Cobogó volta à tona e se destaca na arquitetura nacional

Fácil de produzir e instalar, solução ganha desenhos e tecnologia sofisticados e contribui com a sustentabilidade

Publicado em: 21/10/2013Atualizado em: 30/10/2023

Texto: Redação AECweb/e-Construmarket

Casa com detalhe cobogóCentro de Tecnologia e Geociências | Projeto Reginal Esteves | Campus da UFPE | Foto: Josivan Rodrigues

O cobogó enfeita muros, faz papel de brise e protege o ambiente interno deixando passar a luz. Pode ter desenho simples, com furos de pequenos quadrados que lembram grades; ou de teia intrincada e delicada, feito uma renda. “No início, o cobogó era um tijolo em concreto com oito furos que, ao compor uma parede, poderia ficar vazado ou receber preenchimento com argamassa. O elemento vazado proporcionava ao ambiente a entrada da luz sem o uso de esquadrias. Era uma maneira de construir de forma bem barata”, explica o arquiteto Cristiano Borba, coautor com o arquiteto Antenor Vieira e o fotógrafo e designer Josivan Rodrigues do livro ‘Cobogó de Pernambuco’, lançado em setembro. A publicação resgata a importância de uma das mais originais contribuições pernambucanas nas áreas da arquitetura e da engenharia.

Solução simples

Cobogó igrejaIgreja de Nossa Senhora da Imaculada | Avenida Caxangá, Iputinga, Recife | Foto: Josivan Rodrigues

O elemento vazado é facilmente assentado com argamassa, porém, utiliza menos material que os tijolos. E dispensa mão de obra experiente, porque a patente nasceu para ser uma construção barata e sem grandes técnicas, de maneira que qualquer um pudesse executar. “Os cobogós têm uso popular e são quase artesanais”, diz o arquiteto, que vai longe: “No limite, nem se trata do cobogó propriamente dito, da peça produzida com esse conceito. Isto ocorre quando o tijolo é assentado do lado contrário deixando os furos visíveis, ou quando o assentamento é desencontrado, de maneira que apareçam algumas aberturas. A função de permitir a ventilação é a mesma, resultando esteticamente numa parede com uma área vazada”.

Os desenhos de fôrma se repetem amplamente e são simples o suficiente para que qualquer pequena oficina tenha condições de produzir. “Podem, no entanto, se tornar bastante complexos. Já vi o projeto de elementos vazados produzidos em alumínio, com um resultado do tipo cortina ou quase brise, fixados por cabos de aço e praticamente móveis. Ou seja, podiam ser dobrados, recolhidos ou esticados”, relata, lembrando que são variáveis que o projeto do arquiteto contemporâneo tem condições de conceber e explorar. “É o que está acontecendo, tanto na indústria quanto na arquitetura”, destaca Cristiano Borba.

Colaboração sustentável

Catedral com cobogóCatedral Anglicana do Bom Samaritano (1982) | Projeto Vera Pires, Carmen Mayrinck, Clara Calabria e Laíza Stacishin | Rua José Maria de Miranda, Boa Viagem, Recife | Foto: Josivan Rodriguese

O mercado oferece elementos vazados de cerâmica e porcelana, com perfurações de desenhos e dimensões variadas. Para Cristiano Borba, o cobogó é hoje um material industrial com grande capacidade de adaptação às condições climáticas das regiões quentes do país. “O que se preconiza como estratégia para o conforto térmico dos ambientes é gerar sombra e permitir a ventilação. É o que o material faz, além de ser esteticamente interessante”, diz.

Referência

A máxima sofisticação foi alcançada na Casa Cobogó, projetada por Marcio Kogan e Carolina Castroviejo, e construída em 2011: o volume do spa na cobertura da residência é revestido por cobogós especiais, em cimento e agregado de mármores. O desenho tridimensional das peças, de 1950, é de autoria do alemão Erwin Hauer. “Trata-se de elemento vazado de altíssima complexidade geométrica, cortado a laser”, diz Cristiano, fazendo ver que, apesar de patenteado como criação brasileira, o elemento é contemporâneo, tanto na sua concepção quanto em tecnologia.

 

Evolução

Esse conceito de material econômico e prático, para uso extensivo na autoconstrução, é patente brasileira, de 1929, registrada por seus criadores – então donos de uma fábrica de tijolos - Amadeu Oliveira Coimbra, August Boeckmann e Antonio de Góes. As iniciais dos sobrenomes deles serviram para batizar a novidade.

A época da patente coincide com o período do movimento de arquitetura moderna em Pernambuco, liderado por Luis Nunes. “O conceito do modernismo de utilizar materiais industriais com toda a sua verdade, deixando-os expostos como são e, ao mesmo tempo, tentando fazer uma arquitetura econômica, encontra no cobogó um material de aplicação para a arquitetura nova que se pretendia fazer”, ensina Borba. É construída, então, a Caixa d’água de Olinda, com projeto de Nunes, objeto inédito em relação à paisagem da cidade histórica. “É um prisma puro, sem rebuscamentos. Seus dois panos principais e mais estreitos foram erguidos em cobogó, com a função de proteger a escada interna que leva ao reservatório de água, mas que precisava de ventilação”, detalha. Depois, vieram outros projetos, inclusive o do prédio tombado onde hoje funciona a sede do IAB-PE – Instituto de Arquitetos do Brasil.

Ao longo das décadas, a indústria se apropriou do cobogó, que avançou em relação ao seu padrão original de apenas oito x oito furos, e nos materiais de que é feito.

O recurso rompeu as fronteiras de Pernambuco e conquistou a arquitetura moderna nacional. Lucio Costa foi um dos principais difusores do cobogó com seus projetos, enquanto Brasília é um bom exemplo do uso do material por Oscar Niemeyer. “O cobogó vai se tornando quase que uma marca da arquitetura brasileira desse período. Revisões feitas dessa arquitetura nas décadas posteriores passaram a privilegiar novos materiais como o vidro e o aço, seguindo tendências internacionais, deixando o cobogó um pouco esquecido. Agora, há certa recuperação desse elemento. As exigências da sustentabilidade coincidem com os princípios do cobogó, que assegura a entrada de luz com ventilação permanente, criando sombreamento”, diz Borba.

Colaborou para esta matéria

Cristiano Borba – Arquiteto e urbanista (Universidade Federal de Pernambuco, de 1999 a 2005, e Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto, de 2003 a 2004). Doutor na linha de pesquisa de Projeto do Edifício e da Cidade pelo Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Urbano da Universidade Federal de Pernambuco (de 2009 a 2013). Analista em Ciência e Tecnologia na Diretoria de Memória, Educação, Cultura e Arte da Fundação Joaquim Nabuco, com atuação nas áreas de projeto e teoria da Arquitetura, com ênfase em estudos de morfologia urbana e edilícia e na conservação da arquitetura moderna.