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Entenda por que humanizar projetos hospitalares é tão importante

Brinquedoteca, “quimioteca” e espaço da família são alguns dos ambientes humanizados construídos para acolher pacientes e familiares. Humanizar os espaços valoriza a vida e não a doença

Redação Portal AECweb / e-Construmarket

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Brinquedoteca Ayrton Senna do Hospital Boldrini (Foto: Atelier Cenográfico)

Projetos de humanização de hospitais, especialmente das áreas destinadas a crianças e adolescentes em tratamento oncológico, vão muito além da criação de ambientes lúdicos; eles chegam a estabelecer novos protocolos médicos e envolvem a equipe médica, de enfermagem e a direção da instituição. Já em operação, brinquedotecas, “quimiotecas” e espaços da família contam com profissionais multidisciplinares que interagem com os pacientes e seus acompanhantes. “Esses espaços resgatam a dimensão humana, muito além da tecnologia, da assepsia, das paredes e vestes brancas ou acinzentadas dos hospitais”, afirma a diretora de arte e arquiteta autodidata Ângela Maciel Barbosa que, junto com o cenógrafo e também arquiteto autodidata José Alberto Pinheiro de Paiva, dirige o Atelier Cenográfico.

Para o desenvolvimento do projeto é preciso conhecer de perto as necessidades das famílias. Em instituições que atendem majoritariamente a população mais carente, as mães abandonam sua rotina e, eventualmente, outros filhos, para acompanhar o que está doente em tratamentos que podem durar até oito anos. “Humanizando os espaços hospitalares, há uma valorização da vida e não da doença. O resultado é a redução significativa do abandono do tratamento. No GRAACC [Grupo de Apoio à Criança e ao Adolescente com Câncer, em São Paulo (SP)], esse índice é praticamente zero”, comenta Barbosa. O peso do tratamento e do estigma do câncer é mitigado, porque a criança e sua família são acolhidas, brincam e realizam atividades orientadas. Os ambientes criados também atendem à reivindicação da equipe de enfermagem, que atua diretamente com os pacientes num trabalho extenuante.

Humanizando os espaços hospitalares, há uma valorização da vida e não da doença. O resultado é a redução significativa do abandono do tratamento. No GRAACC [Grupo de Apoio à Criança e ao Adolescente com Câncer, em São Paulo (SP)], esse índice é praticamente zero
Angela Maciel Barbosa

Paiva e Barbosa criticam o conceito de interiores utilizado em alguns hospitais com apelo temático ou com forte presença de publicidade. “Espaço de humanização não pode ser infantilizado, porque deve atender à criança, ao adolescente, aos pais e às enfermeiras. Em nossos projetos, tivemos a constante preocupação de criar um ambiente visualmente impactante e quebrar os paradigmas do que se entende por hospital”, destaca o cenógrafo-arquiteto.

MATERIAIS

Os ambientes humanizados recebem piso orgânico com mantas vinílicas, e as paredes, mobiliários, brinquedos, cores e formas, além de elementos cenográficos (diante das exigências rígidas de controle de infecção hospitalar, no lugar de árvores verdadeiras, são adotadas soluções cenográficas). Esses recursos plásticos estabelecem harmonia. Assim, em algumas instituições, a brinquedoteca transforma-se num ambiente de descompressão.

Os profissionais defendem que os materiais devem ser de alta qualidade, afinal, um paciente de quimioterapia, por exemplo, ficará horas sentado numa poltrona. Esta deve ser confortável e revestida com tecido cujo toque seja agradável – no caso, é usado couro sintético naval importado, antibactericida e lavável. Contudo, mobiliário ergonômico voltado para ambientes hospitalares ainda é pouco desenvolvido no Brasil. Não há produtos prontos no mercado. A solução é desenhar móveis, objetos e acessórios para que marceneiros ou artesãos os confeccionem. “Criamos réguas hospitalares, porta-soro, assentos de brinquedos, entre outros produtos. Em cada projeto implantado, desenvolvemos desenhos especiais”, explicam.

