Quais são os principais cuidados na concretagem de lajes?

Tudo começa com um bom projeto estrutural, mas o engenheiro da obra tem a responsabilidade de conferir todos os quesitos técnicos definidos pelo projetista e ainda determinar as características do lançamento

Publicado em: 31/05/2022

Texto: Eric Cozza

foto de um trabalhador da construção concretando uma laje
Cimbramento adequado, nivelamento, aplicação do desmoldante, conferências das frestas e da geometria são alguns dos cuidados a serem tomados no canteiro de obras. Check-list na chegada da betoneira também é fundamental (Foto: Shutterstock)

A concretagem de lajes é um processo que envolve transporte, lançamento, adensamento, nivelamento, acabamento superficial e cura. Nunca é demais lembrar que a qualidade desse procedimento começa com um bom projeto estrutural. E exige a presença de profissional habilitado para o acompanhamento da execução.

Erros podem custar caro às construtoras, atrasar o ciclo de produção das obras e, nos casos mais grosseiros, até causar acidentes estruturais durante a execução ou após a entrega do empreendimento.

Para tirar dúvidas a respeito de um assunto tão importante, o podcast AEC Responde convidou um especialista, o engenheiro Paulo Caracik, sócio fundador da PBC Engenharia, consultoria especializada em estruturas de concreto. Confira a entrevista na íntegra.

AEC Responde – Quais são os principais cuidados na concretagem de lajes?

Paulo Caracik – A concretagem da laje é o final de um processo. Precisamos verificar alguns itens para não termos sustos. Na parte de cimbramento e escoramento, devemos verificar as condições de apoio. Se está apoiado sobre um piso de concreto ou uma laje, é uma situação. Se está sobre o solo, nunca deve estar apoiado diretamente. Em geral, colocamos algumas madeiras para dissipar um pouquinho essa tensão. Trabalhar com cimbramento metálico, principalmente de empresas que forneçam o material acompanhado do serviço de engenharia, é recomendável. Com projeto e ART (anotação de responsabilidade técnica). Vemos hoje em dia vários vídeos na internet com cimbramento de madeira e, infelizmente, muitas vezes, acabam com um acidente. Não que isso não ocorra com o sistema metálico, mas a chance é menor. Então, é importante verificar se está tudo montado como o projeto determina, conferir bem, desde o nivelamento. Passando para a parte da fôrma, trabalhamos muito com compensado de madeira. Importante checar se foi passado o desmoldante, ou não, porque isso vai ajudar na durabilidade dessa fôrma. Deve haver também a conferência das frestas, se estão ok ou não. E da própria geometria: se a viga de 19 centímetros está, de fato, com 19 centímetros. Afinal, o projetista não determinou a medida de forma aleatória. Ele dimensionou a peça para isso. E também toda a parte de travamento da fôrma, para aguentar a pressão do concreto.

AEC Responde – O que é responsabilidade do projetista e o que é obrigação do engenheiro da obra em relação ao concreto?

Caracik – Excelente pergunta, porque isso, muitas vezes, se mistura. O projetista é responsável pelas características que afetam o projeto, incluindo a resistência. Ele é que vai especificar, por exemplo, um concreto classe C-30, que corresponde a 30 MPa. Vai especificar o módulo de elasticidade, que estará diretamente ligado à deformação prevista nessa estrutura. E vai especificar também a parte de agressividade na qual a estrutura estará inserida. Vai mexer no fator água-cimento. Afinal, uma coisa é executar um prédio em Águas de Lindóia, no interior de São Paulo, e outra, bem diferente, é fazer em Florianópolis, que está de frente para o mar. Então ele vai mexer na porosidade do concreto. Vai especificar isso. O engenheiro da obra vai determinar as características do lançamento do concreto: se estou lançando com bomba ou com grua; se eu vou usar brita 1 ou 0, ou ainda se vai ser uma mistura das duas; e definir a classe de abatimento. Uma coisa é concretar o segundo pavimento e outra é completar o trigésimo-segundo. Esse concreto tem que estar com uma fluidez um pouco maior para conseguir adensar. Vai verificar também se eu tenho uma concentração de armação maior ou menor. Então, vai muito da expertise da obra.

O engenheiro da obra vai determinar as características do lançamento do concreto: se estou lançando com bomba ou com grua; se eu vou usar brita 1 ou 0, ou ainda se vai ser uma mistura das duas; e definir a classe de abatimento
Eng. Paulo Caracik, sócio fundador da PBC Engenharia, consultoria especializada em estruturas de concreto

AEC Responde – Falando dessa parte de execução, que é de responsabilidade do engenheiro da obra: quais são as principais checagens que devem ser feitas na chegada do caminhão betoneira?

Caracik – A primeira coisa a verificar é se a entrega corresponde, de fato, à obra certa. Já vi algumas vezes betoneira errar de endereço. Porque, às vezes, você tem duas concretagens no mesmo dia e na mesma rua. E isso dá muito problema.

AEC Responde – A especificação do concreto vem diferente...

Caracik – Acabamos penalizados com isso. Tem que verificar o endereço completo. Depois, temos as características técnicas das quais já falamos. Temos que conferir a resistência, o módulo de elasticidade, fator água-cimento e a classe de abatimento. Verificar tecnicamente esse concreto. E um item fundamental também é conferir o tempo de adição da água. Porque o concreto vence com duas horas e meia de adição da água. Ou seja, o término de lançamento tem que estar previsto para esse tempo. Falando de uma obra convencional, se meu concreto chega com duas horas e quinze, ele vai vencer. Então, se for o caso, eu mando retornar esse caminhão betoneira e faço a anotação no verso da nota de que ele chegou sem tempo hábil para o lançamento. Depois dessa conferência, estando tudo OK, partimos para o controle tecnológico, as demais checagens técnicas, a verificação de abatimento, slamp e liberamos, ou não, esse caminhão para a concretagem. 

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AEC Responde – Há uma questão que afeta, principalmente, o pessoal do sul e do sudeste do Brasil, no inverno. Qual é o impacto das baixas temperaturas no início de pega do concreto?

A temperatura influencia na reação química do início de pega do concreto. Paralisa a hidratação do cimento, dependendo da temperatura. Ou retarda esse início. Então o que devemos fazer? Se eu vou concretar, por exemplo, no inverno da serra gaúcha, às oito da noite, pode estar certo que, no dia seguinte, o concreto estará mole. Ele não vai endurecer. Por isso, precisamos começar nossas concretagens mais cedo, para acabarem no meio da tarde, até duas ou três horas, quando ainda resta algum calorzinho ou um solzinho para essa reação andar. Senão, a temperatura vai bloquear e o início de pega vai ser retardado. O que vai acontecer? Meu ciclo de produção da obra será afetado. Então, às vezes, é melhor você parar a concretagem na metade se perceber que ela está caminhando para o período da noite. E continuar no dia seguinte. É melhor do que passar nervoso depois.

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Colaboração técnica

Paulo Beghelli Caracik – Engenheiro civil pela Escola de Engenharia Mauá e pós-graduado pela Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP). Atuou como coordenador técnico e comercial da Ulma Brasil (2000 a 2007) e gerente técnico de estrutura de concreto na Gafisa de 2007 a 2014. Fundou o escritório PBC Engenharia, empresa de consultoria em estruturas de concreto convencional, nervuradas, planas, protendidas, alvenaria estrutural e paredes de concreto.