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Acessibilidade: projeto arquitetônico deve atender todo tipo de usuário

Além do desenho, a escolha dos materiais também é muito importante e pode facilitar ou dificultar o acesso aos empreendimentos

Publicado em: 29/11/2012Atualizado em: 07/10/2022

Texto: Redação AECweb/e-Construmarket

Redação AECweb / e-Construmarket


Ao elaborar um projeto construtivo com base nas premissas de acessibilidade, o arquiteto deve levar em conta os futuros usuários do empreendimento. Os equipamentos públicos, privados ou não, serão utilizados pelas pessoas que compõem a sociedade – sejam eles portadores ou não de deficiências ou mobilidade reduzida, idosos, gestantes e pessoas com carrinho de bebê – e o profissional deve desenvolver seus projetos com soluções que atendam a essa diversidade. “A arquitetura não pode ser focada em apenas um segmento da população. Deve atender a todos. Na verdade é o que deveríamos fazer sempre”, afirma a arquiteta Silvana Cambiaghi, autora do livro ‘Desenho Universal – Métodos e Técnicas para arquitetos e urbanistas’.

Silvana Cambiaghi defende que, no processo de concepção do projeto e na construção dos edifícios, o arquiteto deve considerar a diversidade quanto a sexo, dimensões, idade, cultura, destreza, força e demais características do ser humano, para evitar que apenas uma parcela da sociedade possa utilizar os espaços confortavelmente. Quanto mais o usuário se distancia das características desse consumidor ideal, maior será a dificuldade para se integrar ao ambiente. Um carro, segundo Silvana, é um exemplo típico de desenho universal. “Tenho 1,50 m de altura, sou cadeirante, e possuo um carro. No estacionamento, o manobrista, que tem dois metros de altura, entra no veículo e o dirige. Meu carro não é especial, é um modelo comum. O projeto é que se ajusta a diferentes usuários”, exemplifica.

Desenho e materiais

Para Silvana o arquiteto precisa estar atento aos detalhes, pois uma edificação pode ser mais ou menos acessível dependendo dos materiais escolhidos. Ele precisa evitar que a planta da edificação seja um labirinto e definir cores diferentes para as paredes, realçando também os batentes, com objetivo de auxiliar a locomoção de pessoas com problemas visuais. Em todos os ambientes, orienta, as portas devem ter 80 cm de largura e ser equipadas com maçanetas de alavanca, evitando esforço físico – as do tipo bola devem ser evitadas. Nos banheiros é importante prever a colocação de piso antiderrapante e utilizar metais que tenham cruzeta, tipo alavanca. “Deve-se evitar os volantes de torneira do tipo bola, pois a pessoa com a mão molhada não consegue acioná-la”, explica.

Paredes

As paredes internas não devem ter função estrutural. A medida permite a abertura de vãos, colocação de portas mais largas ou a demolição de um quarto, para, a qualquer tempo, atender aos usuários com necessidades ou tamanhos diferentes. Com essas características, as divisões podem ser alteradas sem comprometer a segurança do edifício. Elas podem ser construídas de tijolo, drywall ou de qualquer outro material.

Escada

No ambiente onde será instalada a escada que leva ao piso superior é necessário prever uma rota acessível. Um prédio, um teatro, uma residência, podem ter escadas, até esculturais, desde que sejam projetados elevadores para que as pessoas com problemas de mobilidade consigam circular. Os prédios públicos devem evitar que o usuário tenha que sair do ambiente principal para ter acesso a outros pavimentos. “A escada pode ser mais rápida para evacuar o maior número de pessoas, mas é preciso ter o elevador, que é uma rota acessível e necessária”, diz.

Elevadores

Existem equipamentos de vários tipos. As plataformas abertas, para espaços menores, podem dar um bom visual e valorizar o projeto arquitetônico. Para definir o elevador mais indicado a cada uso é importante seguir a Norma Técnica Mercosul NM 313:2007, adotada pela ABNT. O projeto deve facilitar o acesso dos usuários. A largura das portas do elevador, a dimensão da cabine, a altura das botoeiras interna e externa, precisam atender as pessoas com mobilidade reduzida. A cabine mínima deve ter 1,40 m de profundidade por 1,10 m de largura. As botoeiras devem ter relevo em Braille e o sistema de alertas ser dotado de sinais sonoros ou de voz, anunciando cada andar. “Esses são alguns quesitos da norma”, informa Silvana.

Rampas

As rampas de acesso devem ter pequena inclinação, corrimão e borda de proteção para evitar que as rodas da cadeira ou dos carrinhos de bebê saiam de lado. O bom projeto prevê a instalação de guia para deficiente visual, pisos táteis de alerta no seu início e término, assim como nas escadas, e ainda, patamares de descanso que permitam sua utilização também pelos idosos.

Projeto residencial

Em todos os cômodos, a área de circulação precisa ter 1,50 m de diâmetro para giro de 360º e de 1,20 m x 0,80 m para giro de 180º. O diâmetro de corrimãos e barras deve ficar entre 3,00 cm a 4,50 cm, afastados 4,00 cm da parede. A altura das maçanetas é de 0,80 m a 1,00 m e as tomadas devem ser instaladas em alturas que variam de 0,40 m a 1,00 m do chão. Os interruptores e a campainha são instalados a 1,00 m do chão e os interfones e telefones a uma altura entre 0,80 m a 1,20 m. A largura mínima dos corredores é de 0,90 m, enquanto o comando de janela precisa estar acessível a 0,60 m a 1,20 m, e as janelas devem ter visibilidade de, no mínimo, 0,60 m de altura do piso.

