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Construção da Casa The.Eng utiliza um mix de sistemas industrializados

Veja detalhes deste projeto, que empregou um mix de sistemas industriais e soluções sustentáveis para criar uma edificação com alto desempenho

Publicado em: 06/05/2024Atualizado em: 16/05/2024

Texto: Hosana Pedroso

(Foto: Divulgação/THE.ENG)

(Foto: Divulgação/THE.ENG)

Inovar no projeto e na construção de sua casa de campo no interior de São Paulo foi um desafio e um aprendizado para os engenheiros Luciana Maciel e Josaphat Baia, titulares da The.Eng, empresa de consultoria em engenharia. As soluções aplicadas ao projeto – assinado pelo arquiteto Julio Medeiros – reuniram a expertise de diversos parceiros da empresa.

“O plano foi aproveitar, ao máximo, sistemas construtivos industrializados, soluções sustentáveis e inovadoras para projetar uma edificação com alto desempenho e conforto térmico, lumínico e acústico, com consumo otimizado e racionalizado de energia e água”, diz Maciel.

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“Os novos sistemas construtivos e materiais foram pensados como um conjunto, e todas as interfaces foram gerenciadas ainda na fase de definição e desenvolvimento do projeto, de maneira a otimizar o uso de recursos e melhorar a execução e o controle dos serviços”, explica Baia.

A rapidez e a precisão na execução dos serviços nas diversas etapas da obra também estavam entre os principais objetivos. Foi fundamental o correto planejamento e sequência de execução das etapas, para proporcionar um fluxo de trabalho contínuo, considerando as diferentes tecnologias e equipes de trabalho, no menor tempo possível.

Para se ter uma ideia, o projeto foi desenvolvido em cinco meses. A construção da casa principal, com 250 m², levou dez meses, desde a movimentação de terra até a última demão de pintura, sendo 12 dias para a instalação da estrutura em madeira engenheirada (MLC) e dez para instalação do telhado.

Os engenheiros buscaram o equilíbrio energético aliado ao conforto térmico, lumínico e acústico. “Esse equilíbrio vem da arquitetura e implantação da casa no terreno de acordo com a zona bioclimática da região e do dimensionamento adequado dos sistemas de energia solar fotovoltaica e de aquecimento solar. E, também, na definição dos materiais, espessuras e camadas do invólucro da casa e na escolha dos sistemas”, acrescenta Maciel.

Outro objetivo foi compatibilizar os sistemas construtivos industrializados com os sistemas tradicionais, para assegurar a qualidade dos serviços executados e evitar a ocorrência de patologias ao longo do uso da edificação. Daí o cuidado com a seleção de sistemas construtivos e materiais em conformidade com as normas técnicas, com o suporte técnico dos fabricantes.

Infográfico

A casa The.Eng e seus sistemas construtivos

O projeto foi implantado num terreno de 2 mil m², em aclive, com a casa principal térrea com 250 m², contendo sala e cozinha integradas, área gourmet, três suítes, escritório e duas grandes varandas que facilitam a integração e a circulação entre os ambientes. Há uma casa de apoio de 50 m² com 2 quartos, um banheiro, depósito e lavanderia. Na área externa, quadra de areia de 10 x 18 m, piscina com 36 m² com deck e jardim de cerca de 1,2 mil m².

Para acomodar toda infraestrutura e edificações, foram projetados e executados cinco platôs. A terraplenagem foi projetada para não haver acréscimo ou retirada de solo.

Fundação

“Optamos pelo sistema de laje radier protendido com cordoalha engraxada para a fundação, que proporciona uma execução mais rápida e com uso de menor volume de aço e de fôrmas. É um radier mais esbelto, com 10 cm de espessura, porém com menor deformação se comparado ao convencional”, diz Baia, lembrando que a tecnologia tem custo um pouco superior, compensado pela economia de concreto e pela rapidez na execução.

Estrutura

Com base nos estudos bioclimáticos realizados e nas soluções construtivas adotadas, a melhor opção para a estrutura da casa principal foi a tecnologia de madeira engenheirada chamada Madeira Laminada Colada (MLC). “Ela foi projetada, fabricada, transportada e montada pela ITA Construtora. Enquanto estávamos executando a fundação, a estrutura estava sendo produzida na fábrica”, conta Baia.

Segundo ele, todas as peças foram montadas por uma equipe especializada de quatro profissionais com auxílio de caminhão com guindaste, usado na descarga e içamento das peças. A instalação dos pilares foi feita por meio de inserts metálicos posicionados durante a execução do radier. As peças tiveram encaixe perfeito, devido ao controle no posicionamento dos inserts, o que ajudou na velocidade e qualidade da montagem.

