Bienal de Arquitetura destaca urbanismo sustentável

Em sua décima edição, a Bienal Internacional de Arquitetura teve conceito de plataforma política, de discussão e de reinserção da arquitetura na sociedade

Publicado em: 20/12/2013Atualizado em: 11/10/2019

Texto: Redação AECweb/e-Construmarket

Projetos Esportivos

O caráter da X Bienal Internacional de Arquitetura, demonstra os objetivos do IAB –SP - Instituto de Arquitetos do Brasil. “A ideia era mudar e redesenhar a Bienal de Arquitetura. No nosso entendimento, a arquitetura deveria se abrir para a sociedade, ser percebida como um instrumento de qualidade de vida para as pessoas. Imprimimos à Bienal o conceito de plataforma política, de discussão e de reinserção da arquitetura na sociedade, atendendo às suas reais demandas”, diz José Armênio, presidente do IAB-SP.

Para ter esse caráter, de acordo com Armênio, era preciso formar uma curadoria forte e totalmente livre. “Por isso convidamos Guilherme Wisnik, crítico de arquitetura e bastante alinhado com nosso pensamento. Para a curadoria adjunta foram convidadas Ligia Nobre e Ana Luiza Nobre, que conseguiram dar formato ao que buscávamos”. É interessante observar que a rede de parcerias da Bienal não é só física na cidade. “São parcerias institucionais com o governo do estado, prefeitura, SESC, USP, entre outros, que configuram também uma nova postura do IAB diante de todas essas instituições”, afirma o presidente.

Urbanismo sustentável

No nosso entendimento, a arquitetura deveria se abrir para a sociedade, ser percebida como um instrumento de qualidade de vida para as pessoas. Imprimimos à Bienal o conceito de plataforma política, de discussão e de reinserção da arquitetura na sociedade, atendendo às suas reais demandas

Além de reduzir a distância entre a discussão exposta na mostra e a vivência real, o uso da cidade pela Bienal fez surgir outra cidade, do transporte público. “O tema, muito bem colocado pelo curador, ‘Cidade: Modos de Fazer, Modos de Usar’, explora essa dialética de que o uso faz a outra cidade. Apesar de sermos os técnicos e pensarmos na forma de fazer a cidade, cada cidadão na hora que pega o seu carro ou o metrô, por exemplo, também a está construindo”, comenta o presidente do IAB-SP.

Seja do ponto de vista econômico, social ou ambiental, a sustentabilidade urbana diz respeito às formas de fazer e usar a cidade. “Por exemplo, o número de veículos individuais em São Paulo é insustentável. O desenvolvimento urbano baseado no veículo individual é insustentável. A única saída que São Paulo tem é o transporte público, seja ele o metrô, o ônibus ou o táxi. E a mobilidade não é somente o veículo, é preciso pensar em onde as pessoas estão morando, se é perto ou longe do trabalho e em como é a cidade que nós estamos buscando”, afirma.

A defesa do IAB-SP do papel da arquitetura ganhou aliados de peso. Entre eles, o arquiteto italiano Mario Cucinella, diretor da PLEA - Passive and Low Energy Architecture – palestrante da Bienal de Arquitetura, que afirmou ao portal AECweb: “Pratico a arquitetura para dar dignidade às pessoas. Essa é a razão do meu trabalho”. Para ele, São Paulo é uma cidade grande. E, assim como na China, tudo é muito rápido. “É preciso tomar cuidado. Há um momento em que precisamos lidar com o impacto social das construções, e como as pessoas conviverão com isso no futuro, se serão felizes ou não. E como fazer tudo de forma integrada nas ruas, praças, bairros, que são os elementos da vida social. Esta é a única forma de fazer arquitetura. Não há outra”, afirmou.

Concurso

Segundo José Armênio, existem algumas ações, como as diretrizes do novo Plano Diretor encaminhado pelo Poder Executivo da capital paulista à Câmara dos Vereadores, que priorizam o transporte público. “Nós lançamos na Bienal, em parceria com a prefeitura, um concurso chamado ‘Ensaios Urbanos’. Ele vai abordar justamente como essas diretrizes, colocadas no Plano Diretor, vão se consolidar. É um concurso inédito no Brasil porque ele vai desenhar novas formas para São Paulo segundo o viés do transporte público, de edifícios de uso misto e, principalmente, de uma cidade que segregue menos, com pessoas de diferentes rendas morando perto”, explica.

Todas essas questões foram abordadas na Bienal. “Tivemos uma exposição que mostrava o impacto do carro no desenvolvimento urbano. Outra que indagava sobre qual desenho a legislação urbana induz. A densidade também foi um assunto em voga, particularizada no edifício Copam, exemplo de densidade populacional de moradia”, exemplifica Armênio. E conclui: “A pauta da Bienal é o que nós arquitetos entendemos como prioridade e, de fato, o que é preciso enfrentar agora para não ficarmos falando sozinhos”.

Receptividade

O número de veículos individuais em São Paulo é insustentável. O desenvolvimento urbano baseado no veículo individual é insustentável. A única saída que São Paulo tem é o transporte público, seja ele o metrô, o ônibus ou o táxi. E a mobilidade não é somente o veículo, é preciso pensar em onde as pessoas estão morando, se é perto ou longe do trabalho e em como é a cidade que nós estamos buscando

“A nossa hipótese de que a X Bienal seria uma abertura da arquitetura para a sociedade, de fato funcionou. A maior prova do seu sucesso foi que com os recursos alcançados, conseguimos fazê-la e ela se pagou”, comemora o presidente. Ele conta que todos os eventos, tantos os técnicos quanto os voltados para a população, chegaram ao limite de audiência. “Na abertura da exposição tínhamos cerca de 1.500 pessoas. Não fechamos, ainda, os números, mas a administração do evento já confirmou a participação de centenas de milhares de pessoas. O que já é uma vitória. Foi um acerto dos curadores abrir a arquitetura para a sociedade. Começamos a organizar a X Bienal em 2012 e, em junho de 2013, milhares de pessoas já comentavam o que nós falávamos”.

A sociedade respondeu de forma afirmativa aos temas discutidos na exposição, diz o arquiteto. “Acho que a arquitetura no Brasil, hoje, andou um pouquinho no sentido de se aproximar da realidade das pessoas, deixando de ser somente um instrumento do arquiteto e passando a ser um instrumento de qualidade da vida das pessoas”.

Internacionalmente, a repercussão do evento também foi um grande sucesso. “Tivemos representações institucionais de Portugal, Holanda, Estados Unidos, Espanha, entre outros, e a presença de coletivos da Índia e Rússia. “Houve uma intervenção urbana, no Centro Cultural Tiradentes, com jovens estrangeiros formando uma passarela, que foi sensacional”, comenta Armênio. E acrescenta: “A X Bienal abriu um novo caminho onde a arquitetura não deve ficar nessa experiência corporativa e autorreferente, ela tem que falar com a população, com a sociedade, caso contrário, todo o investimento público fica sem uso”.

Colaborou para esta matéria

José Armênio de Brito Cruz – Graduado em Arquitetura e Urbanismo (1978 a 1982), Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP), Presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil – Departamento de São Paulo (IABsp) e Vice-Presidente Extraordinário do Instituto de Arquitetos do Brasil – Direção Nacional (IABdn), sócio do Escritório Piratininga Arquitetos Associados.