Cinco anos da Norma de Desempenho: veja o que mudou para o setor do aço

A NBR 15.575 conseguiu ser bem absorvida pela construção civil. Setor de estrutura metálica, contudo, considera diretrizes genéricas e anseia por revisão, que deve ser feita em 2018

Publicado em: 07/05/2018Atualizado em: 09/11/2018

Texto: Gisele Cichinelli

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A NBR 15.575 também abrange as estruturas metálicas


Publicada em julho de 2013, a NBR 15.575 – Norma de Desempenho das Edificações é considerada uma das mais amplas autorregulações a que o setor de construção civil já foi submetido. Desde que foi lançado em caráter definitivo, o texto instituiu o nível de desempenho mínimo para os principais elementos de uma edificação ao longo de sua vida útil – incluindo-se aí as estruturas metálicas – e criou referências para avaliação das unidades habitacionais construídas no país.

Embora não tenha mudado a forma de projetar e construir estruturas convencionais, a norma trouxe um impacto relevante para as soluções inovadoras. Os novos materiais e sistemas construtivos que não possuíam normas brasileiras específicas de projeto estrutural ganharam critérios de estabilidade e segurança estrutural por meio de cálculos, modelos e ensaios.

“As estruturas mais comumente utilizadas no Brasil não foram diretamente impactadas, pois já possuíam normas específicas, cujo uso passou a ser recomendado pela Norma de Desempenho. As estruturas em aço, por exemplo, já seguiam as diretrizes da NBR 8800 Projeto de estruturas de aço e de estruturas mistas de aço e concreto de edifícios”, avalia Jorge Batlouni Neto, diretor da Tecnum Construtora e coordenador da Parte 2 da norma, que trata exclusivamente de estruturas.

Segundo o engenheiro, o principal avanço é que o mercado passou a contar com uma série de exigências a serem atendidas quando se trata de um sistema construtivo inédito ou que não tenha uma norma específica já elaborada.

REFRAÇÃO E PARALISIA

Em tese, a norma deveria incentivar o uso em maior escala de novas tecnologias. Mas com o freio agressivo da economia, tornou-se impossível verificar os avanços induzidos pela NBR 15.575 na prática. Com a falta de obras, e consequentemente de investimentos, a adesão do mercado à norma e às novas tecnologias arrefeceu.

“As empresas que já têm tradição em cumprir de forma consciente as exigências das normas técnicas estão buscando tecnologias que viabilizem, em especial, o cumprimento da Norma de Desempenho. É claro que o atendimento a alguns dos seus requisitos exige investimento e pode acarretar em aumento do custo final da obra”, pontua Batlouni Neto.

No segmento de aço, especificamente, o cenário não foi diferente e tampouco animador. Com o uso de estruturas metálicas ‘puras’ ou mistas concentrado sobretudo em edificações altas (com 40 ou mais andares), o mercado ainda tem pela frente o desafio de aproveitar o incentivo dado pela norma aos novos sistemas construtivos e viabilizar técnica e economicamente a produção de estruturas inovadoras. Sobretudo para habitações de interesse social e mais baixas, ressaltam os especialistas. “O setor do aço deve ser mais ágil na tentativa de cobrir essa lacuna”, opina Ércio Thomaz, pesquisador do Centro Tecnológico do Ambiente Construído do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), e um dos responsáveis pela elaboração da norma.

BALANÇO

Apesar do cenário macroeconômico amplamente desfavorável, de um modo geral as diretrizes da norma foram bem absorvidas nos últimos anos pelos agentes do setor da construção civil. Hoje, segundo Thomaz, a NBR 15.575 já está consolidada, principalmente nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste do país. Ele atribui esse progresso ao trabalho ostensivo de divulgação de entidades como AsBEA (Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura) e Abece (Associação Brasileira de Engenharia e Consultoria Estrutural). “Nas regiões Norte e Nordeste, a adesão à norma tem sido menor e, geralmente, impulsionada pelas parcerias das empresas locais com empresas fluminenses ou paulistas”, revela.

Para o projetista Renato Simões, coordenador de projetos e responsável pela área de estrutura metálica da MInerbo-Fuchs Engenharia, os impactos da norma no setor de estrutura metálica foram poucos significativos. Para ele, por se tratar de um sistema com rigoroso controle de produção em fábrica, as diretrizes da NBR 15.575 são consideradas redundantes e genéricas para o setor. “Quando temos de aprofundar em algum detalhe específico de projeto, geralmente recorremos à literatura internacional”, revela Simões.

Thomaz lembra que uma das grandes inovações da norma foram os critérios de durabilidade da edificação. Como o edifício deve ter vida útil de 50 anos, seja em aço ou em concreto, o projetista de estrutura metálica deve conjugar seu trabalho com os demais profissionais responsáveis pelos projetos de vedação e de fachada para pensar em soluções bem engenheiradas que garantam esse requisito.

O pesquisador do IPT observa que as estruturas em aço requerem projetos mais refinados, normalmente elaborados em consonância com a NBR 15.575. “Os projetos de aço e concreto podem ser excelentes, mas a execução do concreto requer mais variáveis, o que pode trazer desvios executivos. No aço, o projeto e a fabricação seguem padrões rigorosos, com pouca brecha para abrir distorções na etapa de montagem”, completa.

QUALIDADE E REVISÃO

Além de pausar o uso mais intenso de novas tecnologias, a crise impactou no preço das estruturas e, consequentemente, na qualidade das construções. “As estruturas de aço ficaram mais baratas, mas é importante que o comprador esteja atento à sua qualidade”, alerta Simões.

Para o projetista, nesse momento, mais importante do que induzir o surgimento de novas tecnologias, é usar a Norma de Desempenho para balizar os critérios técnicos de compra e garantir a qualidade das construções. “A norma deveria ser revista e ampliada, incluindo tópicos para orientar também os compradores das estruturas”, acredita.

A norma deveria ser revista e ampliada, incluindo tópicos para orientar também os compradores das estruturas
Renato Simões

A boa notícia é que uma revisão do texto original já está sendo programada e haverá espaço para o setor do aço tentar ampliar o escopo do texto. De acordo com Batlouni Neto, já estão sendo feitas reuniões com os agentes envolvidos para analisar o grau de atendimento aos diversos requisitos comtemplados e, até o final de 2018, devem ser feitas revisões pontuais na norma.

Apesar de bem-vinda, a inciativa deve ser vista com cautela, para evitar que haja retrocessos. “A revisão não pode se tornar uma reversão”, alerta Thomaz.

COLABORAÇÃO TÉCNICA

Jorge Batlouni Neto – Diretor da Tecnum Construtora e coordenador da Parte 2 da NBR 15.575.

Ércio Thomaz – Pesquisador do Centro Tecnológico do Ambiente Construído do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), e um dos responsáveis pela elaboração da NBR 15.575.

Renato Simões – Projetista, coordenador de projetos e responsável pela área de estrutura metálica da MInerbo-Fuchs Engenharia.