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Com poucas adaptações, imóveis antigos podem gerar energia fotovoltaica

Edificações devem dispor de cobertura com pouco sombreamento, capacidade para suportar o peso dos coletores solares e instalações elétricas em conformidade com as normas vigentes

Texto: Gabriel Bonafé

O avanço da tecnologia de geração de energia solar fotovoltaica tem conquistado espaço na construção civil, mas ainda desperta dúvidas nos consumidores, principalmente sobre a instalação das placas e painéis fotovoltaicos em imóveis antigos

De acordo com a arquiteta Isabelle de Loys, consultora do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), independentemente da idade da residência, é necessário analisar suas condições de conservação para determinar a viabilidade de execução do arranjo fotovoltaico. “A visita in loco é importantíssima, além das plantas do projeto”, considera.

“A inspeção técnica deve ser feita ainda na fase de prospecção, antes de efetivar as compras. Isso evita a dor de cabeça de ter que avaliar uma reforma posterior”, aconselha Ronilson di Souza, instrutor eletrotécnico responsável por elaborar conteúdo dos cursos e treinamentos da Blue Sol Energia Solar.

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Implantação do sistema de placas fotovoltaicas (Divulgação/ Blue Sol Energia Solar)

INCIDÊNCIA SOLAR

Diversos fatores devem ser observados antes da instalação das placas fotovoltaicas em uma construção existente, a começar pelo espaço disponível e a incidência solar que ele recebe. “A área deve estar livre de objetos causadores de sombra em seu entorno, como prédios, árvores, antenas, chaminés, entre outros”, explica Ronilson di Souza.

“A análise também deve levar em consideração a orientação e inclinação do telhado, dados utilizados para projetar quantos módulos fotovoltaicos podem ser colocados na área de melhor captação solar”, explica Hans Rauschmayer, sócio-diretor da Solarize Serviços em Tecnologia Ambiental, ressaltando que melhor orientação é para o norte, seguido por leste ou oeste. “O ideal é que a inclinação ou declividade não seja muito elevada, e se for, que o caimento seja o mais voltado para o norte”, acrescenta Ronilson di Souza, ponderando que um telhado orientado para o sul também consegue captar bons níveis de energia solar.

CONDIÇÃO DA COBERTURA

Quando as placas fotovoltaicas são instaladas na cobertura do projeto, a estrutura deve ter resistência para suportar a sobrecarga aplicada pelo sistema, que gira entre 20 e 30 kg/m². “Em telhados tradicionais, com telhas cerâmicas, é necessário armazenar peças idênticas às instaladas para efetuar substituição caso alguma quebre durante a instalação”, recomenda.

A análise [de instalação dos painéis fotovoltaicos] deve levar em consideração a orientação e inclinação do telhado
Hans Rauschmayer

Também é importante considerar a ação do vento sobre as placas. “O vento é particularmente preocupante, principalmente quando os painéis são instalados de forma inclinada, em plano diferente da cobertura, pois os esforços podem ser muito maiores nessa condição”, ressalta o engenheiro Raphael Pintão, sócio-diretor da NeoSolar Energia. Em alguns casos, é necessário realizar reforços estruturais para viabilizar esse sistema. “Pode ser necessário adicionar vigas e caibros, ou então criar uma estrutura customizada para melhor distribuição dos esforços na estrutura existente”, explica.

Em telhados de galpões industriais e projetos similares, essa adaptação é quase sempre necessária, uma vez que essas estruturas são feitas para suportar materiais leves como telhas de fibrocimento ou metal. “Essas estruturas não suportariam a mesma área de placas solares, que são mais pesadas que as telhas desse tipo”, constata Souza.

Caso o imóvel seja tombado, as intervenções devem ser mínimas, uma vez que o arranjo fotovoltaico altera o aspecto do telhado. “É necessário verificar na prefeitura quais são as restrições”, orienta Hans Rauschmayer, mencionando que está reformando um imóvel tombado que prevê um sistema com aval e subsídios da prefeitura. “Um aspecto desvantajoso de imóveis antigos é que alguns não contam com uma laje impermeabilizada. Nesse caso, precisa-se tomar um cuidado especial para que a instalação não provoque qualquer infiltração”, observa.

INSTALAÇÕES ELÉTRICAS

A princípio, as instalações elétricas não deveriam representar um entrave para o sistema fotovoltaico. “No entanto, quase a totalidade das edificações antigas apresentam instalações elétricas também muito antigas, o que dificulta a instalação das placas fotovoltaicas, que necessitam de um circuito elétrico particular”, pondera Ronilson di Souza. Dessa forma, o melhor a se fazer é uma revisão das instalações elétricas para garantir que os alimentadores, circuitos, quadros de distribuição e outros elementos atendam às normas técnicas vigentes.

