Arquitetura de hotéis está em constante evolução

Complexos, os projetos para esse segmento só perdem para os de hospitais e aeroportos. Exigem do arquiteto conhecimento de fluxo e suas interfaces com hospitalidade e lazer

Publicado em: 08/07/2021Atualizado em: 04/08/2021

Texto: Redação AECweb/e-Construmarket

Projeto arquitetônico de hotel
Os projetos de hotéis devem ter o hóspede como foco (Foto: Boyloso/Shutterstock)

Projetos de arquitetura de hotéis se caracterizam pela máxima atenção aos usuários, muito mais do que a própria arquitetura residencial. “Ao projetar para uma pessoa, casal ou família, o arquiteto conhece, em detalhes, as demandas do cliente. No caso de um hotel, precisamos criar espaços que satisfaçam o maior número de pessoas”, afirma o arquiteto e urbanista Eduardo Manzano, fundador e diretor de Design do escritório EMDAStudio e professor do Instituto Europeo di Design.

Ao projetar para uma pessoa, casal ou família, o arquiteto conhece, em detalhes, as demandas do cliente. No caso de um hotel, precisamos criar espaços que satisfaçam o maior número de pessoas
Eduardo Manzano

Depois de aeroportos e hospitais, os projetos hoteleiros são os mais complexos. O denominador comum entre eles é o fluxo, ou seja, o empreendimento deve ser pensado como uma indústria que tem estoque, produção, montagem e entrega. “A diferença é que o carro produzido, por exemplo, é algo concreto. Já a experiência do hóspede é individual e subjetiva”, diz. Para projetistas e proprietários, uma importante ferramenta para a prototipagem das soluções e tomada de decisões é criar um hotel conceito. “A hotelaria convencional faz dele um laboratório para ensaios de soluções”, indica.

A especificação de materiais é outro desafio, considerando que um hotel midscale superior chega a ter 900 itens entre os dois tipos de produtos usados: Furniture, Fixture & Equipments (FF&E) e Operating Supplies & Equiments (OS&E). “Os componentes de FF&E são os produtos e materiais que têm conexão direta com o projeto, como luminárias, TVs, camas, revestimentos especiais, mobiliário. Os materiais de OS&E estão ligados diretamente à operação do hotel, por exemplo, enxoval, máquinas de lavar, computadores, talheres, copos”, explica.

Evolução com foco no hóspede

Nos anos 1990, a febre de padronização dos hotéis, principalmente de hotelaria urbana de alto padrão, resultou em quartos idênticos nas grandes metrópoles mundiais. Quem se hospedasse em Singapura encontraria o mesmo quarto em Londres, Paris, Nova York ou Recife. Derivou daí a arquitetura de interiores clean, que Manzano critica: “Afinal, é possível ser minimalista e criativo ao mesmo tempo”.

Em 1999, o projeto do hotel Paramount de Nova York, assinado pelo arquiteto Philippe Starck, deu início à revisão da padronização. “Ele defendia que o quarto de um hotel é mais do que um lugar para dormir. Mas deve trabalhar com a memória afetiva das pessoas e incorporar aspectos culturais da região onde se localiza”, conta Manzano. A partir dos anos 2000, os hotéis passaram a apresentar uma assinatura local e, mais recentemente, tentar recuperar o papel que tinham nas décadas de 1940/50, quando concentravam encontros nos seus bares e restaurantes e festas de formatura e casamento, entre outras.

Com o advento da hotelaria business, o hotel se tornou apenas um local para dormir, tomar banho e ir para o trabalho. “Independentemente do valor da diária, o essencial é o hóspede se sentir acolhido. Felizmente, essa tendência dos standards se reduziu bastante”, diz, ressalvando o aspecto positivo dessa categoria, que proporcionou a multiplicação da hotelaria. A padronização da categoria econômica viabiliza e dá previsibilidade ao negócio, pois permite saber, de antemão, o valor de cada item de interiores e, consequentemente, o custo de cada quarto. “Com essa informação, é possível compor o valor da diária e o lucro resultante”, diz.

Para projetar um hotel business, o arquiteto recebe um manual que tem em torno de 750 páginas. “Para o arquiteto, é zero criatividade, porque qualquer elemento que ele substitua e que custe R$ 1 a mais, vai impactar o valor da diária”, diz. Como forma de compensar essas limitações e para que o hotel possa contar um pouco da história do lugar onde está inserido, as redes deram maior liberdade aos projetos das áreas comuns.

Já no alto padrão, o arquiteto recebe uma pequena brochura de cerca de 20 páginas, abordando qual a experiência que o hóspede deverá ter naquele projeto. Com inspiração em marketing e em psicologia, e um forte trabalho em pesquisa de tendências, não há mais referência à implantação de coworking ou visando a hospedagem da geração millenium, especialmente depois da chegada da pandemia.

“Porque a hotelaria voltou a ser conservadora”, diz, reproduzindo trecho do manual da marca mais sofisticada da rede Hyatt: “.... Cada Park Hyatt foi projetado para refletir o caráter único da sua localidade – o sofisticado de Paris, o fascínio exótico de Goa ou o estilo americano de Chicago...”. Em seguida, menciona os eventos artísticos aclamados, o design de interiores apurado e os restaurantes premiados da marca, além das áreas para grandes reuniões ou íntimos encontros sociais. “Esse é o briefing a partir do qual o arquiteto cria o projeto do hotel”, comenta.

