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Manejo integrado da água é solução para o futuro

Questão deve ser considerada a partir de uma abordagem sistêmica, integrando os ciclos locais aos mais amplos

Redação AECweb / e-Construmarket

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O manejo integrado da água tem por finalidade alterar o caminho da água da chuva, retendo-a e melhorando a sua qualidade, ao invés de simplesmente descartá-la.

No Brasil, como se sabe, a água é tratada em megaestações e fornecida por grandes concessionárias públicas, cabendo às prefeituras os serviços de drenagem. E é pela drenagem que tudo começa. O modelo convencional recolhe água de chuva, removendo-a do ambiente de projeto. Ela é escoada, entubada e levada para outro lugar. No caso de um shopping center, a maior parte da água da chuva que cai no telhado e no estacionamento será recolhida pela galeria pluvial e irá embora. “No manejo integrado, o caminho é outro e envolve a retenção de água, a valorização da infiltração dessa água sempre que possível, e a melhoria da sua qualidade”, afirma o engenheiro Guilherme Castagna, sócio-fundador da Fluxus Design Ecológico e autor de projetos premiados.

Castagna acrescenta que, no Brasil, esse processo é designado como drenagem sustentável e é realizado com o emprego de equipamentos construídos in loco ou industrializados. Trata-se de um grupo de elementos que valoriza a retenção, a infiltração e a melhoria da qualidade da água, como os pavimentos permeáveis sobre reservatório, biovaletas, jardim de chuva e cisterna que armazena água da chuva do telhado.

No manejo integrado, o caminho é outro e envolve a retenção de água, a valorização da infiltração dessa água sempre que possível e a melhoria da sua qualidade
Guilherme Castagna

A lógica do manejo integrado da água é que toda água – seja ela potável, de chuva ou esgoto – deve ser considerada a partir de uma abordagem sistêmica, integrando os ciclos locais com os mais amplos, da atmosfera. De acordo com Castagna, esse é o papel dos urbanistas e projetistas de edificações.

“Conhecemos o ciclo da água, sabemos como funciona, mas não projetamos de acordo com ele, porque a gestão é feita de maneira isolada. A ideia é valorizar o ciclo de evapotranspiração”, ensina. Esse ciclo abrange a evaporação da água de superfícies como rios e lagos, dos solos e da vegetação úmida, e a transpiração dos vegetais; o retorno da água à atmosfera; o recolhimento da água de chuva; e sua retenção no local. A esse processo da natureza aliado à melhoria da qualidade e aproveitamento da água é dado o nome técnico de controle da água na fonte. “Não tem nenhuma invenção, apenas se pretende enquadrar os nossos projetos dentro da lei maior que é a do funcionamento da água no planeta”, ressalta.

JARDIM DE CHUVA

O jardim de chuva é uma solução ainda pouco usada no Brasil, porém de impacto na redução dos alagamentos nas cidades. Sua execução é simples: basta cavar cerca de 1 m de profundidade, em uma largura variável, preencher esse espaço com areia e brita até próximo da superfície, onde é feito o preenchimento com terra, adubo e vegetação. “O ideal é utilizar tipos de plantas mais resistentes aos períodos de seca, que mantém a permeabilidade do solo, favorecendo a infiltração da água que ficou retida. Com isso, é possível evitar a necessidade de irrigação das plantas na maior parte do ano, porque o jardim retém a água e infiltra”, explica.

O jardim de chuva possibilita a evapotranspiração, levando para a atmosfera a umidade que iria embora se a água tivesse entrado numa galeria pluvial, e melhora a qualidade do ar pela retenção na superfície das plantas de partículas da poluição. Complementarmente, a qualidade da água que entraria para a rede de coleta se beneficia, pois ficam retidos os poluentes e materiais mais grosseiros. “As plantas mais usadas não precisam ser as ornamentais, pode ser agapanto, manjericão ou até mesmo uma árvore”, aconselha Castagna.

