Banner AECweb
menu-iconPortal AECweb

Aproveite a água de chuva, mesmo que escassa

Luciano Zanella, Wolney Castilho Alves, Seção de Planejamento, Recursos Hídricos, Saneamento e Florestas do IPT

Publicado em: 24/09/2021

Texto: Redação AECweb/e-Construmarket

Coordenação técnica: Adriana Camargo de Brito
Comitê de revisão técnica: Adriana Camargo de Brito, Cláudio Vicente Mitidieri Filho, José Maria de Camargo Barros, Luciana Oliveira e Maria Akutsu
Apoio editorial: Cozza Comunicação

Reaproveitamento água de chuva
(Foto: Alex Farias/Shutterstock)

24/09/2021 | 16h00 - O tempo ainda não foi suficiente para apagar da memória das pessoas o difícil período de escassez de água, ocorrido entre 2014 e 2015, que atingiu com mais força a região sudeste do País. Menos de uma década depois, um novo período de escassez hídrica bate novamente à porta da mesma região, que concentra algumas das cidades mais populosas do Brasil, sinalizando dificuldades tanto para o abastecimento de água quanto para o fornecimento de energia pelas usinas hidroelétricas.

Parece um contrassenso falar em aproveitamento de água de chuva com tal cenário se avizinhando, mas o pensamento deve ser exatamente o contrário. Em uma situação de escassez, cada gota d’água conta. Não se deve aguardar a instalação da emergência para buscar o aumento da eficiência hídrica e uma das várias formas consagradas para elevar essa eficiência é aproveitar racionalmente as cada vez mais escassas fontes de água disponíveis, dentre as quais, a água de chuva.

O aproveitamento de água de chuva não é uma novidade. Trata-se de uma tecnologia primordial desenvolvida e utilizada de forma independente em diversas partes do mundo, em diferentes épocas e por povos de várias culturas. Não faltam exemplos históricos deste uso, desde o registro mais remoto conhecido a partir das inscrições presentes na Pedra Moabita, com data estimada em 830 a.C., encontrada no Oriente Médio. Ali está registrada a informação que o rei Mesa dos Moabitas ordenou que fosse feita uma cisterna (reservatório para aproveitamento da água de chuva) em cada casa (Tomaz, 2011). Além do Oriente Médio, também existem relatos ancestrais de práticas de manejo e aproveitamento da água de chuva em diversas partes da Europa, no norte da África, nas Américas (Incas, Maias e Astecas) e na Ásia, em países como China, Índia, Sri Lanka (Gonçalves, 2006).

Não há registros ancestrais de uso intenso de água de chuva em território brasileiro. As técnicas de coleta e aproveitamento da água de chuva eram conhecidas e dominadas pelos portugueses que colonizaram o território brasileiro, mas as condições naturais favoráveis de hidrografia por eles aqui encontradas, em especial quanto aos assentamentos iniciais em região litorânea, com a possibilidade de obtenção de água superficial de forma abundante e fácil nas regiões de Mata Atlântica, tornaram a utilização documentada de sistemas de aproveitamento de água de chuva em território nacional uma tecnologia mais tardia.

O provável primeiro relato oficial documentado de aproveitamento de água de chuva em território nacional data de 1943 com a construção, pelo exército estadunidense, do sistema de aproveitamento de água de chuva em Fernando de Noronha (Gonçalves, 2006), embora exista consenso que o uso de água de chuva era bastante comum em ambiente rural antes dessa data. O exemplo nacional mais conhecido de utilização de água de chuva é o “Programa Um Milhão de Cisternas (P1MC)” que, desde o início dos anos 2000, é desenvolvido na região semiárida do Brasil. O intuito é proporcionar o armazenamento e aproveitamento das águas de chuva coletadas a partir dos telhados das edificações rurais em uma região onde as fontes de água são de baixa qualidade e distantes do ponto de consumo.

A busca pelo uso eficiente da água ganhou força a partir de pressões mundiais originadas na Conferência sobre Água e Meio Ambiente de Dublin e na Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e desenvolvimento do Rio de Janeiro, ambas realizadas em 1992, que propagaram a mudança da percepção dos recursos hídricos, relacionando o manejo eficaz da água (e demais recursos) ao desenvolvimento social e econômico e à proteção dos ecossistemas naturais. A água deve ser percebida como um recurso finito, vulnerável e parte integrante do ecossistema, seja como um recurso natural, social ou um bem econômico (Banco Mundial, 1993).

