Cal certificada garante qualidade da obra

Mas é preciso atenção, pois existem produtos que estão fora das normas por deficiência no processo de produção, e outros que são deliberadamente adulterados

Publicado em: 18/05/2012Atualizado em: 10/03/2021

Texto: Redação AECweb



Redação AECweb / e -Construmarket

A escolha inadequada dos materiais que serão utilizados em uma construção pode comprometer a qualidade da obra. Por isso, o setor construtivo está sempre atento às especificações técnicas dos produtos, com o objetivo de verificar se atendem às exigências das normas estabelecidas pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). No caso da cal hidratada para o preparo de argamassas, a Associação Brasileira de Produtores de Cal (ABPC) informa que as especificações a serem seguidas são os requisitos químicos e físicos definidos na norma ABNT NBR-7175.

O Secretário executivo da ABPC, Mauro Seabra, afirma que só a cal hidratada que atende às exigências da norma pode garantir as propriedades que o produto confere às argamassas, tanto no estado fresco quanto no endurecido. Ele explica que no primeiro, a cal hidratada proporciona ótima plasticidade à argamassa, refletindo em melhor rendimento ao trabalho do pedreiro. Também garante maior potencial de aderência ao revestimento e grande capacidade de retenção de água, diminuindo o risco de fissuras por retração. A cal é um produto compatível quimicamente com o cimento, acelerando suas reações iniciais de hidratação.

No estado endurecido do revestimento, o poder aglomerante da cal hidratada – sua capacidade de reagir e endurecer na argamassa, característica semelhante à do cimento – contribui com a resistência mecânica, com a aderência e com a resistência à abrasão. Além disso, diz Seabra, a cal reduz o módulo de deformação do revestimento, permitindo maior capacidade de absorção dos movimentos de retração e de expansão comuns nas paredes, diminuindo o risco de danos progressivos e assegurando a durabilidade da obra. “Outra notável propriedade da cal é a sua ação bactericida e fungicida, que atua no combate à formação de manchas e crostas superficiais no revestimento, reduzindo custos de manutenção”, afirma.

Cal certificada garante qualidade da obra

Entretanto, o profissional alerta que existem produtos não conformes por deficiência no processo de produção e outros que são deliberadamente adulterados pela adição de impurezas ao produto final, tais como terra, saibro, argila e uma classe de materiais argilominerais conhecida no mercado como filito. “O consumidor deve estar atento, pois além da cal não conforme, existem produtos que não são cal, mas que tentam se vender como se fossem, usando artifícios para confundir lojistas e consumidores, abusando de marcas que contém indevidamente a expressão ‘cal’ no nome fantasia”, informa. Seabra diz, ainda, que é preciso ter cuidado, pois há registro de produtos em pó, vendidos em sacos à maneira da cal, e até de aditivos líquidos vendidos em frascos oferecidos ao consumidor como ‘cal líquida’, algo que absolutamente não existe. “A cal hidratada só é vendida em pó”, reitera.

A cal não conforme, com adição de impurezas, compromete o poder aglomerante que se espera do produto. O resultado é o risco da deterioração precoce dos revestimentos, esfarelamento do reboco, aparecimento de fissuras, desplacamento, surgimento de fungos e outras patologias que encarecem a manutenção do edifício ao longo de sua vida útil, e criam a necessidade de intervenções para recomposição da obra. Seabra explica que a melhor forma de fugir da cal adulterada e dos produtos que não são cal é consumindo apenas marcas de empresas participantes e qualificadas no Programa Setorial de Qualidade (PSQ) do Programa Brasileiro de Qualidade e Produtividade no Habitat (PBQP-H). As listas de produtores de cal que atendem às especificações (conformes) e o que não atendem (não conformes) são oficialmente divulgadas no site do Ministério das Cidades, em http://www.cidades.gov.br/pbqp-h/projetos_simac_psqs.php .

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Para facilitar o acesso dos interessados e ampliar a divulgação, a ABPC edita um informativo que reproduz as listas de qualificação do PBQP-H, o ‘Infocal’, destinado às revendas e aos consumidores em geral. O Infocal identifica as marcas dos produtos fabricados pelas empresas associadas à entidade, que levam na embalagem o Selo ABPC de Garantia de Qualidade.


