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Barreiras acústicas reduzem ruídos em regiões vizinhas a vias de fluxo intenso

Solução possui projeto complexo, que considera além das variáveis acústicas, questões arquitetônicas, ambientais e até sociais

Publicado em: 06/03/2014Atualizado em: 17/09/2015

Texto: Redação AECweb/e-Construmarket

Barreira Acústica

As barreiras acústicas são um recurso ainda pouco explorado no Brasil, mas bastante empregado em países da Europa, nos Estados Unidos e no Japão com o objetivo de diminuir os impactos da poluição sonora em regiões urbanas próximas a rodovias ou ferrovias. O sistema, erguido entre a via de tráfego e as edificações vizinhas, atua como um obstáculo físico que contribui para reduzir os ruídos que chegam ao receptor. Sua implementação encontra justificativa na necessidade de proteger os moradores dessas áreas dos efeitos danosos da exposição ao barulho excessivo.

Do ponto de vista acústico, a barreira funciona geralmente como elemento isolante. “Porém, em algumas condições deve ter também propriedades de absorção, para minimizar a reflexão das ondas sonoras que incidem sobre ela. Por exemplo, em situações em que ela está instalada muito próxima à via é praticamente obrigatório que a barreira seja também absorvente. Mas é o projeto que vai dar as características”, pontua o engenheiro Marco Juliani, diretor-técnico da IEME Brasil.

Do ponto de vista acústico, a barreira funciona geralmente como elemento isolante. Porém, em algumas condições deve ter também propriedades de absorção, para minimizar a reflexão das ondas sonoras que incidem sobre ela. Por exemplo, em situações em que ela está instalada muito próxima à via é praticamente obrigatório que a barreira seja também absorvente. Mas é o projeto que vai dar as características
Marco Juliani

A fase de projeto é crítica na definição do desempenho da barreira. Segundo o engenheiro Juan Frias, consultor-técnico da Associação Brasileira para a Qualidade Acústica (ProAcústica) e sócio-diretor da Bracústica, em função de fenômenos como a difração, responsável pela propagação do ruído sobre a proteção e em suas laterais, o uso da solução apresenta algumas limitações. “Um caso típico é o de edificações de grande altura, próximas a uma rodovia, no qual a zona de sombra da barreira (área onde ela produz atenuação acústica) acaba não protegendo mais que os primeiros pavimentos. Regra prática utilizada pelos profissionais indica que, se desde o receptor é possível enxergar a fonte de ruído, uma vez implantada a barreira os benefícios serão inexistentes”, diz Juan. O especialista afirma que, em condições ideais, a atenuação proporcionada pela barreira geralmente fica na casa dos 15 decibéis. Para ampliar o conforto acústico em regiões mais críticas, pode ser recomendado o fechamento superior, com a formação de um túnel acústico, o que nem sempre é possível dado o alto custo envolvido numa intervenção desse tipo.

DIMENSIONAMENTO

A eficiência da barreira é determinada por fatores como altura, comprimento, posição em relação ao emissor de ruído e o receptor, além das características de transmissão sonora da proteção. Precedem o dimensionamento diagnósticos sobre as condições locais. Duas situações de projeto são comuns, afirma Marco Juliani, da IEME. A primeira na qual o objetivo é atenuar o barulho em áreas lindeiras a vias de tráfego já existentes. O trabalho nesse caso envolve medições para aferir o fluxo de veículos e os níveis sonoros em diferentes momentos do dia. Já a segunda ocorre quando projeto antecede a implantação da infraestrutura de transporte. A simulação, então, irá partir de dados experimentais, por exemplo, de medições realizadas em regiões que apresentam condições semelhantes.

Um caso típico é o de edificações de grande altura, próximas a uma rodovia, no qual a zona de sombra da barreira (área onde ela produz atenuação acústica) acaba não protegendo mais que os primeiros pavimentos. Regra prática utilizada pelos profissionais indica que, se desde o receptor é possível enxergar a fonte de ruído, uma vez implantada a barreira os benefícios serão inexistentes
Juan Frias

“Utilizando os elementos da topografia local, a distância das edificações da fonte de ruídos, partimos para o cálculo da barreira, definindo sua altura, o material, a massa necessária para funcionar como isolante acústico, e ainda avaliando se é necessário que ela tenha propriedades absorventes. Há hoje vários softwares que nos ajudam nessas definições”, detalha o especialista da IEME. Em ambas as situações, a etapa seguinte é a do dimensionamento estrutural da solução, quando serão considerados os esforços do próprio peso, a resistência ao vento, as fundações.

Não somente variáveis acústicas são consideradas no projeto. Por ser uma solução complexa, com interferências relevantes na paisagem, as características da barreira devem ser definidas também levando-se em conta fatores urbanísticos, ambientais e até sociais. O problema, comenta Juliani, é que por vezes a solução é implantada apenas para atender determinações judiciais, e questões sobre o impacto na vizinhança acabam sendo ignoradas pelos operadores da via. Mas, acredita, à medida que a utilização das barreiras se torne comum no Brasil, a integração destas com o entorno passará a ser mais valorizada.

