Arte em fachadas: cuidados importantes antes da aplicação

Adriana Camargo de Brito, Claudio Mitidieri, Osmar H. Becere, Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo

Publicado em: 02/06/2022

Texto: Redação AECweb/e-Construmarket

Coordenação técnica: Adriana Camargo de Brito
Comitê de revisão técnica: Adriana Camargo de Brito, Cláudio Vicente Mitidieri Filho, José Maria de Camargo Barros, Luciana Oliveira e Maria Akutsu
Apoio editorial: Cozza Comunicação

foto do grafiteiro Eduardo Kobra pintando uma parede
Fonte: Shutterstock

02/06/2022 | 17h06 - Em um contexto de grandes metrópoles como São Paulo, onde predomina a cor acinzentada do concreto de calçadas e edificações, movimento constante de veículos e pessoas, a Arte de Rua ou Street Art fornece cores, momentos de contemplação e de reflexão, além de se integrar à paisagem urbana.

A arte de rua é livre, acessível, qualquer pessoa pode se tornar artista. Hoje é respeitada como arte, também incluída em exposições de grandes museus pelo mundo. Dos grandes artistas de rua, vários são brasileiros, como Os Gêmeos ou Eduardo Kobra, ambos com obras nacionais e internacionais e reconhecimento mundial.

Entretanto, mesmo diante de tanto sucesso, a arte de rua, elaborada por meio da aplicação de pintura, ainda é muito efêmera, principalmente se comparada às formas tradicionais de arte conservadas em museus. Muitos artistas documentam
suas obras por meio de fotografias para que elas não sejam perdidas.

Mas porque isso acontece? Por vários motivos. Alguns são intrínsecos à própria natureza da arte de rua quanto à expressão de mensagens que fazem sentido em determinado momento, como instalações, por exemplo: após a obra de arte obter o impacto desejado, ela é desmontada.

Outros motivos referem-se à dinâmica do funcionamento da cidade e não se tem como evitar: a demolição do edifício ou da fachada onde está a obra de arte ou até mesmo a construção de outros edifícios que não permitem sua visualização.

Todavia, há situações em que a efemeridade da obra está relacionada ao local de execução: grandes obras realizadas em muros e em fachadas de edifícios, muitas belíssimas, com qualidade artística imensurável, concebidas sobre bases
inadequadas, com problemas patológicos ou falta de manutenção, que comprometem sua durabilidade. Nesses casos, é possível tomar certos cuidados antes de realizar a obra de arte para que ela tenha maior durabilidade.

O que verificar em uma fachada ou muro externo antes de executar a obra de arte?

A seguir, são apresentadas algumas etapas importantes de verificação e correção em uma fachada ou muro externo, antes de executar a obra de arte pintada.

Etapa 1: Identificação do sistema de fachada

Inicialmente é necessário identificar o sistema de parede externa e o sistema de revestimento, verificando se é uma parede sem função estrutural ou se é uma parede estrutural e as diversas camadas externas da fachada aplicadas sobre a parede destinada à execução da arte pintada. Dentre os sistemas de fachadas predominantes no Brasil destacam-se os seguintes:

a) Alvenaria sem ou com função estrutural + emboço;
b) Alvenaria sem ou com função estrutural + emboço + pintura;
c) Alvenaria sem ou com função estrutural + emboço + textura acrílica;
d) Alvenaria sem ou com função estrutural + emboço + pintura mineral (cal ou
silicato de potássio)¹;
e) Alvenaria sem ou com função estrutural + argamassa decorativa
(monocamada ou multicamadas);
f) Parede de concreto + revestimento sintético texturizado (Textura);
g) Parede de concreto + argamassa técnica decorativa (monocamada ou
multicamadas);

A identificação do sistema de fachada pode ser obtida do projeto da edificação, memoriais descritivos ou mesmo a partir da abertura de uma janela de inspeção in loco no sistema de revestimento. Outros sistemas de revestimento são encontrados na construção civil brasileira, tais como placas cerâmicas, placas de rochas etc., mas não foram considerados nessa abordagem.

Etapa 2: Avaliação da condição do sistema de revestimento aderido à parede

Essa etapa tem por objetivo investigar de forma rápida e prática se o sistema de revestimento tem condições para receber a arte, bem como evitar danos à arte devido
à necessidade de correções posteriores.