Cal certificada garante qualidade da obra


A ABPC possui dez produtores associados que respondem por quase 50% (em volume) da produção nacional de cal hidratada para Construção Civil. Por meio do Programa Setorial da Qualidade da Cal, ligado ao PBQP-H, a entidade monitora a qualidade de mais de 60 marcas comerciais de cal hidratada oferecidas de Norte a Sul do País, seja de empresas participantes ou não participantes do PSQ, correspondendo (em volume) a, aproximadamente, 85% da produção nacional.

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Os maiores produtores estão localizados em São Paulo, Minas Gerais e Paraná. O secretário executivo da ABPC informa que participam do PSQ 12 empresas, com 14 fábricas implantadas em São Paulo, Paraná, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Sergipe. “Todos os produtores participantes do PSQ/PBQP-H apresentam 100% de conformidade à norma. Entretanto, entre as demais marcas monitoradas no mercado, fabricadas por empresas não participantes do PBQP-H, a conformidade mal ultrapassa 60% da produção”, alerta.

Todos os associados da ABPC participam do PSQ, pois a adesão do associado PBQP-H é obrigatória. Assim, todos os associados, sem exceção, produzem cal hidratada conforme a norma e, por conta disso, têm autorização para estampar o Selo ABPC de Garantia de Qualidade nas embalagens de seus produtos – uma forma fácil para o consumidor comum identificar o produto de qualidade.

Em 2011, considerando todas as aplicações da cal, seja na Construção Civil ou nos vários processos industriais nos quais o produto é utilizado como insumo básico, o Brasil produziu em torno de 8,5 milhões de toneladas de cal. Desse total, cerca de 2 milhões de toneladas corresponderam ao consumo de Cal Hidratada para uso na Construção Civil, onde o produto é empregado em pinturas à base de cal e, principalmente, no preparo de argamassas de assentamento e revestimento de paredes de alvenaria.

PROCESSO DE PRODUÇÃO

A cal é derivada de um bem mineral, a rocha calcária, formada por carbonatos de cálcio e magnésio combinados. A rocha é extraída em frentes de mineração, moída e levada a fornos industriais a alta temperatura, onde é transformada em cal virgem em uma reação química induzida pela ação do calor. A cal virgem é então levada a hidratadores industriais, onde da reação controlada do produto com a água se obtém a cal hidratada, um fino pó branco, quimicamente estável ao contato com a água, que é vendido nas lojas de materiais de construção. Misturada na argamassa fresca ao cimento, à areia e à água, a cal hidratada tem a propriedade de reagir com o CO2, transformando-se novamente no mesmo carbonato sólido que lhe deu origem.

CAL X SUSTENTABILIDADE 



Mauro Seabra conta que há uma grande preocupação dos produtores com a sustentabilidade. Os cuidados com as boas práticas de gestão e produção vão desde a existência prévia de licenças de operação, a autorização de lavra e direitos minerários regulares, impedindo a exploração descontrolada, ilegal e predatória do bem mineral, até controles presentes em todas as fases do processo, principalmente no tocante à emissão de gases e particulados.

“A responsabilidade sociombiental, porém, vai além disso”, afirma. Ele explica que a ABPC promove um Programa de Responsabilidade Socioambiental, de adesão voluntária, pelo qual são auditadas as empresas associadas com foco em suas práticas de gestão e produção, levando em conta uma postura ética permanente e seu  compromisso, e a preocupação com os trabalhadores, consumidores, com a comunidade e com o meio ambiente. “Por esse programa, dezenas de quesitos ligados aos valores da sustentabilidade são avaliados por auditores independentes, e somente as empresas produtoras de cal  que comprovam o cumprimento das exigências previstas recebem uma certificação específica, representada pela concessão do uso do Selo ABPC de Responsabilidade Socioambiental”, afirma.


Redação AECweb / e -Construmarket



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Foto de Cleber Medeiros


MAURO ADAMO SEABRA 
Engenheiro civil formado pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP) em 1981, e secretário executivo da Associação Brasileira dos Produtores de Cal – ABPC. Na ABPC implementou em 1995 o Programa Setorial da Qualidade da Cal para Construção Civil, iniciativa ligada ao PBQP-H - Programa Brasileiro da Qualidade e Produtividade do Habitat, destinada à qualificação de produtores de cal hidratada com base na avaliação da conformidade de sua linha de produtos voltada à Construção Civil. Foi responsável pela organização e implementação do Programa de Responsabilidade Socioambiental da ABPC, que em 2009 iniciou a certificação de produtores de cal com base na avaliação de suas práticas de gestão e produção, seguindo princípios da sustentabilidade.