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Arquitetura interativa dá nova função aos projetos: a de se comunicar

Com sensores e luzes os edifícios conversam com a cidade. Saiba como

Publicado em: 12/03/2015

Texto: Redação AECweb/e-Construmarket

Arquitetos e designers têm passeado por um novo estilo de arquitetura que reflete a evolução da sociedade e da maneira como nos relacionamos com os espaços urbanos. Tratam-se de projetos que vão além de suas funções estéticas ou essenciais – como servir de habitat. Eles se comunicam com o público e interagem com aqueles que os habitam ou os frequentam. É o que está se chamando de Arquitetura Interativa.

A Arquitetura Interativa é aquela que dialoga com o usuário e pode ser feita com ou sem o uso da tecnologia
Marcelo Bicudo

E ela veio para ficar. “A Arquitetura Interativa é aquela que dialoga com o usuário e pode ser feita com ou sem o uso da tecnologia”, conceitua Marcelo Bicudo, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da Universidade de São Paulo (USP) há mais de dez anos, que transita entre as disciplinas de Design de Cidades e Design de Edifícios.

De acordo com o professor, os projetos, tradicionalmente, são muito galgados por uma questão autoral. “Até pouco tempo o arquiteto projetava determinado espaço com uma função específica. Hoje, estamos caminhando para uma era em que o usuário busca se apropriar daquele espaço e construí-lo junto com seu autor”, explica. Um exemplo dessa interação homem-arquitetura sem a utilização da tecnologia é o projeto pós-modernista de 1977, do Museu Georges Pompidou, em Paris, na França. “A arquitetura já estava pronta e as pessoas começaram a se apropriar daquele espaço, a interagir com ele, sentar-se ali na frente para tomar um café, por exemplo. E seu pátio tornou-se um ponto de encontro. Foi um uso que o arquiteto não previu. Nossa sociedade tem esta necessidade de fazer parte dos espaços públicos”, explica.

No final da década de 80, o arquiteto francês Jean Nouvel utilizou um brise que se autorregula, abrindo e fechando de acordo com a intensidade do sol na fachada do Instituto do Mundo Árabe, também em Paris. “O edifício está respondendo a um estímulo e está se manifestando. É uma tendência que vem sendo experimentada por arquitetos mundo afora há uns 50 anos”, diz o arquiteto Guto Requena, graduado pela USP e que foi pesquisador do Nomads (Núcleo de Estudos de Habitares Interativos) de 2000 a 2008.


INTERATIVIDADE TECNOLÓGICA

Até pouco tempo o arquiteto projetava determinado espaço com uma função específica. Hoje, estamos caminhando para uma era em que o usuário busca se apropriar daquele espaço e construí-lo junto com seu autor
Marcelo Bicudo

A tecnologia só facilitou e acelerou o processo de interação. Hoje, os edifícios deixam de ser apenas reativos e trazem conteúdo informativo em suas manifestações. “A arquitetura tem que refletir o momento que a gente vive, que é voltado para a comunicação e relacionamento com tecnologias. E existem diversas maneiras de fazer uma arquitetura interativa. Por exemplo: a pessoa está andando, um sensor detecta sua presença e solta um cheiro ou acende uma luz”, explica o arquiteto Guto Requena. “Não se trata apenas da utilização compulsiva de luzes de Led em fachadas com mero objetivo estético. Trata-se da vocação da arquitetura em estimular sentidos e dialogar com o meio”, completa.

Alguns projetos conseguem, por exemplo, reagir a um barulho externo ou à qualidade do ar, são sensíveis ao toque e ao movimento. E, indo além, alguns ainda conseguem ‘se manifestar’ dependendo do comando que recebem de um usuário por meio de aplicativos de celular.

WZ HOTEL - PROJETO PIONEIRO

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Fachada interativa WZ Hotel
Foto/Imagem: Ayla Hibri

No Brasil, o arquiteto Guto Requena foi um dos pioneiros ao utilizar a tecnologia em favor da interatividade arquitetônica. Em seu projeto de retrofit para o WZ Hotel, na Avenida Rebouças em São Paulo, placas luminosas na fachada dão vida e cores ao concreto da cidade cinza, em resposta a estímulos externos. A qualidade do ar dá o tom das cores. Vermelho quente demonstrando que o prédio está com raiva quando a qualidade não está das melhores. A intensidade dos sons da rua dita se as luzes se movimentarão mais ou menos freneticamente. E os pedestres também podem participar da intervenção por meio do aplicativo gratuito WZ Hotel LUZ (disponível nos sistemas Android e iOS), e através de um comando, suas mensagens são transmitidas pelo prédio em tempo real. “Esse edifício não fica mudando de cor apenas por estética, ele responde a um estímulo e informa. As pessoas aprendem mais sobre seu comportamento olhando para o prédio”, diz o arquiteto.

INFORMAÇÃO EM TEMPO REAL

Não se trata apenas da utilização compulsiva de luzes de Led em fachadas com mero objetivo estético. Trata-se da vocação da arquitetura em estimular sentidos e dialogar com o meio
Guto Requena

O projeto de revitalização da área da Estação da Luz, de autoria do professor e arquiteto Marcelo Bicudo, transformou os pontos de ônibus em verdadeiras obras interativas. “Alguns totens interativos traziam informações do que estava acontecendo nas adjacências. Se um ônibus estava atrasado, por exemplo, havia informação de cafés nas redondezas para onde o usuário pudesse ir enquanto esperava. Em outros tinha informações de exposições de museus próximos”, lembra ele. “Você traz uma informação e interação com o usuário e ele pode querer se relacionar com aquilo. Transforma o espaço comum em uma obra de arte. Isso vira entretenimento. Modifica a relação do usuário com o espaço”, completa.

NOVA ARQUITETURA

Esse edifício não fica mudando de cor apenas por estética, ele responde a um estímulo e informa. As pessoas aprendem mais sobre seu comportamento olhando para o prédio
Guto Requena

De acordo com os especialistas este novo olhar para os projetos mudará a maneira como se faz arquitetura hoje. “A tecnologia está implícita em diversas disciplinas e isso muda a nossa rotina e a nossa maneira de ver a vida. Não tem mais volta. A arquitetura será cada vez mais híbrida e misturada com as tecnologias. Não vamos mais pensar em concreto apenas”, diz o arquiteto Guto Requena.

Segundo Marcelo Bicudo, a tecnologia deve mudar a própria concepção dos projetos. “Você passa até a utilizar softwares diferentes para projetar, passa a ter que planejar espaços do ponto de vista de infraestrutura e interação. Muda a concepção. As escolas vão ter que se preparar também para isso”, diz o professor e arquiteto.

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Guto Requena – O Estudio Guto Requena procura refletir sobre cibercultura e narrativas poéticas digitais no design. Sua prática abrange diferentes escalas - objetos, interiores, edifícios e cidades. O estúdio investiga o impacto das tecnologias numéricas em nosso cotidiano, bem como as suas aplicações em projeto. Valorizamos questões como sustentabilidade, identidade, memória, interação, realidades híbridas, flexibilidade e design da experiência. Nosso trabalho busca uma brasilidade contemporânea e original e nossos projetos partem de uma metodologia de criação associada à prática de pesquisa, de modo que nosso objetivo é o processo em si e não apenas o resultado final. Hoje contam com três eixos principais: Teoria, Projeto e Midia.