Certificação LEED para prédios existentes

LEED EB O&M garante bom desempenho do edifício através do monitoramento de gastos, resultando em economia e menos agressão ao meio ambiente.

Publicado em: 01/07/2010Atualizado em: 01/04/2021

Texto: Redação AECweb/e-Construmarket

A certificação LEED EB O&M avalia as questões de uso e manutenção dos edifícios (foto: Anton Gvozdikov/shutterstock)

O número de prédios novos construídos sob a égide da sustentabilidade vem crescendo substancialmente no Brasil. Essa nova tendência, que beneficia não só o meio ambiente, como também todos os agentes sociais envolvidos no projeto, parece estar igualmente atraindo o interesse dos prédios já existentes. Privados, a exemplo do McDonalds, ou públicos como a Estação USP Leste da CPTM, cada vez mais buscam se modernizar para reduzir custos de operação e valorizar o imóvel.

Visando certificar a adequação dos prédios existentes aos princípios da sustentabilidade, o USGBC (United States Green Building Council) lançou, em 2009, o LEED EB O&M (Leadership in Energy and Environmental Design - Existing Buildings - Operation and Maintenance), certificação destinada a avaliar as questões de uso e manutenção dos edifícios.

Para obter o LEED EB O&M, os prédios devem atender a pré-requisitos e créditos que geram pontos e os classificam entre os quatro níveis da certificação – certificado, prata, ouro e platina.  “Os pré-requisitos são relacionados a níveis mínimos de eficiência energética, consumo de água, não utilização de CFC nos sistemas de condicionamento de ar e outros. Os créditos premiam medidas como a implantação de comissionamento, coleta seletiva de resíduos, compras sustentáveis e limpeza verde”, explica David Douek, LEED AP e diretor de desenvolvimento da OTEC.

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CRESCIMENTO

Segundo Marcos Casado, diretor técnico do GBC Brasil, o LEED EB O&M é uma das certificações que mais cresce, não só no Brasil, como em todo mundo. “O parque construído supera, e muito, o tamanho do parque em construção. Isso se torna uma vantagem para a certificação EB, que tem um campo vastíssimo para crescer”, explica Casado. Duas das mais importantes consultorias nos processos de obtenção de certificados LEED, a OTEC e o CTE, concordam com Casado. “Embora a certificação EB O&M só tenha entrado em vigor no ano passado, o número de projetos com vistas a obtê-la supera as expectativas”, explica Douek, da OTEC.

Para fomentar ainda mais a busca pelo LEED, o GBC Brasil realiza palestras e cursos em diversas cidades, disseminando o conceito da certificação. “Com esses eventos, nós buscamos também estimular o levantamento de dados sobre o uso e manutenção dos prédios, questão extremamente importante para quem quer a certificação EB. Hoje, os edifícios não se preocupam em conhecer a origem de seus gastos e, sem essas informações, não há como propor soluções para resolver, ou pelo menos, minimizar o problema”, acrescenta Casado.

Outro fator importante nesse processo de certificação é a capacitação de profissionais especializados que prestam consultoria aos prédios que almejam obter o LEED EB O&M. Chamados LEED AP’s, esses profissionais – geralmente arquitetos e engenheiros – passam por prova de qualificação antes de se tornarem consultores LEED. Para aqueles que querem se aperfeiçoar na certificação EB O&M, o GBC Brasil promove um curso sobre o assunto, no qual ensina a aplicar as ferramentas e a entender como funciona o sistema da certificação. O curso, que acontece em várias cidades brasileiras, é usado como base para a avaliação que credita o profissional como um consultor LEED para prédios existentes.

VANTAGENS

O grande atrativo da certificação EB é garantir um bom desempenho do edifício através do monitoramento dos seus gastos, resultando em economia financeira e menos agressão ao meio ambiente. Aliadas à valorização do imóvel, essas são as principais vantagens que os proprietários veem na certificação. “A redução de custo de operação é um fator de valorização do imóvel perante condôminos e potenciais locatários, tornando-se poderosa ferramenta de negociação para a locação ou venda de uma unidade ou edifício, quando certificado”, comenta Douek.

A opinião é compartilhada por Anderson Benite, diretor de Sustentabilidade do CTE. Para ele, os prédios sustentáveis apresentam uma vantagem sobre aqueles que não o são: por reduzir os custos de operação e manutenção, esses edifícios conseguem oferecer condomínios em valores bem mais baixo dos que o mercado está acostumado a pagar. Dessa forma, a adequação de prédios antigos visando a certificação EB O&M se torna, também, uma questão de competitividade. Esse fator tem motivado principalmente os edifícios comerciais a obter a certificação EB, embora existam casos emblemáticos, como o da Estação USP Leste, da CPTM, que comprovam a ampla aceitação e o perfil variado dos edifícios certificados.

