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Por uma Arquitetura Bioclimática Brasileira

Artigo de Dilson Batista Ferreira, Arquiteto Urbanista e Professor Dr. da FAU/UFAL (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Alagoas), em Maceió

Muito se fala de arquitetura Ecológica, Sustentável, Verde e Eficiente. Na verdade os primeiros estudos de uma arquitetura integrada com a natureza e o clima surgiram há aproximadamente 45 anos. A chamada “arquitetura bioclimática” surgiu na década de 60, a partir de pesquisas de Aladar e Victor Olgyay, considerados grandes pesquisadores e precursores da área de conforto ambiental. O bioclimatismo é a base da arquitetura ecológica. Esta consiste na adequada e harmoniosa relação entre ambiente construído, clima e seus processos de troca de energia, tendo como objetivo final o conforto ambiental humano em todas suas formas (térmico, luminoso, acústico etc). Mais do que parte do movimento ecológico mundial da década de 70, o bioclimatismo é um dos elementos que mais reforçam e contribuem para a eficiência ambiental de um edifício, principalmente em tempos de restrição energética, pois consegue inter-relacionar:

  • A dimensão humana e suas necessidades físico-biológicas associadas ao conforto;
  • A dimensão ecológica com a utilização de sistemas passivos de energia obtidos a partir o potencial climático e ambiental local;
  • A dimensão econômica com a redução de recursos financeiros e de consumo de energia, principalmente elétrica;
  • A dimensão cultural com a preservação de padrões arquitetônicos locais, reforçando e promovendo a identidade arquitetônica regional, ou seja, uma arquitetura integrada e com o clima local. Enfim uma arquitetura com repertório original, desenvolvido a partir da necessidade climática e fisiológica;
  • A dimensão espacial a partir de uma arquitetura planejada para interagir com a natureza e promover conjuntos urbano-arquitetônicos mais equilibrados espacial e ambientalmente;
  • A dimensão tecnológica com o desenvolvimento de novas técnicas, sistemas passivos, materiais e componentes arquitetônicos. Assim como de mecanismos de avaliação e monitoramento da eficiência energética da edificação.

Além disto, uma arquitetura com vistas a ser bioclimática considera na fase de projeto:

  • Avaliação biológica, baseada nas sensações humanas visando à busca do conforto ambiental adequado, para espaços distintos da edificação, em qualquer época do ano;
  • Levantamento dos dados climáticos da região, como temperatura do ar, movimento do ar, umidade relativa e radiação solar, ruído, dentre outros. Dentro destes condicionantes pode ainda acrescentar-se variáveis como topografia, tipo de solo, tipo de entorno, vegetação dominante e regime de chuvas;
  • Avaliação da disponibilidade de soluções tecnológicas e técnicas construtivas adequadas ao clima, considerando fatores como: a implantação da edificação, sua orientação, forma, fatores de sombreamento, direcionamento de ventilação e aproveitamento da iluminação natural;
  • Rica expressão arquitetônica resultante da compatibilização destas variáveis, que será o somatório final de todas as etapas e elementos considerados anteriormente, produzindo o ambiente construído propriamente dito.

Como se vê, o ambiente construído, quando planejado sob a ótica do bioclimatismo, pode imprimir mais do que apenas o conforto ambiental adequado. Pode conferir desenvolvimento tecnológico, identidade cultural e baixa entropia com poupança de recursos naturais, energéticos e financeiros contribuindo para a mudança do atual paradigma perdulário de recursos. Tudo isto o reforça enquanto importante instrumento de contribuição para a sustentabilidade do ambiente construído. Nós como arquitetos aprendemos estas técnicas nas universidades, mas na prática pequena parcela de profissionais aplica com clareza estas básicas estratégias bioclimáticas. Poucos arquitetos sabem calcular plenamente, fazer um estudo real de carta solar, realizar medições ambientais in loco.