Procedimentos recomendados:

a) Percutir o sistema de revestimento com ferramenta contundente com a finalidade de identificar eventuais regiões de som cavo (não aderidas ao substrato). As regiões com som cavo devem ser delimitadas com giz de cera ou pintura (não utilizar os sinais de “X” ou “+” pois estes não delimitam a área com descolamento do revestimento). É recomendável registrar em desenhos ou elevações as regiões da fachada e/ou da parede com som cavo, em papel quadriculado ou mesmo por imagens fotográficas, a fim de permitir estimar a área comprometida do sistema de revestimento (Figura 1).

foto do grafiteiro Eduardo Kobra pintando uma parede
Figura 1: Exemplo de registro de mapeamento de som cavo em fachada

b) Registrar na fachada (giz ou pintura) como em elevação as fissuras se as regiões com presença de descolamento do sistema de revestimento em razão da oxidação (corrosão) de armaduras embutidas na estrutura de concreto armado.

foto do grafiteiro Eduardo Kobra pintando uma parede
Foto 2: Exemplos de descolamento de revestimento de viga por provável corrosão de armaduras, bem como a presença de fissuras mapeadas e na interface alvenaria pilar

c) Em revestimentos argamassados sem pintura ou textura, avaliar a resistência de aderência superficial da camada aparente do sistema de revestimento. Uma forma prática e simples para avaliar a resistência superficial, de forma
qualitativa, é riscando-se a superfície do revestimento com um instrumento cortante (espátula ou prego). Não poderão se formar riscos profundos superiores a 0,5 mm.

foto do grafiteiro Eduardo Kobra pintando uma parede
Foto 3: Risco da superfície do emboço com prego (empírico, mas eficiente)

d) Verificar a eventual presença de umidade ascendente, principalmente em muros onde normalmente não se tem impermeabilização das fundações, ou nas bases de fachadas; identificar se a umidade é proveniente do solo ou resultante de vazamentos, ou de outras fontes. Sempre que possível essas regiões devem ser evitadas, pois há grande risco de baixa durabilidade da pintura.

e) Inspecionar a superfície do revestimento quanto à presença de sais eflorescentes, bem como de colônias de microrganismos.

foto do grafiteiro Eduardo Kobra pintando uma parede
Foto 4: Descolamento da camada de textura devido provável cristalização de sais na superfície do emboço
foto do grafiteiro Eduardo Kobra pintando uma parede
Foto 5: Presença de colônias de microrganismos na fachada

Etapa 3: Correção das irregularidades

A partir das informações obtidas e do “mapeamento” realizado, analisar a quantidade de manifestações patológicas presentes na região pretendida para a aplicação da arte pintada e definir a viabilidade de correção das irregularidades.

Procedimentos básicos para a correção das irregularidades:

a) Regiões de som cavo: remover o revestimento não aderido. Limpar a região para eliminar partes soltas e poeiras. Reconstituir o sistema de revestimento utilizando-se materiais de mesma natureza do sistema de revestimento
existente.

b) Curar as regiões reparadas: revestimento à base de cal e cimento por, no mínimo, 28 dias e de cal por, no mínimo, 90 dias.

c) Sistema de revestimento que apresenta baixa resistência superficial ao risco deve ser consolidado com produtos específicos. É recomendável analisar a resistência superficial após a consolidação da superfície antes da aplicação da tinta da arte. No mercado da construção civil são disponibilizados produtos específicos para essa finalidade.

d) Colmatar as fissuras com produtos específicos para esse fim. Dependendo da abertura e do comprimento da fissura, pode ser necessário estruturar a área com a aplicação de tela à base de fibra de vidro ou tela de aço galvanizada. As fissuras devem ser previamente analisadas por profissional especializado, antes do tratamento a ser adotado, visto que podem ter origem em problemas de ordem estrutural. O tratamento de fissuras estáticas também é diferente
daquele dado a fissuras dinâmicas.

e) Remover materiais pulverulentos, microrganismos, eflorescências, manchas de óleo, ou outros materiais que podem prejudicar a aderência da pintura.

f) Remover revestimento orgânico, como pintura antiga, com evidências de degradação por meio de lixamento, jateamento, lavagem sob pressão ou, se necessário, com procedimentos químicos.

g) Remover as pinturas minerais.

h) Verificar a aderência de pinturas orgânicas impermeáveis ou brilhantes que apresentem bom estado de conservação ao primer/selador antes de serem utilizadas como substratos.²
Dada a grande diversidade de sistemas de revestimentos e condições de conservação, é recomendável que essa avaliação seja realizada por profissional ou instituição especializada, visando emitir um parecer devidamente fundamentado para a tomada de decisão quanto à aplicação da arte.