Neste aspecto, o GBC Brasil não cria nenhum obstáculo: qualquer segmento de edifício pode obter o LEED EB. “A única exigência feita pelo GBC é que o prédio tenha, no mínimo, dois anos de operação, para que possa se caracterizar como um edifício existente”, complementa Casado. Critério tão importante quanto a economia energética e o uso racional da água: o prédio candidato à certificação deve economizar, no mínimo, 20% de energia e 10% de água.

Para alcançar esses índices mínimos estabelecidos, muitas vezes se torna necessário realizar ajustes na infraestrutura dos edifícios, tarefa considerada como a mais desafiadora pelos LEED AP’s. “Normalmente, o que dá mais trabalho são os itens de eficiência energética, por demandarem melhorias na tecnologia e na operação do prédio, que representam uma parte bastante custosa do projeto”, comenta Benite. Os edifícios multiusuários também causam impasse na hora da certificação. “Nesses prédios, para que a certificação ocorra, todos os ocupantes devem concordar em incorporar as políticas sustentáveis, algo que muitas vezes não ocorre e impossibilita que o prédio goze dos benefícios da certificação”, esclarece Casado.

ADAPTAÇÕES

Uma das críticas mais comuns feitas ao LEED diz respeito a sua origem: muitos acreditam que, por ter sido criada nos Estados Unidos, a certificação não atende completamente a realidade brasileira. Segundo Benite, essa é uma visão bastante distorcida, pois, embora norte-americano, o LEED utiliza bases internacionais em suas normas e referências, e as metas propostas pela certificação podem ser alcançadas em qualquer lugar do planeta, como a economia de água e energia. “O LEED não define as tecnologias que devem ser usadas, mas sim os resultados que devem ser alcançados”, completa o consultor do CTE.

Mesmo assim, o GBC Brasil resolveu avaliar o modelo americano e propor algumas adaptações. “No momento, o comitê técnico do GBC Brasil está concluindo a avaliação da certificação EB e propondo pequenas mudanças, como a criação de cinco novos créditos. O LEED EC, outra modalidade de certificação, também passou por essa adequação e teve um percentual bem baixo de alterações: cerca de 10% dos créditos foram adaptados e seis novos foram criados. Nós acreditamos que, tal como aconteceu com LEED EC, o modelo atual não sofrerá nenhuma mudança drástica”, explica Casado.

Para Douek, a certificação é um processo vivo que vai sofrendo alterações à medida que o mercado evolui. “No Brasil, a mudança dos aspectos culturais fará uma grande diferença. As questões normalmente levantadas referentes às diferenças climáticas, disponibilidade de materiais e soluções técnicas vem sendo pouco a pouco resolvidas com a entrada de novos produtos, serviços e qualificação de profissionais”, observa. Benite concorda com as mudanças que estão sendo propostas pelo GBC Brasil, mas vê nos entraves do modelo atual uma possibilidade para o desenvolvimento de um mercado até então inexistente. “Às vezes, o mercado brasileiro não oferece produtos que atendam a todos requisitos da certificação. Mas esse também é um dos objetivos do LEED: fomentar a adequação desses produtos às exigências da sustentabilidade”, complementa o engenheiro.

Colaboração técnica

David Douek – LEED AP, é diretor de desenvolvimento da OTEC, empresa parceira da consultoria americana, Architectural Energy Corporation, que coordena a equipe de consultoria LEED e a Equipe de Assistência a Projetos Sustentáveis nos projetos de Certificação LEED. Formado em 1997 pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo é, também, Administrador de Empresas pela Universidade Mackenzie, 1995. Foi certificado em 2007 pelo ‘Green Building Certificate Program’, Colorado State University. Está associado ao US Green Building Council; é membro do GBC Brasil; do Comitê de Energia e Atmosfera; do Instituto ETHOS – Grupo de trabalho para a implantação de sustentabilidade em empresas; do CBCS – Conselho Brasileiro de Construção Sustentável; e da Abrafac, entidade setorial de facilities.
Marcos Casado  – Engenheiro civil com especialização em Administração e Gestão Ambiental, atuou como engenheiro residente, orçamentista e coordenador em obras comerciais, residenciais e industriais. Como Gestor de obras por sete anos no Banco ABN AMRO Real, desenvolveu e implantou o PPICS - Programa Prático para Implantação da Construção Sustentável, com o desenvolvimento de fornecedores, materiais e tecnologias para serem utilizados nas obras. Também coordenou a construção e certificação da primeira construção sustentável da América do Sul pelo LEED – USGBC, a Agência Granja Viana – Cotia do Banco Real certificada LEED-NC. Atualmente é gerente técnico do Green Building Council Brasil, onde dissemina o conceito da construção sustentável e da certificação LEED em todo o Brasil, ministrando cursos e palestras de assuntos relacionados ao tema.
Anderson Benite  – Diretor de Sustentabilidade do CTE – Centro de Tecnologia de Edificações. Eng. Civil e Mestre pela Escola Politécnica da USP. MBA Executivo pelo Ibmec e LEED-AP. Especialista em Sustentabilidade e responsável pela coordenação de mais de 80 projetos de consultoria em Green Building no Brasil.