A arquitetura bioclimática, desde a década de 70, vem evoluindo rapidamente com incorporação de outros condicionantes dentro de seu campo de estudo. Como variáveis ergonométricas, funcionais e psicológicas, o que lhe atribuem e reforçam ainda mais seu caráter de sustentabilidade. Isto acabou por incluí-la, dentro dos princípios de “Ecodesenho e nos conceitos de sustentabilidade dos edifícios”. No entanto, apesar desta evolução, as variáveis climáticas, ambientais e energéticas ainda continuam sendo as mais importantes para o ambiente construído, e, por conseguinte as mais pesquisadas no mundo inteiro, em decorrência do alto grau de sustentabilidade que podem acrescentar aos edifícios. Atualmente dispomos de quantidade significativa de laboratórios de conforto ambiental de alta qualidade científica no Brasil, muito destes certificados pela Eletrobrás ou por organismos internacionais de certificação ambiental. Como é o caso dos laboratórios do programa PROCEL EDIFICA da Eletrobrás. Dispomos de softwares nacionais de simulação, bons pesquisadores, pesquisas e grupos consolidados de pesquisa na área, literatura técnicas nacionais e normativas que começam a surgir considerando a diversidade climática brasileira. No entanto, apesar de todo esse desenvolvimento na área de bioclimatologia, muitas vezes o que se observa é que fundamentos básicos como a iluminação, acústica, conforto térmico e ventilação natural, tidas como variáveis indispensáveis para o eficiente desempenho ambiental e energético do ambiente construído estão sendo ignoradas por profissionais da construção civil, mesmo em regiões onde estes recursos naturais são abundantes, como é o caso de diversas regiões do Brasil. Ignorar estes ativos ambientais é esquecer que estamos vivendo uma crise ambiental grave, onde a cada dia a energia, em todas as suas formas, passa a ser um bem de alto valor agregado.

Apesar da expansão de prédios sustentáveis pelo mundo, observa-se também, um afastamento do milenar casamento entre a arquitetura e clima. A proliferação de edifícios erroneamente classificados como “inteligentes ou eficientes”, utilizando materiais inadequados para a realidade tropical e sistemas de conforto mecanizados, demonstram este descaso com o clima, em favor apenas de uma, nem sempre, boa estética arquitetônica. Muitas vezes visam apenas pontuações para obtenção de certificação reconhecida pelo mercado. Atualmente com a crise ambiental surgem os prédios verdes, que agregam além de alguns condicionantes bioclimáticos, outros como reuso de água, captação de energia solar para geração de energia e aquecimento de água, reciclagem de resíduos da obra, entre outras estratégias ecológicas. No entanto os “internacionalismos” frequentes na história da arquitetura ainda continuam mantidos. Basta ver os edifícios ditos sustentáveis e compará-los com outros não sustentáveis. Às vezes não conseguimos classificar um prédio sustentável de outro não sustentável, esteticamente não há diferença, e muitas vezes apenas a questão do consumo de energia e recursos é o foco do projeto. No geral são bastante parecidos; Ou seja, o usuário continua utilizando a mesma arquitetura envidraçada e com espaços cada vez mais reduzidos, só que na versão Green Style, ou como classificam alguns teóricos da sustentabilidade. Alguns destes projetos são edifícios que recebem o chamado Greenwashing, já outros realmente se preocupam com a sustentabilidade e implantam estratégias reais de eficiência ambiental, entre eles soluções bioclimáticas interessantes.

Estes “internacionalismos” arquitetônicos acabam por simplificar a resolução dos problemas de conforto ambiental a partir do uso, mesmo que racional e monitorado da energia elétrica para o funcionamento de equipamentos mecânicos. Isto já vem acontecendo com a arquitetura ecológica, que muitas vezes apresentam mais “grife ecológica” do que realmente soluções integradas que venham a reforçar de forma sistêmica, e não com soluções isoladas, uma adequada sustentabilidade a edificação. O grande problema é que alguns projetistas acreditam (pelo simples motivo de implantar e seguir rigidamente as estratégicas de certificações ou aplicar novos materiais ou equipamentos, sem avaliar analiticamente a sua aplicabilidade ao clima) estarem dando uma eficaz e definitiva contribuição para preservação do meio ambiente, simplesmente por estarem otimizando o uso de energia elétrica através da tecnologia ou de inovações nem sempre aplicáveis ao clima local e, muitas vezes, importadas. No entanto, mais do que agregar novos usos e tecnologias inteligentes ao ambiente construído, devemos também, cada vez mais trocar o uso de sistemas mecânicos de conforto, mesmo que estes sejam supostamente “sustentáveis e certificados” por sistemas passivos baseados no clima local que não consomem energia. Para isto é necessário os arquitetos e engenheiros conhecerem e estudarem profundamente os tipos de climas ao qual projetam, assim como aplicar as noções básicas e primárias de conforto e de gestão ambiental na construção, itens indispensáveis a qualquer edificação.