Mesmo tendo sua disseminação inicial relacionada às necessidades básicas no ambiente rural, o uso da água de chuva venceu as barreiras urbanas e se estabeleceu nas cidades como parte das estratégias de manejo integrado das águas e com uma tecnologia voltada à resiliência hídrica. A busca pela segurança hídrica e redução de despesas com insumos são os principais fatores que têm colaborado para a propagação das técnicas de aproveitamento de água de chuva em ambiente urbano já há décadas, em especial por grandes consumidores tais como: indústrias, locais de intensa aglomeração de pessoas como estádios, templos, shopping centers, e locais de uso intensivo de água não potável, como garagens de empresas de transporte público. Para esses casos, além dos ganhos econômicos muitas vezes possíveis, também pode ser considerado o potencial ganho de marketing e a melhoria da imagem ambiental associada a esta prática.

Com o aumento do uso das tecnologias destinadas ao aproveitamento de água de chuva em meio urbano, fez-se necessário que fossem estipuladas regras e padronizações para esse sistema com vistas à redução dos riscos oferecidos aos usuários e a facilitação de sua inter-relação com os demais sistemas presentes nas edificações.

A primeira norma brasileira referente ao aproveitamento de água de chuva, NBR 15527 Água de chuva – Aproveitamento de coberturas em áreas urbanas para fins não potáveis – Requisitos (ABNT, 2007), foi publicada no ano de 2007 e teve uma revisão publicada em abril de 2019, tendo seu título alterado para: NBR 15527 Aproveitamento de água de chuva de coberturas para fins não potáveis – Requisitos (ABNT, 2019a).

Pela norma, considera-se como água de chuva a resultante das precipitações atmosféricas que são coletadas a partir de coberturas e telhados onde não exista circulação de pessoas, veículos ou animais, ou seja, onde não ocorra atividade humana frequente. A exigência do ponto de coleta é uma forma de facilitar a obtenção de água com características de qualidade mais favoráveis ao uso a partir de tratamento simplificado. Não são consideradas para o aproveitamento as águas obtidas a partir da coleta em pisos, as chamadas águas pluviais, definição que também foi adotada pela NBR 16783 - Uso de fontes alternativas de água não potável em edificações (ABNT, 2019b).

Os usos recomendados pela NBR 15527 (ABNT, 2019a) são: descarga de bacias sanitárias e mictórios, lavagem de veículos e pisos, reserva técnica de incêndio, uso ornamental e irrigação para fins paisagísticos. Apesar dos usos nominalmente citados, existe na norma referência explícita sobre a possibilidade de usos da água de chuva para outros fins desde que os parâmetros de qualidade específicos e o tratamento necessário sejam definidos pelo profissional responsável pelo projeto do sistema.

Os cuidados com a qualidade da água de chuva devem começar na concepção do sistema com a avaliação das atividades circunvizinhas à área onde se pretende captar a água. A contaminação da área de captação pode ocorrer por atividades tanto naturais quando antrópicas. Tráfego intenso, atividades industriais geradoras de poluição do ar, queimadas, atividades agrícolas com pulverização de agroquímicos, atividades de construção que deixem o solo exposto ou gerem poeira, atividades de mineração em céu aberto, ação dos ventos, maresia, proximidade de vegetação de grande porte ou sua existência sobre a área de captação, presença de animais com acesso à área de captação ou proximidade de rotas migratórias ou com populações animais sazonais são alguns dos fatores que podem gerar contaminantes e devem ser consideradas no estudo de concepção do sistema de aproveitamento de água de chuva.

Períodos prolongados de estiagem, como os vividos atualmente, e cada vez mais recorrentes nos invernos das regiões do centro ao sul do país, têm elevado potencial contaminante. A contaminação pode ocorrer pelo acúmulo de material particulado na área de captação, mas também pelo aumento das concentrações de poluentes nas camadas atmosféricas proporcionada pela ausência de chuvas. Como agravante, os períodos prolongados de estiagem levam ao esvaziamento dos reservatórios de água de chuva, reduzindo a capacidade de diluição de eventuais aportes de contaminantes.

