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Tetos frios conferem conforto térmico às edificações

Além das tintas reflexivas brancas, a engenharia mundial está desenvolvendo materiais e sistemas para criar soluções eficazes e duráveis

Redação AECweb / e-Construmarket

Tintas reflexivas

Na busca pelo conforto térmico das edificações, cresce a prática da pintura branca dos telhados. Há quem defenda que uma mão de cal é suficiente para que as telhas elevem sua capacidade de refletância à radiação solar. Ao mesmo tempo, indústrias sofisticam seus produtos, nacionais ou importados, e lançam novas fórmulas que classificam como apropriadas para essa função. No Brasil, esse segmento de tintas ainda não comprova a eficácia de seus produtos, visto que não há normas técnicas, nem ensaios específicos de laboratório. A importância do tema alcança universidades e centros de pesquisa de vários países, com destaque para Estados Unidos e Grécia, que trabalham para aprimorar soluções que incluem, mas também transcendem a tinta branca refletiva ideal.

“Só faz sentido usar tetos frios se houver uma solução durável. Na verdade, tem muita tinta branca no mercado, porém, não pode ser uma tinta branca que fique preta rapidamente”, alerta o professor doutor Vanderley John, da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, que continua: “Há quem recomende que ‘qualquer cal resolve’. Resolve, mas por quanto tempo? Se a solução durar 30 anos, ótimo. Mas se for só dois anos, a pintura terá que ser refeita”. Ele lembra que a durabilidade é requisito fundamental e cita o critério utilizado pelo CRRC - Cool Roof Rating Council, organização norte-americana de avaliação e certificação de produtos para telhados frios. A base do ensaio de desempenho que utiliza é a verificação do envelhecimento natural por três anos, em três locais diferentes do território. E somente se a degradação for pequena, de acordo com tabela pré-estabelecida, é que o produto recebe o selo.

Precisamos entender que copiar soluções de outros países e climas pode não funcionar aqui. Superfícies frias têm um excelente potencial em climas quentes. E, em muitos casos, inclusive, funcionam melhor do que sistemas de isolamento térmico

“Temos, portanto, três questões a serem consideradas: a ambiental, porque cada vez que o telhado é repintado ocorre um impacto; a econômica, porque a cada nova mão de tinta há um custo, que não é pequeno; e, ainda, o fato de que os telhados brasileiros não são acessíveis, envolvem a segurança e a possibilidade de quebra das telhas”, alerta John. Esse é um mercado promissor, na sua opinião, mas se for aberto para produtos não duráveis e que não tenham bom desempenho, a solução cairá no descrédito. “Depois que um produto ganha má fama no mercado, a ideia é enterrada por uma década, pelo menos. Há empresas com produtos robustos, sofisticados, caros e de enorme potencial, mas não conseguem se diferenciar de outros que não cumprem o que anunciam, porque na falta de critério, todo mundo é igual”, diz.

PESQUISA BRASILEIRA

A organização desse segmento de mercado passará, necessariamente, pela pesquisa que está se iniciando, envolvendo a Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP), a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), e cinco indústrias, entre brasileiras e as que operam internacionalmente. “Cabe a nós, da UFSC, fazer medições em campo e simulações, para comprovar as economias possíveis com o uso de superfícies frias”, informa o professor doutor Roberto Lamberts, destacando que “não só tetos frios, mas paredes frias também são importantes”.

O trabalho conta com a colaboração do Lawrence Berkeley National Laboratory, da California (EUA), que junto com a Universidade de Atenas, é o centro mais avançado nessas pesquisas. “Nós temos até quatro anos para concluir o trabalho, mas acredito que até o final de 2015, já com a aprovação técnica do Sistema Nacional de Avaliação Técnica de Produtos Inovadores (SINAT), o consumidor possa encontrar produtos confiáveis no mercado. Ao final do processo, é previsível que seja criado um selo envolvendo as associações setoriais de tintas, telhas cerâmicas e metálicas. Precisamos criar esse mercado e produtos que não sejam caros”, adianta Vanderley John. Para Lamberts, o PBE Edifica - Programa Brasileiro de Etiquetagem de Edificações, coordenado pelo Inmetro em parceria com a Eletrobras, valoriza a baixa absortância solar. “Falta mencionar a alta emissividade e a questão da durabilidade, o que torna provável que as superfícies frias possam ser consideradas entre os requisitos técnicos no regulamento do programa de eficiência energética dos edifícios”, prevê.