Um edifício não precisa ser certificado para ser eficiente e sustentável. Basta aplicar os conceitos básicos de uma boa arquitetura. A boa notícia é que atualmente este interesse, mais profundo e apurado pela sustentabilidade, tem despertado uma gama de arquitetos e demais profissionais da construção civil a estudar a sistêmica que envolve a sustentabilidade da edificação, onde o bioclimatismo possui lugar de destaque. Muitas das entidades que trabalham com certificação já perceberam a necessidade de revisar suas estratégias de certificação e passaram a utilizar o conforto e a bioclimatologia como fator essencial para se chegar a um projeto sustentável. Esse é o caso das certificações brasileiras, ou adaptadas para o Brasil (AQUA, PROCEL, CASA AZUL, outras). O importante é que o arquiteto saiba que diferentes são as classificações climáticas, o que particulariza e distingue o ambiente construído de local para local. Isso tudo influi no projeto e na própria característica morfológica da arquitetura. Tudo isso reforça a necessidade do conhecimento das variáveis climáticas e suas características por parte do projetista dos ambientes construídos. Neste sentido o sociólogo Josué de Castro cita:

[...] As vezes, os contatos culturais vão desfigurando pouco a pouco o aspecto da habitação, dando origem a uma mistura de traços arquitetônicos. Com o cimento armado a arquitetura vem tendendo a uniformização pela implantação dos “Standards” universais e pela perda progressiva da cor e da fisionomia regional dos tipos de arquitetura [...]. (CASTRO,1965, p. 87).

Esta citação de Josué de Castro demonstra, já em 1965, a falta de comprometimento de construir-se com o clima, em privilégio de uma arquitetura “internacionalizada” incompatível com a realidade climática dos BRICS. No Brasil, esta realidade já foi muito evidenciada nas diferentes regiões do país. O que demonstrava o descaso ou desconhecimento do clima, bem como de suas vantagens e desvantagens, por parte dos projetistas nacionais. Contudo, para que este panorama seja revertido completamente, faz-se necessário o conhecimento do clima brasileiro por parte dos arquitetos, suas subdivisões, recomendações e potencialidades, itens imprescindíveis para o desenvolvimento de um projeto dito “sustentável”. Isso de certa forma já esta previsto na norma de desempenho, que também já nasceu necessitando de ajustes nos seus parâmetros. Essa norma inclusive já vem sendo debatida entre pesquisadores, visando aprimorar alguns pontos importantes para seu pleno uso em todo o país. A gama de estratégias para a obtenção de redução do consumo de energia e da qualidade ambiental para as edificações localizadas no país é extensa. Requerendo do projetista conhecimento integral destas estratégias, enquanto subsídio para uma arquitetura regional, sustentável e integrada com o meio ambiente.

O futuro sustentável só será conseguido com a redução do consumo de energia das cidades e com a mudança da atual concepção economicista-consumista de mundo por seus habitantes. Para isto, devemos reavaliar a dimensão espacial do processo de desenvolvimento em busca da “ecoeficiência” das cidades, proporcionando conforto ao homem e preservação ao meio ambiente. Neste contexto, deverá ser dada ênfase ao planejamento urbano sustentável, com especial destaque para ambiente construído, responsável por grande parte da poluição e desperdício energético do planeta. Neste contexto quanto mais adaptado ao clima e mais passivo energeticamente, mais bioclimática será nossa arquitetura e urbanismo. Isso é fundamental!