A área de captação, essencialmente um telhado ou superfície de cobertura da edificação, é parte integrante do sistema de aproveitamento da água de chuva e deve receber atenção e manutenção, como qualquer outra parte integrante do sistema, em especial quanto à presença de substâncias contaminantes que possam alterar a qualidade da água obtida. Atenção deve ser estendida ao sistema de captação de água coletada, formado pelos condutores horizontais e verticais. Após período de estiagem prolongado é muito comum o acúmulo de sólidos nas calhas e condutores horizontais que pode acarretar em significativa perda de qualidade da água captada pelo carreamento dos sólidos acumulados e dissolução de elementos presentes nesse material.

A época de estiagem é a ideal para a realização da manutenção do sistema de aproveitamento de água de chuva, atividade obrigatória para o correto funcionamento do sistema. Limpeza e eventuais ajustes devem ser realizados tanto no sistema de pré-tratamento das águas como também nas áreas de captação, parte integrante do sistema quase sempre negligenciada.

As áreas de cobertura e o sistema de condução das águas captadas, além de integrar o sistema de aproveitamento de águas de chuva, são parte fundamental do sistema de drenagem das águas de cobertura. A limpeza frequente das calhas deve ser encarada como precaução para evitar tanto o acúmulo de material que possa degradar a qualidade das águas captadas para o sistema de aproveitamento de água de chuva, quanto para evitar a falha do sistema de drenagem, o que pode, em último caso, levar à falha do sistema e causar danos à edificação quando as chuvas voltarem e a estiagem finalmente acabar, mesmo que a escassez ainda seja uma realidade.

REFERÊNCIAS 

GONÇALVES, R. F. (Coordenador). Uso Racional da Água em Edificações. Projeto PROSAB. ABES, Rio de Janeiro, 2006. 352 p.

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 15527: Aproveitamento de água de chuva em áreas urbanas para fins não potáveis. ABNT, Rio de Janeiro - RJ, 2007. 12p.

______. NBR 15527: Aproveitamento de água de chuva de coberturas para fins não potáveis – Requisitos. ABNT, Rio de Janeiro - RJ, 2019a. 14p.

______. NBR 16783: Uso de fontes alternativas de água não potável em edificações. ABNT, Rio de Janeiro, 2019b. 19p.

Banco Mundial. Water Resources Management. Washington, World Bank Policy Paper, 1993. 141p

TOMAZ, P. Aproveitamento de água de chuva em áreas urbanas para fins não potáveis, São Paulo - SP, Navegar, 2011. 278p.

Colaboração técnica

 
Luciano Zanella — Possui graduação em engenharia civil pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (1995), mestrado em Engenharia Civil pela Universidade Estadual de Campinas (1999) e doutorado em Engenharia Civil pela Universidade Estadual de Campinas (2008). Atualmente é engenheiro pesquisador do Laboratório de Instalações Prediais e Saneamento do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo, professor dos cursos de mestrado profissional em Habitação e em Processos Industriais do IPT, revisor de periódico da Ecological Engineering e revisor de periódico da Revista Engenharia Sanitária e Ambiental. Tem experiência na área de Engenharia Civil, com ênfase em saneamento e ambiente. Atuando principalmente nos seguintes temas: uso eficiente de água, manejo de água de chuva, sistemas naturais de tratamento de esgotos.
 
Wolney Castilho Alves — Graduado em Engenharia Civil (1983) e em Engenharia Sanitária (1987) pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, MPhil (Master of Philosophy, 1990) e PhD (Doctor of Philosophy, 1997) pela Heriot-Watt University, Edimburgo, Escócia. É pesquisador e professor do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo) e professor do Programa de Educação Continuada da Escola Politécnica da USP (PECE/POLI), em cursos de pós-graduação stricto e lato sensu. Atua nas áreas de Engenharia Sanitária e Ambiental aplicadas ao manejo urbano integrado das águas com ênfase nos sistemas urbanos de saneamento, incorporando os modernos preceitos de sustentabilidade ambiental.