Diante de uma disponibilidade de água cada vez menor, soluções como o manejo integrado da água representam uma segurança hídrica, que está acima de cálculo financeiro, para a sobrevivência do empreendimento e das pessoas que o utilizam
Guilherme Castagna

ÁGUA RETIDA EM CISTERNAS

O volume de água retido em cisternas pode ser aproveitado para abastecimento local. “Quando a edificação está conectada a uma concessionária, só é possível usar a água pluvial para fins não potáveis – limpeza de área externa, rega de plantas, vaso sanitário e, eventualmente, máquina de lavar, dependendo do tratamento a que é submetida”, comenta o engenheiro. Ao ser aproveitada, essa água se transforma em água de esgoto, que deve ser tratado preferencialmente em estação local, quando não houver sistema de coleta e tratamento públicos que façam retornar essa água com boa qualidade.

“Estamos falando de estação de tratamento de esgoto própria do empreendimento e, no caso de cidades, de estações de tratamento de microbacias ou bairros, e que não sejam grandes sistemas centralizados", comenta Castagna. A proposta é sempre valorizar a ação local, o que é raro no Brasil. Porém, o custo de implantação de megaestações é tão grande que inviabiliza o acesso ao saneamento. "É escandaloso pensar que há, por exemplo, em São Paulo, shopping centers de alto padrão que descartam o esgoto in natura no rio Pinheiros. São empreendimentos que geram volume de esgoto generoso – nada mais justo que obrigá-los a tratar localmente”, argumenta o engenheiro.

Quando o tratamento atinge o nível terciário, o resultado é uma água de boa qualidade, ainda que não potável. Com essas ações, o edifício reduz, e muito, sua necessidade de água potável. É o caso do projeto de manejo integrado projetado por Castagna, em 2007, para o conjunto de dois edifícios comerciais no bairro paulistano de Vila Madalena. “Ali, 100% do consumo é de água não potável, de água de chuva, e de drenagem de garagem (lençol freático)”, conta, lembrando que a água potável é usada somente na limpeza da pias e copas.

Manejo integrado da água contribui para solucionar crise hídrica

De acordo com o engenheiro, hoje o custo do metro cúbico de água no Brasil ainda é barato. Mesmo diante da crise hídrica atual, os contratos de demanda firme destinados a grandes empreendimentos têm preços irreais. “Enquanto companhias de saneamento mantêm uma prática desse tipo, para o empreendedor beneficiado fica a conclusão de que não vale a pena investir em soluções locais. Porém, diante de uma disponibilidade de água cada vez menor, soluções como o manejo integrado da água representam uma segurança hídrica, que está acima de cálculo financeiro, para a sobrevivência do empreendimento e das pessoas que o utilizam”, sentencia. Conhecimento e tecnologia não faltam aos profissionais e empresas do setor no país para aplicar aos mais diversos tratamentos e reúsos. O que falta é criar e disseminar essa visão sistêmica, entendida como um valor, de forma a depender o mínimo possível da água das concessionárias públicas. “A longo prazo, os sistemas centralizados de água vão falir, e quem estiver associado a eles vai falir junto. Ou, se reinventar”, conclui Castagna.

Colaborou para esta matéria

Guilherme Castagna – é sócio-fundador da Fluxus Design Ecológico, onde integra sua formação em engenharia civil aos princípios de design ecológico no desenvolvimento de projetos de sistemas inovadores de manejo de água. Recebeu prêmios na categoria Tecnologia como o Prêmio Von Martius 2013 e o Prêmio Saint-Gobain Habitat Sustentável 2014, pelo projeto de manejo integrado de águas pluviais do Estádio Nacional de Brasília. Foi também autor do projeto de manejo integrado de água do edifício Harmonia 57, vencedor do prêmio austríaco Zumtobel 2010 na categoria Ambiente Construído (Built Environment).
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