Estrutura da Casa THE.ENG em construção(Foto: Divulgação/THE.ENG)

A casa principal tem 21 m de comprimento e 8 m de largura, com uma varada em balanço de 5 m na frente e outra na parte de trás com balanço de 2,5 m. Devido aos balanços e aos beirais laterais de 1,20 m, a cobertura da casa principal tem um total de 350 m² com uma única inclinação de 5%.

Para simplificar, economizar tempo na montagem e diminuir o custo da obra, a estrutura em MLC foi segmentada em módulos iguais com sete linhas de dois pilares. “Com dimensões padronizadas que suportam sete vigas responsáveis pelo belo balanço de até 5 m, a estrutura chama a atenção de quem passa na rua e faz a casa parecer flutuar”, comenta Maciel.

Cobertura

A utilização de telhas do tipo sanduíche para cobertura foi uma solução que buscou eficiência no isolamento térmico e acústico e rapidez na construção. O material, fornecido pela Kingspan Isoeste, é composto por duas camadas externas de alumínio que envolvem um núcleo isolante de poliuretano de alta densidade de 50 mm de espessura. O acabamento interno, que imita lambri branco, confere um aspecto estético agradável, dispensando a instalação de forro.

Vedações

As duas paredes laterais da casa principal foram implantadas no sentido leste e oeste, recebendo o sol da manhã e da tarde. “Consideramos a taipa de pilão como a melhor tecnologia para construir essas paredes de 30 cm de espessura, 9,65 m de comprimento e cerca de 3,30 m de altura, que integram o conceito arquitetônico da casa”, comenta Baia.

Luciana Maciel ressalta que a construção com taipa de pilão é uma técnica milenar que continua a ser valorizada por suas qualidades sustentáveis e estéticas. “A escolha de utilizar a terra do próprio terreno advinda da escavação da piscina não só reduz o impacto ambiental, mas também cria uma conexão única entre a casa e o local”.

Parede de taipa da Casa THE.ENG(Foto: Divulgação/THE.ENG)

As propriedades térmicas da taipa de pilão contribuem significativamente para o conforto térmico interno da edificação, regulando a temperatura ao longo do dia e das estações.

O segredo para assegurar a durabilidade e a resistência das paredes de taipa de pilão consiste na correta proporção e mistura dos materiais, ótimo intertravamento das fôrmas de madeira, compactação adequada das camadas e o processo de cura da parede pronta que leva cerca de 30 dias.

“Esse método construtivo, embora artesanal, é um testemunho da sabedoria construtiva tradicional que se adapta bem às necessidades contemporâneas de construção sustentável”, observa ela.

As paredes internas da casa são em gesso acartonado. O projeto especificou o uso de chapas de gesso mais densas, com melhor capacidade de fixação de cargas e alto desempenho acústico, e o uso de bandas acústicas nas interfaces da parede com o piso, pilares e vigas de madeira.

Esquadrias

As fachadas norte e sul foram projetadas praticamente em vidro com esquadrias de alumínio na linha minimalista e algumas paredes em alvenaria, sempre deixando a estrutura de madeira aparente em destaque.

O modelo da esquadria de alumínio foi definido com base no isolamento acústico e estanqueidade à água e ao ar. O vidro é duplo laminado com duas camadas de 4 mm e índices elevados de proteção solar, proteção UV e isolamento térmico, que permite economia de energia. “Essa solução foi crucial no desempenho de isolamento térmico que a edificação obteve nas simulações computacionais”, diz Baia.

As portas internas e da entrada principal são de madeira e do tipo kit porta pronta, da Pormade, sistema que permite uma instalação rápida e fácil e uma significativa redução de custos com mão de obra e materiais, pois um único profissional pode instalar várias portas em um único dia.

Sistemas hidráulicos, elétricos e ar-condicionado

Todo o sistema hidráulico de água quente e fria e de gás foi projetado e executado com a tecnologia PEX. Isso permitiu que parte das tubulações fosse instalada no piso e com ótima sinergia com o sistema de paredes de gesso acartonado.

O sistema de ar-condicionado escolhido é o mini VRF, que tem fluxo de refrigeração variável, utilizando compressores inverter. “Ele ajusta automaticamente a velocidade de funcionamento de acordo com a necessidade de refrigeração de cada ambiente, evitando desperdício de energia elétrica”, ressalta Baia.