Resorts e seus projetos autorais

Os resorts se caracterizam por ser local de confraternização, onde o hóspede é envolvido em diversas atividades, tem à disposição muita gastronomia e experiências. “O foco do resort é segurar os visitantes o máximo de tempo possível para consumir e, também, se desconectar do cotidiano”, explica, observando que essa vivência independe do luxo do local, mas em como proporciona esse relaxamento. Na África, por exemplo, muitos dos resorts não têm ar-condicionado, apenas um ventilador, mas oferecem atrativos como uma girafa que de repente surge na janela do quarto e a vista de um pôr de sol único.

“Em decorrência da pandemia, 75% do mercado de hotelaria brasileiro está mirando em projetos de resorts no litoral. Predominam, também, empreendimentos com parque aquático, uma forma de levar a praia para o interior do país”, conta o arquiteto.

Em projetos de resorts, o arquiteto tem ampla liberdade, porém deve entender profundamente do fator do fluxo e suas interfaces com a hospitalidade e o lazer, principalmente se o local tiver áreas de convenções e de lazer. “Entre outros aspectos, é preciso que o projeto estabeleça fluxos, de maneira a evitar que os hóspedes, principalmente famílias a caminho da piscina, por exemplo, cruzem com frequentadores do cassino”, exemplifica. O ideal, ainda, é que o projetista tenha amplo conhecimento dos materiais, para criar diversos ambientes com cenários distintos, inclusive visando posts no Instagram.

É recomendável a criação de elementos atraentes nos percursos entre o quarto ou área de convenções até os restaurantes ou o lazer. “O projeto de resorts com área de convenções deve prever o restaurante nas proximidades, afinal, os participantes de um congresso têm cerca de uma hora para se alimentar. Se for distante, não dará tempo”, aconselha.

Estudos de mercado e de viabilidade econômica são decisivos para a criação ou não de áreas de convenções. “Um grande erro é contratar esses estudos depois de pronto o projeto”, ressalta. Manzano, que iniciou sua trajetória com o projeto do Hotel Pousada Rio Quente (GO) e assina as ampliações e atualizações necessárias, cita o exemplo: “Ali, são 404 quartos e 1,6 mil m² para convenções. Neste momento, por exemplo, a ideia é aumentar a experiência do hóspede com a ampliação do hotel temático e diminuir a força de convenções”, conta, acrescentando que a cada cinco anos, a empresa revalida seu business plan, o que lhe permite saber sempre o produto que terá nos períodos e passos seguintes.

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Projetos pós-pandemia

Para o arquiteto, os projetos de hotéis pós-pandemia serão mais conscientes e sustentáveis. Entre os critérios, está o uso de mão de obra local. “Os próprios donos dos empreendimentos querem envolver a comunidade local, como ocorre com um projeto nosso de altíssimo padrão, na Bahia: o cliente determinou que 50% da mão de obra seja da ilha onde será construído”, relata.

Materiais para revestimentos passam, agora, por intenso desenvolvimento de produtos mais fáceis de limpar ou lavar e que não tenham descontinuidade de produção, o que sempre implica transtornos para a manutenção dos hotéis. “Isso já está no radar das indústrias cerâmicas”, fala. Na área dos tecidos, muitas empresas, principalmente do exterior, inovaram ao criar produtos em fibras sintéticas que são visualmente semelhantes aos naturais. No Brasil, estão no mercado tecidos em poliéster, com custo 30% inferior aos de lã com viscose.

De uso ainda incipiente na hotelaria brasileira são os tecidos com íons de prata, desenvolvidos por empresa e universidades – brasileira e do exterior –, utilizados em toalhas de mesa e roupas de garçons. Nos ensaios, eliminou 99,9% da quantidade de SARS-CoV-2 em apenas dois minutos. O cobre, por outro lado, apesar de seu poder de inativar o vírus, ainda tem preço muito elevado. “Revestir o balcão de recepção com cobre custa o preço de um quarto inteiro”, comenta.

A tecnologia da informação evoluiu e veio para ficar na área hoteleira, desde a reserva até o pós-venda, norteada pelo conceito de hospitalidade sob demanda
Eduardo Manzano

“A tecnologia da informação evoluiu e veio para ficar na área hoteleira, desde a reserva até o pós-venda, norteada pelo conceito de hospitalidade sob demanda”, destaca. Os softwares disponíveis permitem ao hotel conhecer detalhes do perfil do hóspede e oferecer suporte individualizado, benefícios e agrados. Outra tendência que deve se expandir é a de hotéis híbridos, com várias categorias dentro do mesmo empreendimento. “Há um excelente case, a startup de hospitalidade Selina. É um mix de hostel e seus beliches, com hotel boutique de belas suítes. Tem excelente design em todos os ambientes, incluindo cinema, biblioteca, cafeteria, coworking, e sempre contando a história do entorno, seja em São Paulo, no Rio ou nos outros seis países onde está presente”, finaliza.

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Colaboração técnica

Eduardo Manzano
Eduardo Manzano – Possui graduação em Arquitetura e Urbanismo pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo (1986). Tem mais de 30 anos de experiência em projetos de hospitalidade, corporativos e planejamento urbano. Foi diretor de escritórios internacionais de arquitetura, como VOA Associates e Perkins+Will, tendo participado de mais de 70 projetos de hotéis no país. É professor especialista do Instituto Europeo di Design e professor convidado da Universidade Roberto Miranda e de Gestão e Marketing para Arquitetos na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). É fundador e diretor de Design do EMDAStudio.