Juan Frias acrescenta que as opiniões e preferências da comunidade devem ser sempre captadas pelo projeto. "Pela minha experiência, o maior desafio de uma barreira é conseguir, após a instalação, uma opinião favorável da vizinhança, não só do ponto de vista acústico, senão de forma global, e isso inclui o condicionante estético e integrador na paisagem". Há também que se considerar no dimensionamento da solução, elenca o especialista, questões como segurança do trânsito, acessos e saídas, interfaces com outros elementos da via, reflexos de luz sobre os motoristas, e monotonia do padrão do anteparo.

TIPOLOGIAS

No Brasil os materiais comumente aplicados na construção de barreiras acústicas são chapas metálicas e painéis em concreto. Com menor frequência, aparecem proteções em policarbonatos e vidros. Madeiras e elementos naturais, como plantas e arbustos, são opções bastante utilizadas em países onde a solução é mais disseminada. A ABNT NBR 14.313(Barreiras Acústicas para Vias de Tráfego: Características Construtivas) traz os principais requisitos técnicos do projeto acústico e estrutural dos anteparos, bem como exigências relativas aos materiais geralmente empregados em sua confecção.

  • Concreto “A propriedade isolante é dada em função da massa”, explica Marco Juliani. Daí, as placas de concreto serem opção para a constituição dos anteparos. O material, observa Juan Frias, tem ainda vantagens relacionadas à resistência estrutural, durabilidade, baixa manutenção e custo moderado. "Se forem necessárias propriedades absorventes, a barreira poderá ser composta por uma camada de concreto armado e outra de concreto poroso", exemplifica.
  • Metálicas As chapas podem ser perfuradas em uma das faces e recheadas com lã de rocha ou lã de vidro, aliando, assim, propriedades isolantes e de absorção. "É muito usada em ferrovias para absorver as reflexões produzidas no corpo do trem ou nas saídas e entradas de túneis", diz o profissional da Brascústica. Apesar de versáteis, exigem manutenção constante para evitar a deterioração precoce.
  • Vidro A norma da ABNT determina que só devem ser utilizados vidros de segurança. Orienta ainda sobre o perigo do anteparo transparente para os pássaros e as possíveis reflexões de luz que podem prejudicar motoristas.
  • Policarbonato Assim como o vidro é ótimo isolante e apresenta a vantagem de permitir uma melhor integração com a paisagem. "O único senão é o alto custo. Dependendo da região onde é instalada a barreira, questões relacionadas ao vandalismo deverão ser levadas em conta", afirma Juliani, da IEME Brasil.
  • Madeira Deve ser, segundo a NBR 14313, resistente a pragas orgânicas, umidade e altas temperaturas. "As barreiras de madeira são muito adequadas para áreas rurais preservadas, onde não é necessário atingir grandes alturas", diz Juan Frias. A possibilidade de uso de materiais recicláveis resulta em atributos ligados à sustentabilidade.
  • Barreiras naturais Se integram bem com a paisagem e podem ser combinadas com barreiras artificiais. "Colocar vegetação ocultando a visão de uma rodovia pode produzir um efeito subjetivo de melhora", comenta Juan. "Porém em termos de níveis sonoros a redução é mínima. Para conseguir uma redução de 2 decibéis precisamos de, aproximadamente, 50 metros de vegetação densa, o que não constitui uma alternativa viável na maioria dos casos".

 

É bom saber

Além da ABNT NBR 14313, é fonte de consulta para a elaboração e contratação de projetos de barreiras a NBR 10.151 (Acústica - Avaliação do ruído em áreas habitadas, visando o conforto da comunidade - Procedimento).

Colaboraram para esta matéria

Juan Frias – Engenheiro de acústica pela Universidade Politécnica de Madri (Espanha) é atualmente consultor-técnico da Associação Brasileira para a Qualidade Acústica (ProAcústica) e sócio-diretor da empresa Bracústica. Foi gerente da Associação Espanhola para a Qualidade Acústica – AECOR entre 2006 e 2011, quando colaborou na redação do DB-HR (Documento Básico de Habitabilidade - Ruído) do Código Técnico da Edificação (norma de desempenho espanhola). Ainda durante essa etapa foi Coordenador do Comitê Técnico de Normalização 74 de Acústica de AENOR e membro do CTN 196 de Edificação Sustentável, e participou do Projeto Cost de Harmonização de Critérios Acústicos na Edificação Europeia. Coordena publicações especializadas como a Guia de Acústica em Instalações Prediais e o Guia de Retrofit Acústico de Edifícios.
Marco Juliani – Engenheiro civil graduado pela Escola de Engenharia de USP São Carlos e Doutor pela Escola Politécnica da USP. É diretor-técnico da IEME Brasil, empresa especializada em avaliação dinâmica de estruturas, como estádios esportivos, pontes e estações de trem e metrô, e elaboração de estudos e projetos de sistemas amortecedores para evitar vibrações e ruídos.