Casa THE.ENG em construção(Foto: Divulgação/THE.ENG)

Toda a instalação elétrica e de dados da casa já está preparada para receber sistemas de automação com foco no monitoramento do ar, temperatura, umidade, na operação dos sistemas de iluminação, de tratamento e aquecimento da piscina e de irrigação do jardim.

A casa de apoio se encontra num platô acima, atrás da casa principal. Foi concebida em sistemas construtivos tradicionais, em alvenaria estrutural com bloco cerâmico, estrutura do telhado de madeira roliça de eucalipto tratado e telhas cerâmicas do tipo colonial. “O telhado juntamente com as portas e janelas do mesmo material, fabricadas por um marceneiro local, reforça o desejo de capturar a essência de uma casa de fazenda, criando um contraste com a casa principal que tem um estilo arquitetônico mais atual”, diz Maciel.

Tanto a casa principal, como a casa de apoio e a quadra de areia possuem um sistema de captação da água de chuva que é armazenada em caixas d’água localizadas embaixo do deck da piscina. A água de chuva é bombeada para um sistema de torneiras e serve para irrigação do jardim, contribuindo para a redução do consumo de água potável.

No jardim, a integração do projeto de paisagismo e o sistema de drenagem realça a funcionalidade e a estética de espaços ao ar livre. “Esse método não só protege o solo e a vegetação contra erosão, mas também otimiza o uso da água, redirecionando-a de maneira eficiente com o objetivo de evitar erosão e carreamento de solo e vegetação”, afirma.

Cada sistema, um especialista

“A integração de sistemas construtivos é fundamental para o sucesso de projetos arquitetônicos modernos, especialmente aqueles que buscam eficiência energética e sustentabilidade”, defende Maciel. A coordenação cuidadosa na fase de projeto da casa de campo permitiu uma execução mais rápida e precisa, minimizando atrasos e maximizando a qualidade do trabalho.

Para colocar todas essas tecnologias, soluções inovadoras, industrializadas e sustentáveis foi preciso estruturar uma equipe especializada e multidisciplinar formada por projetistas, consultores, construtora, fabricantes e empresas de prestação de serviço, cada um com domínio de um ou mais sistemas.

Para tudo isso funcionar, a comunicação entre as pessoas e empresas teve que fluir constantemente e no tempo certo. Muitos aspectos foram tratados e resolvidos na etapa de projeto, mas outros tantos foram compreendidos somente na etapa de execução da obra, quando algumas soluções tiveram que ser definidas.

“Foi um aprendizado relacionado à inovação. Boa parte da nossa energia foi gasta na solução das interfaces com o foco no atendimento aos critérios de usabilidade, manutenibilidade e durabilidade, em conjunto com o conforto térmico, lumínico e acústico da casa”, conclui Luciana Maciel.

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Colaboração técnica

Josaphat Baia – É Engenheiro civil, formado pela Escola Politécnica da Universidade de Pernambuco – UPE (1995), com mestrado em Engenharia de Construção Civil e Urbana pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo – USP (1998) e MBA em Gestão Empresarial pelo IBMEC (2008). Atua como consultor em gestão de processos empresariais, em transformação digital, automação de processos e tratamento e visualização de dados, e em sistemas de gestão integrada – Qualidade, Segurança e Meio Ambiente. É auditor líder ISO 9001 pelo IRCA (1999) e ISO 14001 pelo RAC. Autor do livro “Sistemas de Gestão para Empresas de Incorporação Imobiliária”. É diretor na THE.ENG, empresa de consultoria em engenharia, desde 2012.
Luciana Maciel – É Engenheira Civil pela Universidade Federal da Bahia (1994), com mestrado em Engenharia Civil na área de Tecnologia e Gestão da Produção pela Universidade de São Paulo (1997) e doutoranda em Engenharia Civil na área de Tecnologia e Gestão da Produção pela Universidade de São Paulo (início em 2022). Atua como projetista de revestimentos de fachada em argamassa e cerâmica desde 1998 e consultora em sistemas de gestão integrada – Qualidade, Segurança e Meio Ambiente, e em norma de desempenho para edifícios (NBR 15575). Auditora líder ISO 9001 pelo IRCA, ISO 14001 pelo RAC e auditora interna ISO 45001 É autora dos livros “Projeto e Execução de Revestimento de Argamassa” e “Projeto e Execução de Revestimento Cerâmico”. Diretora na THE.ENG, empresa de consultoria em engenharia, desde 2015.