Não pode ocorrer [...] o abandono, deixando o gerador solar fotovoltaico sem qualquer inspeção, limpeza e manutenção preventiva
Ronilson di Souza

“Muitas edificações antigas não contam com um aterramento funcional. Neste caso, ele deve ser instalado, o que aumenta a segurança geral para o prédio”, pontua Hans Rauschmayer. “A depender das normas de cada distribuidora, também pode ser necessário adicionar algum tipo de proteção não prevista em uma instalação padrão”, completa Raphael Pintão.

Outro componente do sistema é o inversor, que deve ser fixado em um local arejado, sem poeira e sem incidência de sol ou chuva. “Ele é completamente silencioso e não incomoda os moradores”, afirma Hans Rauschmayer. Entre as placas, inversor e quadro de distribuição deve haver espaço para colocação de eletrodutos para acomodar a passagem dos cabos.

INVESTIMENTO QUE SE PAGA

O custo-benefício da instalação de um sistema de placas fotovoltaicas em imóveis já existentes deve ser avaliado caso a caso, uma vez que dificilmente dois imóveis terão a mesma necessidade. “Independentemente dos custos, é muito raro o sistema se tornar inviável devido às adaptações necessárias”, afirma Raphael Pintão.

“O retorno do investimento quanto à geração de energia depende da irradiação da região da instalação e da tarifa de energia cobrada pela concessionária local. No Brasil, costuma variar entre 6 e 8 anos”, estipula Hans Rauschmayer.

A manutenção do arranjo fotovoltaico se restringe à limpeza superficial das placas, cuja frequência varia de acordo com a incidência de poeira no local da instalação e do regime de chuvas. “Em cidades próximas a mineradoras pode haver um acúmulo muito grande de resíduos, impactando na geração e encarecendo o projeto”, exemplifica Isabelle de Loys.

“O que não pode ocorrer é o abandono, deixando o gerador solar fotovoltaico sem qualquer inspeção, limpeza e manutenção preventiva”, adverte Ronilson di Souza. “Não realizar uma manutenção pelo menos anual, em que se faça a limpeza das placas solares e inspeção da parte elétrica, pode significar perda de rendimento, que ao fim de dois anos pode ser superior a 20%”, calcula.

Já em relação aos equipamentos, estipula-se a troca dos inversores entre 10 e 15 anos. “É importante frisar que, após 10 anos, o sistema já estará mais do que pago pela economia”, destaca Raphael Pintão. “O inversor pode custar entre 10% e 25% do custo total do sistema hoje, mas em 10 anos deverá custar menos ainda”, argumenta. Como os estudos de viabilidade são feitos para 25 anos, é imprescindível colocar a manutenção e troca dos inversores na conta.

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Colaboração técnica

Hans Rauschmayer – formado em ciências da computação, é sócio-fundador da empresa Solarize Serviços em Tecnologia Ambiental. Atua desde 2003 com energia solar, tanto térmica quanto fotovoltaica. Criou programas de disseminação e capacitação dessas tecnologias. Instalou o primeiro sistema de microgeração solar conectado na rede no Rio de Janeiro. Atua como consultor e instrutor para diversas instituições e empresas, como Sebrae, Senai, GIZ, Eletrobras-Procel, Caixa e universidades como UFMT, UFRJ e UFF.
Isabelle De Loys – possui graduação em Biblioteconomia e Documentação pela Universidade Federal de Fluminense (UFF) e em Arquitetura e Urbanismo pelo Centro Universitário Plínio Leite. Mestre em Engenharia Urbana pela Poli da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e doutoranda em Arquitetura na UFF. Atualmente, é consultora do Sebrae e Sebraetec, além de pesquisadora do IVIG — Instituto Virtual Internacional de Mudanças Globais, da UFRJ. É sócia-diretora da De Loys Arquitetura Solar e tem experiência nos temas edificações verdes, fontes de energia renováveis, energia solar fotovoltaica e eficiência energética.
Raphael Pintão – engenheiro com formação na Universidade de São Paulo (USP) e no Politecnico di Torino, na Itália. É Master in Business Administration pela Fundação Instituto de Administração (FIA) e sócio-diretor da NeoSolar Energia. .
Ronilson di Souza – instrutor eletrotécnico especialista em sistemas fotovoltaicos. É responsável técnico pelo conteúdo dos cursos e treinamentos na Blue Sol Energia Solar. Já contribuiu com a formação de mais de 7 mil profissionais do setor no Brasil.
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