Bairros adensados podem ter mais empresas e serviço público

Para que isso aconteça, algumas iniciativas são cruciais como boa gestão em sustentabilidade urbana, incentivos fiscais e projeto integrado de mobilidade urbana

Publicado em: 22/01/2013Atualizado em: 02/09/2019

Texto: Redação AECweb/e-Construmarket

Redação AECweb / e-Construmarket

A densidade populacional começa a ser vista como oportunidade de negócios em São Paulo, o que pode resultar na criação de comunidades sustentáveis e agradáveis de se viver. Existem muitas teorias sobre a necessidade de adensar mais a cidade, ocupando regiões vazias ou com galpões e cortiços, como algumas áreas na extensão da linha férrea que atravessa a cidade de São Paulo. Para Alex Abiko, professor de Gestão Urbana e Habitacional da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (POLI-USP), a necessidade de serem criadas novas centralidades é óbvia, mas não existem instrumentos para torná-la concreta. “Não conheço projetos nesse sentido”, afirma.

Na opinião de Abiko, o poder público sempre fiscalizou a ação da iniciativa privada, mas sem fazer o papel de indutor, promovendo ações para a geração de empregos em bairros e áreas com maior densidade populacional, como a zona leste e a região da Luz. “Quais são os incentivos do poder público para que as empresas construam suas unidades em áreas de interesse da prefeitura, visando a criação de novas centralidades urbanas e melhorando a qualidade de vida da população?”, questiona.

Incentivo ou infraestrutura

Para o professor, uma das maneiras de estimular a implantação de empresas em bairros adensados é a isenção do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU). Medida nesse sentido pode levar empresas a investirem em determinadas regiões, pois influencia nos valores de mercado dessas áreas. Outra ação importante é a implantação de infraestrutura básica. “O poder público pode ser indutor do desenvolvimento com ações de sustentabilidade urbana, instalando novas escolas, urbanizando favelas, criando condições de mobilidade, levando serviços de saúde, rede de água, luz e transporte coletivo. Essas ações podem criar novas centralidades, transformando os bairros em comunidades agradáveis de se viver”, afirma.

Entretanto, Alex Abiko afirma que é preciso estudar as condições técnicas antes da implantação dos projetos e que a universidade está disponível para ajudar, caso seja de interesse do poder público abrir o diálogo. Ele comenta que o governo federal construiu muitas faculdades pelo país nos últimos anos, mas que tem sido criticado pela falta de qualidade do corpo docente. “Uma coisa é construir prédios, outra é colocar professores de qualidade”, opina.

AnÁlise criteriosa

Em relação às ações que começam a ser anunciadas para a capital paulista, ele orienta que primeiro é preciso identificar problemas para saber, por exemplo, se os Centros Educacionais Unificados (CEUs) da prefeitura estão funcionando direito, verificar se as piscinas continuam aquecidas e se as escolas mantêm bons professores. E defende que a prefeitura avalie primeiro a qualidade de seus serviços para a população, visando, se possível, melhorar o que já existe, e só depois fazer novos investimentos, com objetivo de manter o mesmo padrão. “Não adianta construir outros CEUs se não houver serviços de qualidade”, diz.

Prioridades

Para o poder público realizar uma boa gestão em sustentabilidade urbana, precisa contar com o apoio de pessoal especializado em áreas de risco, mobilidade urbana e prevenção de enchentes. Segundo Abiko, as áreas de risco devem ser vistas como prioridade zero, pois envolvem vidas humanas. Ele lembra que o Instituto de Pesquisas tecnológicas (IPT) tem estudos que apresentam as áreas e categoriais de risco.

Com o mapeamento do IPT é possível saber o tipo de ação mais adequada para cada local e tratar do problema antes que as tragédias aconteçam. O professor lembra que os problemas se repetem nas mesmas áreas. Nesses locais poderiam ser implantadas soluções, ou, conforme orientação técnica, feita a remoção das famílias. “O ideal é que não houvesse ocupação nas áreas de risco, mas não sei se em todos os casos a melhor opção seria desalojar as famílias”, afirma e cita que a ocupação desordenada por favelas na periferia de Campos do Jordão, interior de São Paulo, é ‘um crime’.

IntegraÇÃo

O professor Abiko critica a inexistência de um projeto integrado de mobilidade urbana. Lembra que, apesar dos incentivos para que a população use o transporte coletivo, o que se vê é cada vez mais pessoas usando carros. Isso, apesar dos projetos de ampliação do metrô e corredores de ônibus. As ciclovias, diz, viraram moda, mas não atendem às necessidades dos usuários, o que resulta em grande número de bicicletas nas ruas competindo com os veículos, colocando vidas em risco. “Está faltando um projeto integrado para São Paulo envolvendo bicicletas, taxis, ônibus, carros e trens urbanos. Acredito que, se houver a geração de empregos nos bairros, criando novas centralidades, a população precisará menos dos meios de transporte. Será um luxo poder ir trabalhar e estudar a pé”, afirma ao comentar que é preciso cuidado especial para esta questão, com planejamento de médio e longo prazos.

Enchentes

O combate às inundações é outra ação fundamental na cidade de São Paulo quando se pensa em sustentabilidade urbana. Ele afirma que o poder público só se preocupa com as enchentes em época de chuvas. “Estamos vivendo um problema sério de drenagem urbana que precisa ser contemplado com uma solução de médio e longo prazo, que vai além da desobstrução de córregos e bueiros”, afirma ao explicar que este é um problema que envolve as bacias hidrográficas existentes na região metropolitana. “O combate às enchentes exige gestão integrada entre os vários prefeitos das cidades servidas por uma mesma bacia hidrográfica. As enchentes provocam tragédias e representam sérios riscos à saúde da população”, conclui.


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Alex Abiko – É engenheiro civil, professor titular em Gestão Urbana e Habitacional da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (POLI-USP) e coordenador do Grupo de Ensino e Pesquisa "Engenharia e Planejamento Urbanos" do Departamento de Engenharia de Construção Civil da Escola Politécnica. Tem desenvolvido pesquisas, se envolvido em consultorias e orientado alunos de mestrado e doutorado, além de possuir publicações em livros e periódicos particularmente em sustentabilidade urbana, gestão habitacional, ofertas em habitação e urbanização de favelas. http://alexabiko.pcc.usp.br