à informalidade
Noelia Monteiro

Como o sistema construtivo adotado é constituído de elementos pré-fabricados, combinados com material local, é possível ter um canteiro de obras seco, com pouca geração de resíduos e baixo impacto ambiental. A solução modular permite, ainda, reduzir o tempo de construção. Em regiões isoladas, de difícil acesso, o uso tradicional em tijolo gera altos custos de logística, transporte de matéria-prima e despesas com deslocamento de mão de obra. “Queremos retomar práticas construtivas locais esquecidas por serem associadas à precariedade, à pobreza e à informalidade”, afirma Monteiro.

A ideia é que a edificação, que pode facilmente ser expandida, seja instalada no meio do campo agrícola. Os trabalhadores terão espaço para descansar, fazer refeições e se higienizar. Em um primeiro momento, pode parecer pouca coisa, mas, nas pequenas comunidades, esse tipo de estrutura inexiste, o que torna insalubre a atividade dos agricultores. Em geral, também faltam saneamento básico e coleta de lixo. “Temos que voltar no tempo e entender como se fazia quando esses serviços não existiam”, fala a profissional. O material orgânico, por exemplo, pode ser aproveitado para produção de adubo por meio da compostagem. Outra opção interessante é canalizar as águas cinzas e filtrá-las antes de devolvê-las à natureza, reduzindo os impactos negativos.

Processo e custos

“Levar essa edificação até as comunidades envolverá um processo de diversas fases”, esclarece a especialista. Depois do desenvolvimento do projeto executivo, será preciso apresentá-lo aos agricultores que queiram fazer a implantação na sua própria porção de terra. Também seria interessante que a iniciativa chegasse aos organismos públicos ou privados que enxergam no projeto uma alternativa de investimento social.

O investimento necessário para a execução do projeto só será conhecido depois de finalizado o projeto executivo. “Mas, no estudo de viabilidade, chegamos preliminarmente ao valor de 1/3 em relação ao valor do m² do Minha Casa, Minha Vida”, informa Monteiro. Como é modular, o protótipo oferecerá diversas opções de custos em função da área construída.

Inovações no setor da agricultura

O Call For Solutions 2016 selecionou projetos de diversas áreas que propunham inovações no setor rural. “Enquanto nas grandes cidades vivemos em uma bolha, continuam existindo várias regiões no interior do país que não têm suas necessidades básicas supridas. Esse cenário não é exclusividade do Brasil, mas também acontece em toda a América Latina e demais países em desenvolvimento”, fala a arquiteta.

Mostramos ser possível uma solução construtiva pensada especificamente para a realidade das regiões mais afastadas no Brasil
Noelia Monteiro

O reconhecimento de que o projeto do escritório Flume pode colaborar para alterar essa realidade veio quando o protótipo foi premiado na Itália. “Compartilhamos nossas ideias com profissionais de diversas áreas de estudo, vindos de diferentes partes do mundo. Mostramos ser possível uma solução construtiva pensada especificamente para a realidade das regiões mais afastadas no Brasil”, finaliza Monteiro.


Leia também: Edificações sustentáveis: como planejar uma?

Colaboração técnica

Noelia Monteiro
Noelia Monteiro – Graduada em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Nacional de Córdoba. Após ter morado na Itália e na Inglaterra, estabeleceu-se em São Paulo, onde obteve pós-graduação em Habitação e Cidade, e também em Geografia, Cidade e Arquitetura, ambas pela Escola da Cidade. Desde o início de sua carreira, tem procurado criar soluções arquitetônicas acessíveis a todos. Seu primeiro projeto nessa área foi o Centro Cultural para Villa el Libertador, que foi premiado pelo Colegiado de Arquitetura e Urbanismo de Córdoba. Desenvolveu projetos em diferentes territórios, como a expansão da sede da ONG Casa do Caminho, localizada no Rio de Janeiro, assim como a reurbanização de favelas em São Paulo, projeto resultante do Concurso Renova SP, organizado pela Secretaria de Habitação. Em 2015, associou-se a Christian Teshirogi, e juntos criaram o escritório Flume.
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