Etapa 4: Seleção dos materiais

Visto que a arte (pintura), na maioria das vezes, ficará exposta às condições climáticas e aos poluentes comuns às grandes cidades, que afetam o desempenho dos materiais e reduzem a sua vida útil, é recomendável a utilização de produtos com propriedades adequadas a essa condição de exposição. Dentre essas propriedades destacam-se a resistência ao intemperismo natural (ventos, chuvas, radiação solar, variações de temperatura etc.). É imprescindível que as tintas utilizadas sejam produzidas com pigmentos adequados, de maneira a conservar a sua cor com o passar do tempo em decorrência da exposição à radiação solar. A
norma brasileira NBR 15380: Tintas para a construção civil: Método para avaliação de desempenho de tintas para edificações não industriais: Resistência à radiação UV/condensação de água por ensaio acelerado, permite ao usuário avaliar de forma comparativa, tintas com melhor desempenho às intempéries.

Outro requisito fundamental para a durabilidade das pinturas é a proteção contra a penetração da umidade. É imprescindível que a pintura apresente equilíbrio higroscópico entre a absorção de água e a permeabilidade ao vapor de água, ou
seja, se absorver maior quantidade de água, sua permeabilidade ao vapor de água deve ser de tal magnitude que permita a eliminação do excesso de umidade por difusão. Atualmente são encontradas resinas específicas para essa finalidade que podem ser utilizadas como ligante na formulação dessas tintas. E, finalmente, por se tratar de um tipo de tinta específica, é recomendável a realização de ensaios laboratoriais específicos para controle dos produtos, visando verificar atendimento aos requisitos e critérios estabelecidos antes de sua aplicação.

Etapa 5: Outros elementos

A presença de elementos decorativos e protetores (detalhes arquitetônicos: beirais, cornijas, peitoris, capa de muro) contribuem de forma positiva para a durabilidade da arte ao descolar as lâminas de água das fachadas e dos muros, evitando o escorrimento da água de chuvas e poluentes sobre a arte.

Considerações Finais

Espera-se que os artistas possam ter auxílio na análise das condições de conservação das fachadas e muros antes de instalar suas obras de arte pintadas, levando em conta tais cuidados para que tenham maior durabilidade, fazendo parte da paisagem urbana por mais tempo.

¹ Tinta de acabamento mineral baseada em Silicato de Potássio e pigmentação compatível, cuja quantidade de componente orgânico é inferior a 5% em peso, segundo normalização DIN 18363.
² Os substratos contaminados por microrganismos devem receber tratamento com biocida adequado, que atenda requisitos mínimos tais como: eliminar os microrganismos e não oferecer riscos aos
operadores, usuários e ao meio-ambiente. Os principais contaminantes são o Cladosporium sp. e Penicillium sp., estando esses fungos presentes nas quatro estações do ano.

Referências

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 11702:2019: Tintas para construção civil — Tintas, vernizes, texturas e complementos para edificações não industriais — Classificação e requisitos, Rio de Janeiro, 2019. 43 p.

______NBR 13281 – Argamassas inorgânicos para assentamento e revestimento de paredes e tetos – Requisitos, Rio de Janeiro, 2005. 7p.

______NBR 15380: Tintas para a construção civil: Método para avaliação de desempenho de tintas para edificações não industriais: Resistência à radiação UV/condensação de água pelo ensaio acelerado. Rio de Janeiro, ABNT, 2015. 7p.

Colaboração técnica

 
Adriana Camargo de Brito — é doutora em Engenharia Mecânica pela Universidade de São Paulo (USP) Mestre em Tecnologia do Ambiente Construído pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT) e arquiteta formada pela
Universidade Paulista (UNIP). Trabalha no Laboratório de Conforto Ambiental do IPT desde 2006, atuando em avaliações e consultorias nas áreas de desempenho térmico, acústico, lumínico e ergonômico de edifícios. Também é docente do curso de Mestrado em Habitação do IPT.
 
Claudio Mitidieri — é doutor em Engenharia Civil pela Universidade de São Paulo e pesquisador sênior do Laboratório de Tecnologia e Desempenho de Sistemas Construtivos do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT). Especialista em sistemas construtivos e desempenho de edificações habitacionais, é docente e coordenador da área de tecnologia do Mestrado Profissional em Habitação: Planejamento e Tecnologia, do IPT.
 
Osmar H. Becere — possui graduação em Tecnologia em construção civil pelo Centro Estadual de Educação Tecnológica Paula Souza. Atualmente é pesquisador do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo. Tem experiência na área de Engenharia Civil, com ênfase em Construção Civil, atuando principalmente nos seguintes temas: desempenho de materiais de construção civil, desempenho higrotérmico, simulação computacional, inspeção de manifestações patológicas de
revestimentos de fachadas.