Cozinha

A cozinha deve ser projetada de maneira que a superfície de trabalho tenha altura entre 0,75 m e 0,85 m e um vão livre inferior de 0,73 m, e os armários com altura entre 0,40 m a 1,20 m. Os puxadores e fechaduras ficam entre 0,80 m e 1,20 m do piso, e as prateleiras podem ter, no máximo, 0,43 m de profundidade. A área de circulação livre de qualquer obstáculo na cozinha é de 1,20 m x 1,50 m permitindo giro de 180º.

Banheiro

Junto à bacia sanitária, na lateral e no fundo, devem ser colocadas barras horizontais para apoio e transferência, com comprimento mínimo de 0,80 m a 0,75 m de altura do piso acabado. A distância entre o eixo da bacia e a face da barra lateral do vaso será sempre de 0,40 m, estando posicionada a uma distância mínima de 0,50 m da borda frontal da bacia. Para o vaso sanitário instalado, a altura é de 0,43 m a 0,45 m do piso acabado, sem o assento. A descarga precisa ficar a 1,00 m de altura em sistema de alavanca ou automático, e as papeleiras a 0,50 m a 0,60 m do piso, com distância de, no máximo, 15 cm da borda frontal da bacia.

Chuveiro

O chuveiro é equipado com desviador e o controle de fluxo (ducha/chuveiro) deve ser manual. Os registros devem ser do tipo alavanca de monocomando, instalados a 0,45 m da parede de fixação do banco e a uma altura máxima de 1,00 m do piso acabado. A posição da ducha manual é de 0,30 m da parede de fixação do banco e a uma altura máxima de 1,00 m do piso acabado.

A dimensão mínima do box para o chuveiro é de 0,90 m x 0,95 m. Ele deve ser provido de banco articulado ou removível, com cantos arredondados e superfície antiderrapante impermeável, e de barras de apoio verticais, horizontais ou em “L”. A profundidade mínima do banco é de 0,45 m, altura de 0,46 m do piso acabado e comprimento mínimo de 0,70 m.

Na parede de fixação do banco é instalada uma barra vertical com altura de 0,75 m do piso acabado e comprimento mínimo de 0,70 m, a uma distância de 0,85 m da parede lateral, onde são instaladas duas barras de apoio, uma vertical e outra horizontal ou, alternativamente, uma única barra em “L”, obedecendo aos seguintes parâmetros:

Barra vertical – com comprimento mínimo de 0,70 m, a uma altura de 0,75 m do piso acabado e a uma distância de 0,45 m da borda frontal do banco;

Barra horizontal – com comprimento mínimo de 0,60 m, a uma altura de 0,75 m do piso acabado e a distância máxima de 0,20 m da parede de fixação do banco;

Barra em “L” – em substituição às barras vertical e horizontal, com segmentos das barras de 0,70 m de comprimento mínimo, a uma altura de 0,75 m do piso acabado no segmento horizontal e a uma distância de 0,45 m da borda frontal do banco no segmento vertical.

Banheira

A melhor opção para banho são os chuveiros, mas também pode haver banheira com altura de 0,46 m do piso acabado. Os registros ou misturadores do tipo alavanca de monocomando devem ficar a uma altura de 0,75 m do piso acabado. Recomenda-se que estejam posicionados na parede lateral à banheira. Esta deve ser provida de duas barras de apoio horizontais e uma vertical. A barra vertical é fixada a uma altura de 0,10 m da borda, com comprimento mínimo de 0,70 m, alinhada à face externa da banheira e do mesmo lado da plataforma. As barras horizontais têm comprimento mínimo de 0,80 m e são fixadas na parede de fundo. A barra horizontal inferior deve estar alinhada à cabeceira da banheira, com altura de 0,10 m da borda, e a superior estende-se 0,10 m além da cabeceira (sobre a plataforma), com altura de 0,30 m da borda.

Lavatório

A bancada do lavatório é instalada a 0,78 m a 0,80 m do piso acabado, respeitando uma altura livre mínima de 0,73 m na sua parte inferior frontal. O sifão e a tubulação ficam situados a, no mínimo, 0,25 m da face externa frontal e têm dispositivo de proteção do tipo coluna suspensa ou similar. Sob o lavatório não pode haver elementos com superfícies cortantes ou abrasivas. As torneiras devem ser acionadas por alavanca, sensores eletrônicos ou dispositivos equivalentes. Quando forem utilizados misturadores, estes devem ser de monocomando. O comando da torneira é instalado a, no máximo, a 0,50 m da face externa frontal do lavatório. As barras de apoio ficam na altura do lavatório. A altura do espelho, medida pela borda inferior, é de no máximo 0,90 m.


COLABOROU PARA ESTA MATÉRIA

Silvana Cambiaghi – Arquiteta, mestre em desenho universal pela Faculdade de Arquitetura da Universidade de São Paulo (FAU-USP), desenvolve trabalho na Prefeitura de São Paulo sobre a questão da acessibilidade. É fundadora da Comissão Permanente de Acessibilidade de São Paulo (CPA), membro do grupo de trabalho da revisão da NBR nº 9050 e demais Normas Técnicas de acessibilidade da ABNT. Consultora do Instituto Paradigma, Mais Diferenças. Foi cocuradora da Sala Especial de Acessibilidade ao Meio Físico na 3ª Bienal Internacional de Arquitetura e jurada de concurso nacional de Habitação com Desenho Universal e concursos internacionais. É docente dos cursos de Mestrado em Design da Universidade Gama Filho, em Tecnologia Assistiva da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais. Ganhou o 22º Prêmio Design do Museu da Casa Brasileira, em 2008, com a primeira edição do livro, “Desenho Universal: Métodos e Técnicas para arquitetos e Urbanistas”.