Diante deste panorama, observa-se que a dimensão ecológica do ambiente construído é a variável que mais poderá contribuir para a sustentabilidade. Na medida em que suas soluções aliam: redução da poluição do meio ambiente e do consumo energético das edificações, economia de recursos naturais e financeiros e conforto ambiental para usuários. Isto pode ser conseguido a partir do uso de estratégias de captação de energias passivas e renováveis para as edificações. Soluções estas baseadas no potencial climático, cultural e ecológico local, o que lhe confere ainda mais o seu caráter de sustentabilidade. Além de contribuir para o fortalecimento da identidade cultural de uma arquitetura regional adaptada ao seu meio natural, poupadora de energia e confortavelmente agradável para seus usuários. Essas estratégias são viáveis para países como Brasil que dispõem de climas tropicais favoráveis à implementação destas soluções, o que confirma ainda mais sua vocação de nação energética. Principalmente, em climas tropicais quente-úmidos, que apresenta grande potencial de desenvolvimento de estratégias sustentáveis para o ambiente construído, como é o caso de nossas regiões costeiras, onde se concentra boa parte de nossas principais cidades e contingente de pessoas. No entanto, contrariamente a este grande potencial pouco explorado, o que se observa, se bem que em menor proporção, a proliferação de edificações cada vez mais consumidores de recursos energéticos para garantir seu funcionamento e suas condições de conforto termoluminoso. Isto se deve à falta de conhecimento do clima local por parte dos projetistas, aliado à utilização de padrões arquitetônicos “internacionalizados” e incompatíveis com nossa realidade climática e cultural. Ultimamente este panorama vem sendo modificado a partir das certificações ambientais para edificações, classificando-os de “edifícios verdes”. No entanto, o grande perigo que observamos é a falta de análise das variáveis climáticas, e de soluções personalizadas para os edifícios sendo trocadas pelas soluções ambientais bem sucedidas que não são aplicáveis a quaisquer edifícios. Desta forma estamos caindo no mesmo erro do passado, de copiar soluções, mesmo que estas sejam sustentáveis. Isso está virando uma constante já nas universidades, onde estudantes tendem a aplicar soluções prontas de sustentabilidade, em vez de pesquisar qual a melhor solução para seu projeto. Outro problema são os arquitetos que tendem a terceirizar aspectos básicos de projeto e de conforto para escritórios especializados, como se a bioclimatologia e a sustentabilidade fosse uma nova divisão da arquitetura, e na verdade não é. O que acontece é que nossa arquitetura chegou a um nível tão perdulário de consumo energético e de falta de conforto em decorrência da falta de aplicação de noções básicas de meio ambiente aplicado a arquitetura por parte dos arquitetos. Noções simples e básicas de ventilação, sombreamento e iluminação natural agora estão se tornando uma especialidade à parte, o que fez surgir esta suposta especialização do chamado “arquiteto sustentável”. De certo modo há uma contribuição significativa destes segmentos, ditos especializados, culminando em certificações e novas estratégias de uso da bioclimatologia nos projetos. Tudo isso é positivo, mas não podemos esquecer a arquitetura bioclimática, o conforto ambiental neste processo é vital, pois é regional, adaptado ao clima, passivo e acessível a qualquer classe social.

A arquitetura transcende os modismos, o ato de projetar e de construir. Neste sentido mais do que conhecer variáveis de ordem material ou arquitetônica. Mais do que aplicar certificações. O arquiteto deve e tem a responsabilidade ambiental de conhecer o clima suas vantagens e desvantagens. Principalmente diante de um panorama de crise ambiental atual, onde mais do que inter-relacionar o ambiente construído com o clima local, o arquiteto deverá ter uma visão interdisciplinar capaz de agregar e harmonizar outras importantes variáveis aos seus projetos, com vista a um futuro sustentável para nossa geração e para as que estão por vir. Acreditamos que a sustentabilidade não pode ser vista como um diferencial de mercado, uma especialidade, uma posição política, contestatória, excêntrica, ou modismo interessante que traz “Status” ao mercado da construção. A Sustentabilidade deve ser agregada em cada um de nós como um novo valor humano, que surgiu no século passado e deve ser incorporada ao ser humano em cada ação que ele toma no seu cotidiano. Ao arquiteto cabe retomar nos seus projetos estes conceitos de bioclimatologia, básicos, simples e eficientes, pois nem todas as edificações visam serem certificadas, nem todo cliente quer a certificação. Ser sustentável é responsabilidade do arquiteto do século XXI, e isso independe de um selo. O projeto certificado ou não necessita nascer resolvido no seu âmbito bioclimático.

Em prol de uma arquitetura bioclimática brasileira. Nosso maior expoente, o arquiteto Lelé (João Filgueras Lima) demonstrou na prática em belos projetos o que vem ser essa arquitetura, confortável, prática, suntuosa, regional, nacional e internacionalmente reconhecida. Reconhecer seu valor como arquiteto genuinamente brasileiro, que entendeu nossa riqueza bioclimática e soube utilizá-la com primor, em tempos que a sustentabilidade nem existia no dicionário, deve ser uma obrigação de cada arquiteto brasileiro!

 

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