SISTEMAS

Há quem recomende que ‘qualquer cal resolve’. Resolve, mas por quanto tempo? Se a solução durar 30 anos, ótimo. Mas se for só dois anos, a pintura terá que ser refeita

“Estamos entrando numa área em que haverá muitas novas tecnologias, envolvendo materiais e sistemas construtivos”, acredita o professor da Poli, lembrando que a capacidade de refletância vai além das tintas brancas. “Existem tintas escuras, até preto frio – que parece preto, mas que reflete toda a radiação infravermelha que não vemos, quando exposto ao sol”, conta. Já existem, inclusive, pesquisas avançadas na busca de soluções que poderão permitir que, quando está frio, o telhado fique escuro e esquente, e quando está calor, ele clareie e esfrie. “É um processo de médio a longo prazo, algo como dez anos. Aí, para cada região climática teremos soluções específicas”, diz. E não se trata apenas de tinta para telhado, mas poderemos ter uma telha de cerâmica branca vidrada – o revestimento vítreo protege a cerâmica e garante durabilidade.

Pesquisa da Poli-USP, com o apoio da Fapesp, levou ao desenvolvimento de placas cimentícias autolimpantes, com patente já depositada. “Não é uma tecnologia nova, mas sim seu uso, pois o cimento com essa tecnologia poderá ser usado na fabricação de telhas, com resultados bons e baratos”, destaca. Ele defende que todos os materiais têm que participar desse processo de desenvolvimento de tetos frios, da milenar telha cerâmica vermelha às metálicas e de PVC, ainda recentes no mercado. “Apesar de que o setor mais avançado é o da pesquisa das películas orgânicas, com maior capacidade de engenharia e que iniciaram as pesquisas para os telhados frios, poderemos ter uma telha cerâmica branca vidrada, por exemplo”, sugere.

Enquanto as pesquisas brasileiras estão em andamento, Vanderley John faz algumas recomendações para quem deseja adotar solução de telhado frio e reduzir o fluxo de calor para o interior da edificação: “Em primeiro lugar, não se pode usar qualquer tinta e nem pensar em usar as apropriadas para parede. Se a tinta custar o mesmo que as convencionais e não tiver uma avaliação de terceira parte, ou seja, laudo de ensaio que inclua a informação da durabilidade, não aceite. Um bom caminho é procurar por produtos de grandes empresas, com atuação nos mercados norte-americano e europeu – pequenas empresas podem fazer bons produtos, é claro, mas se não têm lastro, também não têm experiência. Sugiro uma consulta ao site do Cool Roof Rating Council, onde estão publicados os fabricantes e marcas avaliados. E lembrar que existem tintas frias coloridas, ou seja, pigmentos frios – não é só branco. As telhas cerâmicas brancas têm que ser as vidradas, são mais caras, mas têm eficiência térmica”.

Finalizando, Roberto Lamberts considera que o Brasil, país de clima quente o ano todo no norte, nordeste e partes do centro-oeste e, no verão, no sul e sudeste com muito sol, o potencial desse mercado é altíssimo. “Precisamos entender que copiar soluções de outros países e climas pode não funcionar aqui. Superfícies frias têm um excelente potencial em climas quentes. E, em muitos casos, inclusive, funcionam melhor do que sistemas de isolamento térmico”, enfatiza.

Colaboraram para esta matéria

Vanderley John
Vanderley John – Engenheiro Civil pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (1982), mestre em Engenharia Civil pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1987) e Doutor em Engenharia Civil pela Universidade de São Paulo (1995). Pós-doutorado no Royal Institute of Technology da Suécia (2001). Professor Associado da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo e membro da coordenação das Engenharias da FAPESP. Foi membro da diretoria executiva da Associação Nacional de Tecnologia do Ambiente Construído (incluindo presidência e vice-presidência) e diretor do CB2 da ABNT. Especializado em Materiais e Componentes de Construção e Construção Sustentável atua em temas como uso de resíduos como matérias primas, materiais e desenvolvimento sustentável, materiais avançados, argamassas de revestimento e colantes, durabilidade (incluindo biodeterioração) e compósitos aplicados à construção civil.
Vanderley John
Roberto Lamberts – Possui graduação em Engenharia Civil pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1980), mestrado em Engenharia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1983) e doutorado em Civil Engineering - University of Leeds (1988). Atualmente é professor titular da Universidade Federal de Santa Catarina. Atua na área de Engenharia Civil, com ênfase em Eficiência Energética, desempenho térmico de edificações, bioclimatologia e conforto térmico. É supervisor do Laboratório de Eficiência Energética em Edificações na UFSC; co-editor do periódico Ambiente Construído; membro do comitê editorial do periódico Journal of Building Performance Simulation; membro das associações científicas ANTAC - Associação de Tecnologia do Ambiente Construído (onde foi da diretoria por vários mandatos); membro do CBCS - Conselho Brasileiro de Construção Sustentável e IBPSA, associação internacional para a simulação do desempenho de edificações. É ainda membro do GT e ST de edificações do MME, apoiando o desenvolvimento da etiquetagem de eficiência energética em edificações.
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