Alvenaria estrutural ganha novo conjunto de normas técnicas. Saiba o que muda

Textos normativos tratam de questões relacionadas a projeto, à execução e ao controle tecnológico de alvenarias construídas com blocos estruturais de concreto e cerâmico

Publicado em: 17/09/2020

Texto: Juliana Nakamura

alvenaria estrutural
O novo conjunto normativo unifica os textos para alvenarias executadas com blocos cerâmicos e de concreto (foto: divulgação/Anicer)

Sistema construtivo de uso consolidado no Brasil, a alvenaria estrutural ganhou, recentemente, um novo acervo de normas com a publicação da NBR 16.868 Alvenaria Estrutural. A norma da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) divide-se em três partes focadas em projeto, execução e controle de obras e, métodos de ensaio.

O novo conjunto normativo recém-publicado repara uma distorção que havia somente no Brasil: a existência de textos separados para alvenarias executadas com blocos cerâmicos e de concreto.

PROJETOS MAIS RACIONAIS

Além dessa correção, uma série de novidades foram incorporadas ao novo grupo de normas com o intuito de tornar os projetos com alvenaria estrutural mais racionais, seguros e eficientes.

Foram definidas, por exemplo, especificações para alvenaria estrutural com tijolos cerâmicos. Houve, também, a inclusão de uma tabela com sugestões para especificação de graute e argamassas. Esses materiais devem ser definidos em função do tipo e da resistência do bloco utilizado (concreto vazado, cerâmico vazado, cerâmico maciço), bem como em função da resistência de prisma a ser obtida. Segundo Guilherme Parsekian, professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e coordenador dos trabalhos de elaboração das normas, o objetivo é minimizar a ocorrência de acidentes estruturais ao inibir a especificação de resistência de prisma inadequada.

Ainda na parte de projetos, a norma apresenta requisitos para edifícios altos, além de especificações para vigas de alvenaria estrutural. Há mudanças quanto à consideração da tensão do aço no dimensionamento da alvenaria armada. “Antes, o projetista era obrigado a considerar, no máximo, a metade da tensão de escoamento do aço. Agora ele pode considerar toda a tensão no aço, dentro dos critérios estabelecidos”, explica Parsekian.

O texto traz, ainda, alterações com relação à armadura mínima. “A norma anterior exigia uma quantidade grande de armadura para paredes de edifícios, muitas vezes resultando em um conjunto superdimensionado para resistir aos esforços previstos no projeto. Com a nova redação, passa a ser possível prescindir dessa armadura mínima, desde que garantido um coeficiente extra de segurança”, explica o professor da UFSCar.

Na elaboração da ABNT NBR 16.868 foram incluídos anexos que ajudam a esclarecer dúvidas quanto ao dimensionamento de painéis expostos às forças laterais (como paredes de shoppings e galpões), e ao comportamento conjunto quando a alvenaria estrutural é combinada a estruturas aporticadas de concreto ou aço.

Outra mudança impactante e que induz a produção de estruturas melhores é a obrigatoriedade de se realizar procedimentos para o controle da qualidade do projeto. Isso significa que a aprovação final de um projeto de alvenaria estrutural está condicionado à verificação por uma terceira parte, como já ocorre nas estruturas de concreto armado, e à compatibilização com as demais disciplinas técnicas. “Isso é um reconhecimento da responsabilidade que envolve o desenvolvimento de um projeto estrutural e é relevante para a segurança de modo geral”, comenta Parsekian.

EXECUÇÃO E CONTROLE DE QUALIDADE

Com relação à execução da alvenaria com blocos estruturais, o novo texto não trouxe alterações significativas, exceto pela redação mais clara e objetiva. O mesmo não ocorreu no trecho que aborda o controle, que foi inteiramente reformulado. Foram estabelecidos critérios para o recebimento dos blocos no canteiro e promovidas mudanças no controle de prismas.

Pontos que despertavam questionamentos no meio técnico foram ponderados pelo comitê de elaboração da norma, resultando em indicações de procedimentos técnicos mais adequados. A norma permite, agora, realizar controles com quantidade menor de corpos de prova, desde que atendidos alguns critérios. Também autoriza a realização de ensaios de prisma moldados em laboratório, e não somente no canteiro.

MÉTODOS DE ENSAIO

A parte 3 da NBR 16.868 estabelece os métodos de ensaio de elementos em alvenaria construídos com blocos e tijolos cerâmicos e de concreto submetidos a esforços de compressão axial, cisalhamento, flexão e flexocompressão. Antes da publicação no novo texto, os métodos de ensaio estavam dispersos em várias normas individuais, dificultando o acesso dos profissionais que atuam na área.

Além desta unificação, uma novidade interessante é a definição de um procedimento para extração de prismas em paredes executadas, para os casos em que tem dúvida sobre a resistência da alvenaria.

Outras duas partes da norma de alvenaria estrutural estão em fase inicial de desenvolvimento com previsão de publicação nos próximos anos. A parte 4 enfocará a estrutura em situação de incêndio. Já a parte 5 – Projeto para ações sísmicas.

Colaboração técnica

Guilherme Aris Parsekian – Engenheiro civil (UFSCar) com doutorado pela Universidade de São Paulo (USP) e pós-doutorado na University of Calgary (Canadá). É professor da Universidade Federal de São Carlos e coordenador do comitê que elaborou a ABNT NBR 16.868 Alvenaria Estrutural.