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Cimento queimado: saiba evitar o aparecimento de trincas e manchas

Para eliminar problemas no piso, basta seguir um passo a passo cuidadoso que envolve a aplicação de juntas de dilatação, execução de camada drenante em brita e adição de impermeabilizante à argamassa de regularização

Texto: Graziela Silva


Piso de cimento queimado: a execução correta evita problemas como trincas e manchas

O cimento queimado é prático, tem ótimo custo-benefício e prima pela versatilidade. A queima, como explica a engenheira Alessandra Lorenzetti, pesquisadora do Laboratório de Materiais de Construção Civil do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT), consiste em jogar cimento em pó sobre o piso de argamassa ainda em estado fresco.

COMO FAZER

Embora pareça simples, todo o processo deve seguir um passo a passo cuidadoso. O acabamento cimentício pode ser aplicado tanto sobre bases recém-executadas quanto sobre contrapisos já existentes. Na primeira situação, a argamassa seca é polvilhada sobre a argamassa de regularização ainda fresca e, posteriormente, alisada com desempenadeira metálica lisa, preferencialmente nova. “As bases devem ter idade de até seis horas para o lançamento da mistura seca. Base e acabamento devem curar juntas”, orienta Paulo Michelazzo, professor do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai).

Para conferir proteção adicional à superfície do piso de cimento queimado é recomendada a aplicação de camada de resina acrílica à base de solvente e impermeabilizante para proteger o piso da ação da água
Alessandra Lorenzetti

A proporção indicada pelo profissional para o acabamento combina uma parte de cimento Portland branco estrutural, uma parte de pó de mármore ou pó de quartzo mais pigmento colorido em pó (pó Xadrez), adicionado até atingir o tom desejado. “A cor tende a ficar ligeiramente mais escura após a aplicação e secagem”, lembra.

PASSO A PASSO

1- Para bases existentes a primeira medida é a limpeza, livrando o contrapiso de gorduras, produtos químicos e pó.

2- Em seguida, a superfície deve receber uma nata de cimento Portland comum, adesivo PVA e água (traço 1:0,25:5 em volume). É fundamental que o contrapiso seja poroso e a aplicação do acabamento ocorra antes da secagem da nata. A massa do cimento queimado aqui é úmida: a mistura adicionada de água deve ter consistência de pasta homogênea.

3- Feito o lançamento, passa-se à regularização com desempenadeira.

4- Em ambas as situações, a recomendação é que a espessura do acabamento não ultrapasse de 2 a 3 mm.

5- O processo de cura precisa ser úmido, ou seja, é necessário prever um anteparo para a incidência dos raios solares e ventos durante as primeiras 72 horas após o lançamento.

6- Em seguida, por mais quatro dias, a superfície deve ser umedecida a cada 8 horas.

7- A superfície deve ganhar cobertura de manta geotêxtil ou sacos de estopa.

PROBLEMAS COMUNS NO PISO X COMO EVITÁ-LOS

É fundamental que o contrapiso seja poroso e a aplicação do acabamento ocorra antes da secagem da nata. A massa do cimento queimado aqui é úmida: a mistura adicionada de água deve ter consistência de pasta homogênea. Feito o lançamento, passa-se à regularização com desempenadeira
Paulo Michelazzo

TRINCAS – Para minimizar o aparecimento de fissuras, o recurso principal é a aplicação de juntas de dilatação, de maneira a formar panos de seção quadrada, com dimensões entre 1,5 m e 2 m, orienta Alessandra. “Após a conclusão, as juntas são praticamente imperceptíveis, formando uma malha quadriculada de pequenas linhas discretas no piso.”

Segundo Paulo Michelazzo, as juntas, preferencialmente de material plástico, são inseridas na base, deixando-se de 2 a 3 mm acima desta. “Outra ‘junta’ indicada são os ladrilhos hidráulicos, que podem ser aplicados formando quadros ou molduras”, diz.

Também deve ser dada atenção às condições climáticas no dia da execução do acabamento. Umidade relativa do ar abaixo de 40% e temperatura acima de 25ºC aumentam a probabilidade de aparecimento de trincas superficiais.

DESPRENDIMENTO DO ACABAMENTO – Também pode ocorrer o destacamento da camada de acabamento da base em argamassa. Evita-se o problema, respeitando as regras de aplicação do cimento queimado sobre a base recém-executada e, no caso de bases existentes, com a aplicação da nata de cimento como ponte de aderência.

As bases devem ter idade de até seis horas para o lançamento da mistura seca. Base e acabamento devem curar juntas
Paulo Michelazzo

MANCHAS – “Como a utilização de cimento queimado resulta em um piso monolítico, formado por grandes panos sem rejuntes, é recomendável ter cuidado com a formação de fissuras. Também pode ocorrer variação na coloração do piso que, em excesso, adquire o aspecto de superfície manchada em vez da aparência natural rústica esperada para o material”, aponta a engenheira Alessandra Lorenzetti, do IPT.

“Em todo corpo que contém cimento, a tonalidade vai variar em função do tempo de secagem. Áreas que curam mais rápido tendem a ficar mais claras, enquanto aquelas que demoram mais para secar assumem tons mais escuros. Em superfícies muito grandes, não há como unificar o processo de secagem, por isso surgem as diferenças de tonalidade”, detalha Paulo.

CIMENTO QUEIMADO BRANCO


O piso da residência M&M foi feito em cimento queimado
branco contrastando com paredes de concreto aparente
e madeira de demolição (Foto: Tony Chen).

O piso feito com cimento queimado branco é um dos únicos com maior regularidade de cor. Mas é importante diferenciar essa característica natural da solução de manchas (ou esbranquiçamento) causada pela umidade proveniente do solo. A prevenção dessa patologia, diz Paulo, envolve a execução de camada drenante em brita e adição de impermeabilizante à argamassa de regularização, sempre que a base for lançada diretamente sobre o solo.

A solução foi utilizada na Residência M&M, de autoria do escritório paulista Bonina Arquitetura. “Trabalhar produtos autênticos reflete uma postura. Os materiais empregados nesse projeto são o que são. Não há maquiagem ou imitação. Eles são brutos, rústicos e com história em sua essência”, conta o arquiteto Mauricio Takahashi.

ACABAMENTO E MANUTENÇÃO

Para dar proteção adicional à superfície do piso de cimento queimado, Alessandra, do IPT, recomenda a aplicação de camada de resina acrílica à base de solvente e impermeabilizante para proteger o piso da ação da água. “Para a manutenção, o ideal é aplicar cera incolor regularmente”, indica Paulo.


Cimento queimado foi usado no piso e nas paredes do Loft projetado pelo escritório Diego Revollo Arquitetura
(Foto: Alain Brugier)

O loft da Vila Leopoldina, e o Real Parque Loft, do escritório Diego Revollo Arquitetura fazem do cimento queimado o protagonista dos ambientes. O Restaurante Gero, de autoria do escritório Isay Weinfeld Arquitetura, usou o cimento queimado no piso combinado a outros materiais como a madeira do forro e os tijolos aparentes das paredes.

Colaboraram para esta matéria

Paulo Michelazzo – Professor da Escola SENAI "Orlando Laviero Ferraiuolo"
Alessandra Lorenzetti – Pesquisadora do Laboratório de Materiais de Construção Civil do IPT
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