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Rebaixamento do lençol freático exige cuidados e a melhor técnica

Objetivo do procedimento é facilitar a escavação e a construção de estruturas abaixo do nível d´água. Contudo, pode determinar danos à vizinhança e ao próprio empreendimento

Redação AECweb / e-Construmarket

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Conforme for o tipo de contenção e solo, o processo de rebaixamento do lençol freático atinge distâncias de até centenas de metros (Bildagentur Zoonar GmbH / Shutterstock.com)

A construção de novos empreendimentos, geralmente, necessita de escavações para execução de garagens subterrâneas. Quando os andares abaixo do térreo atingem o nível do lençol freático, é preciso esgotar a água através do rebaixamento. O procedimento ocorre no local da edificação e, em alguns casos, pode se estender para a vizinhança. Dependendo do tipo de contenção e solo, o processo atinge distâncias de até centenas de metros.

O principal objetivo do rebaixamento do lençol é facilitar a escavação e a construção de estruturas enterradas abaixo do nível d'água, de modo que essas operações possam ser feitas a seco
José Maria de Camargo Barros

“O principal objetivo do rebaixamento do lençol é facilitar a escavação e a construção de estruturas enterradas abaixo do nível d´água, de modo que essas operações possam ser feitas a seco”, define o engenheiro José Maria de Camargo Barros, diretor do Centro de Tecnologia de Obras de Infraestrutura do IPT.

TECNOLOGIAS DE REBAIXAMENTO

A análise do solo é fundamental para definir a metodologia ideal de rebaixamento. Nas grandes cidades brasileiras, a solução reconhecida como melhor pelo meio técnico é a parede diafragma, isso quando sua ficha atinge as camadas mais resistentes e impermeáveis do subsolo. “Entretanto, é uma alternativa cara e não se pode garantir sua total estanqueidade”, comenta o especialista.

Já as estacas secantes, constituídas por perfis metálicos e pranchões de madeira ou placas de concreto, buscam comportamento similar às paredes diafragma. “Apesar de usual, a solução não é estanque e, assim, faz com que o rebaixamento avance para fora da obra, podendo acarretar danos à vizinhança”, fala Camargo. Há ainda a situação de prejuízos em edificações apoiadas em estacas de madeira que, em razão do rebaixamento, podem sofrer apodrecimento.

Quando a estrutura da edificação está apoiada em fundação profunda ou mesmo rasa, porém abaixo da camada de solo mole, existem alternativas técnicas que buscam restringir o rebaixamento só para o local da escavação. No entanto, essas opções exigem investimentos maiores, como é o caso da parede diafragma.

Medidas complementares podem ser aplicadas, como injeções de produtos cimentícios ou químicos
José Maria de Camargo Barros

“Medidas complementares podem ser aplicadas, como injeções de produtos cimentícios ou químicos”, diz o engenheiro. Como alternativa, há a possibilidade do uso de sobressolos, que é a solução economicamente mais interessante, porém que gera bastante polêmica do ponto de vista arquitetônico e urbanístico.


RISCOS

Em determinadas circunstâncias, o rebaixamento do lençol freático pode provocar uma série de danos à vizinhança. Entre os problemas estão:

• trincas nas paredes e muros de divisa
• afundamentos de pisos
• emperramentos de portas e janelas
• danos em revestimento e em tubulações
• afundamentos nas calçadas e no asfalto
• colapso da estrutura

No entanto, para que as situações de prejuízo ocorram é necessária uma soma de fatores. Por exemplo, quando o rebaixamento acontece em camada de solo mole no terreno, superficialmente ou não. “Situação que acontece na Baixada Santista, onde esse nível está sob a camada de areia, apresentando de oito a dez metros de espessura”, comenta o engenheiro.

Os chamados solos moles são sedimentares argilosos, de deposição recente, saturados e, frequentemente, impregnados de húmus — daí sua cor escura e cheiro característico. Podem ser encontrados em regiões litorâneas, manguezais, vales e várzeas de rios. Têm como característica de engenharia o fato de apresentarem elevada compressibilidade (recalques significativos) e baixa resistência.

“Além disso, os recalques não são instantâneos, mas demandam muito tempo para ocorrer. Se o rebaixamento afetar o nível d´água da vizinhança, essas argilas moles sofrerão compressão, provocando afundamentos nas vias públicas, tubulações e em edificações apoiadas em fundação rasa, tipo sapata, acima da argila mole”, detalha o profissional. Para efeito comparativo, cerca de um metro de rebaixamento do nível d´água praticamente dobra a tensão provocada no solo por uma casa térrea.

BOMBEAMENTO E APROVEITAMENTO DA ÁGUA

Depois que a obra de rebaixamento é concluída, geralmente, o bombeamento se torna permanente durante toda a vida útil da edificação. O volume de água a ser retirado dependerá de quão estanque é a contenção executada. “Outro aspecto importante é que, muitas vezes, a água bombeada é lançada diretamente na sarjeta. Porém, parte dos condomínios a utiliza em jardinagem e lavagem de pisos”, destaca Camargo.

Já o aproveitamento da água do lençol freático para consumo humano é mais complicado. Para essa finalidade, é necessário sofisticado sistema de filtragem, pois sempre existe grau maior ou menor de contaminação, principalmente, nas zonas urbanas.

CIDADE DO MÉXICO X SÃO PAULO

A Cidade do México é um caso extremo, onde há a ocorrência de camada de argila mole com espessura de até 50 metros. “Lá, o rebaixamento do lençol freático se dá pelo bombeamento, para consumo do volume proveniente do aquífero subjacente ao solo mole. Cerca de 2/3 do suprimento de água da cidade provém desse aquífero. Em algumas áreas, nos últimos 100 anos, o centro urbano sofreu recalque de até oito metros, sendo que, atualmente, o afundamento se dá à razão de cerca de sete a dez centímetros por ano”, detalha o especialista.

Já em São Paulo, a presença de solos moles acontece, principalmente, nas várzeas dos rios Pinheiros, Tietê e Tamanduateí, com espessuras de até cinco metros. Alguns registros de impactos significativos na vizinhança estão assinalados no mapa abaixo, sendo que os mais comuns estão nas regiões próximas do rio Pinheiros.

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Município de São Paulo: ocorrência de solos moles (em amarelo) e alguns locais com registro de impactos na vizinhança (pontos escuros) em razão de rebaixamento do lençol freático (Elaborado a partir do mapa de Relevo e Geologia - Município de São Paulo, 2002 [Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano – SMDU])

"Tem sido constatado que o nível d’água em certas regiões de São Paulo está se aprofundando. Resultado da impermeabilização da superfície e do rebaixamento permanente do nível d´água em áreas com concentração de edifícios com operação de bombeamento após sua conclusão”, finaliza Camargo.

Leia também: Solo com alto teor de umidade requer fundações mais profundas

Colaboração técnica

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José Maria de Camargo Barros – É graduado em Engenharia Civil pela Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo, possui mestrado e doutorado em Engenharia Civil pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Recebeu bolsa do CNPq na categoria doutorado-sanduiche na University of Michigan. É pesquisador e diretor do Centro de Tecnologia de Obras de Infraestrutura do IPT. Exerce as funções de consultor ad hoc da CAPES, FAPESP e FACEPE e de professor titular da Escola de Engenharia Mauá e da FESP. Tem experiência na área de Engenharia Civil, com ênfase em Geotecnia, atuando principalmente nos seguintes temas: mecânica dos solos, propriedades dinâmicas dos solos, ensaios dinâmicos, solos marinhos, obras subterrâneas e fundações.
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