CASES DE SUCESSO

Espaço de humanização não pode ser infantilizado, porque deve atender à criança, ao adolescente, aos pais e às enfermeiras. Nossas preocupações eram criar um ambiente visualmente impactante e quebrar os paradigmas do que se entende por hospital
José Alberto Pinheiro de Paiva

No Hospital Albert Einstein, em São Paulo (SP), o único local disponível para a criação de um espaço humanizado era o hall dos elevadores – área muito fechada, com divisórias e uma pequena sala de estar. “O médico-chefe bancou junto com nosso escritório intervenções que mudaram a função do local, tornando-o um espaço de acolhimento”, conta Paiva. Foi uma grande novidade instalar um brinquedo de grandes dimensões que foi bem recebido e muito usado pelas crianças. Inúmeros pais relataram que esse ambiente alegrou os filhos, quebrando a tensão pré-internação ou cirurgia. “O Einstein nos chamou, posteriormente, para o desenvolvimento de novos espaços humanizados na clínica de especialidades do hospital e para a nova unidade de consultórios”, contam os arquitetos-autodidatas.

Em Jaú (SP), o médico-chefe do Hospital Amaral Carvalho – referência nacional no tratamento oncológico – acreditou em um projeto mais ousado, tendo de disputar cada centímetro quadrado para a instalação de ambientes para os familiares e espaços para crianças e adolescentes brincarem e estudarem.

Mais complexo e delicado foi o projeto do ambiente pós-óbito. A solução, amplamente discutida, tem caráter ecumênico, está rodeada de bancos, tem teto abobadado com iluminação agradável, além de cores acolhedoras. “Essa ambientação exigiu pesquisa e muito cuidado”, lembram os diretores do Atelier Cenográfico.

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Espaço da Família no GRAACC (Foto: Atelier Cenográfico)

Ferramentas do cinema, do audiovisual, da cenografia e da arte se somaram a conceitos de arquitetura de interiores no projeto da brinquedoteca instalada no GRAACC, em 1998. “Esses conhecimentos nos permitiram roteirizar o espaço e humanizar todas as ações, pensando na trajetória dos pacientes e de suas famílias dentro do ambiente hospitalar”, conta Paiva.

O fundador e diretor clínico do GRAACC, Antonio Sérgio Petrilli, foi um grande incentivador dos vários projetos implantados ao longo de 22 anos – o último, o espaço da família, foi inaugurado este ano. “Com seu apoio e da equipe de profissionais do hospital, inclusive da área de controle de infecção hospitalar, foi possível criar, juntos, novos protocolos de tratamento”, recorda Barbosa, referindo-se à higienização dos brinquedos. Ou seja, para humanizar espaços é preciso desconstruir alguns conceitos e contar com o comprometimento das equipes médicas. Caso contrário, o espaço pode até ser criado, mas na prática não funciona. A “quimioteca” é um exemplo desse envolvimento, pois a área de psicologia do hospital identificou que nem a amputação de um membro é tão traumática quanto a quimioterapia. O projeto levou o conceito de brinquedoteca para a área de tratamento. Já na “quimioteca”, os pacientes dispõem de jogos, brinquedos, filmes, além de profissionais brinquedistas. São espaços divididos, personalizados para crianças e para adolescentes, afinal, cada faixa etária tem um interesse específico.

Outro sucesso dos espaços humanizados é o encontro de mães. Nas oficinas oferecidas, há intensa troca de conhecimento e experiência entre mães cujos filhos estão no final do tratamento e aquelas que acabaram de chegar, ainda muito assustadas. “É um momento em que relaxam e ganham forças”, conclui Barbosa.

Leia também: Projetos de hospitais pedem máxima integração entre arquitetura e saúde

Colaboração técnica

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Angela Maciel Barbosa – Com formação em Cinema, Cenografia e Direção de Arte, é arquiteta autodidata e sócia-diretora do escritório Atelier Cenográfico. Ganhadora do Prêmio Estímulo do Estado de São Paulo, nas categorias roteiro e direção, com o curta Inseto, de 1991.
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José Alberto Pinheiro de Paiva – Formado em Artes Plásticas pela Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), é cenógrafo, arquiteto autodidata e arte-educador. Criou, em 1991, o escritório Atelier Cenográfico.
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