Cobrimento de armaduras determina durabilidade de estruturas de concreto

Cuidados na especificação e no lançamento do concreto, bem como o uso de espaçadores, ajudam a garantir a proteção das armaduras como definido pelas normas técnicas

Publicado em: 21/10/2016Atualizado em: 14/11/2022

Texto: Redação AECweb/e-Construmarket

Em estruturas de concreto, o cobrimento adequado das armaduras tem como função principal garantir proteção física e química para os vergalhões de aço. Falhas nessa barreira significam sujeitar as armaduras às agressões do meio ambiente, que induzem à corrosão do material e comprometem a capacidade de suporte de carga de toda a estrutura. “Quando a proteção é insuficiente em relação à agressividade de um ambiente, as manifestações patológicas surgem em poucos anos, levando ao desplacamento do cobrimento, à fissuração intensa, ao desaparecimento das armaduras e, em último grau, à deformação e ao colapso da estrutura”, comenta o engenheiro Egydio Hervé Neto, consultor nas áreas de tecnologia e patologia em estruturas de concreto.

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Lançamento de concreto e cobrimento de armadura (RUI FERREIRA/ Shutterstock.com)

O cobrimento tem impacto também no desempenho da estrutura perante ao fogo. Isso porque quanto melhor for a proteção das barras e fios de aço, maior será o tempo de resistência da estrutura no caso de incêndios. “Em edifícios industriais, isso é especialmente crítico porque algumas seguradoras levam em conta a espessura do cobrimento no cálculo do prêmio”, comenta o engenheiro Ênio Barbosa, diretor da Abece (Associação Brasileira de Engenharia e Consultoria Estrutural).

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COBRIMENTO MÍNIMO

Quanto maior for a espessura do cobrimento, maior tende a ser a proteção do aço. Como aumentar indiscriminadamente a camada de concreto não é recomendável – porque eleva o peso da estrutura, aumenta os custos e reduz a área útil construída – a saída é buscar um cobrimento ideal, que garanta a proteção desejada, sem excessos.

Quando a proteção é insuficiente em relação à agressividade de um ambiente, as manifestações patológicas surgem em poucos anos, levando ao desplacamento do cobrimento, à fissuração intensa, ao desaparecimento das armaduras e, em último grau, à deformação e ao colapso da estrutura
Egydio Hervé Neto

A ABNT NBR 6118:2014 – Projeto de Estruturas de Concreto estabelece cobrimentos mínimos para vigas, pilares e lajes (VER TABELA). Os valores, que servem de referência para os projetistas, levam em conta quatro classes de agressividade ambiental ao qual as estruturas serão submetidas ao longo de sua vida útil e que variam de I (rural, o menos problemático), II (urbano), III (marinho ou industrial) e IV (polos industriais, os mais agressivos). Isso significa que duas lajes idênticas de concreto armado deverão ter cobrimento diferente em função do grau de exposição a intempéries. Enquanto a laje exposta a um ambiente rural pode ter cobrimento nominal de 20 mm, a mesma laje em uma construção sujeita a respingos de maré deverá ter cobrimento nominal de, pelo menos, 45 mm.

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FALHAS DE EXECUÇÃO

O desempenho do cobrimento é influenciável pela especificação do concreto, que deve apresentar fck e relação água-cimento adequados para assegurar baixa porosidade. Um recurso adotado pelos projetistas para diminuir o cobrimento é aumentar a resistência do concreto utilizado.

A qualidade do cobrimento também é impactada pela forma de execução, sobretudo nas etapas de lançamento do concreto e na cura. As fôrmas e os escoramentos, por exemplo, devem garantir que não ocorram deformações durante a concretagem.

Alguns pontos da estrutura merecem atenção extra porque são mais suscetíveis a falhas no cobrimento, segundo Hervé Neto. É o caso dos pés de pilares na região de seu encontro com a laje de piso e do centro geométrico de grandes vigas e lajes, nas quais a armadura tende a ser empurrada para baixo por sua grande massa.

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ESPAÇADORES PLÁSTICOS PARA A CENTRALIZAÇÃO DA ARMADURA

Uma das estratégias para garantir a geometria do cobrimento em estruturas de concreto armado é o uso de espaçadores (também chamados de distanciadores) posicionados entre a armadura e a fôrma. A função desses dispositivos é travar a armadura no local correto, evitando deslocamentos durante o lançamento e o adensamento do concreto, garantindo uma cobertura homogênea.

Os espaçadores podem ser confeccionados em materiais diversos, como concreto, argamassa e plástico de alta densidade. Os modelos plásticos são os mais utilizados pelas construtoras, por serem leves, chegarem prontos ao canteiro, terem baixo custo e, principalmente, permitirem rápida colocação.

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Espaçador de concreto (Aisyaqilumar2/ Shutterstock.com)

“Embora os distanciadores plásticos possam auxiliar a manutenção das armaduras no lugar certo, nem sempre recorrer a esse tipo de acessório é a melhor solução”, pondera Barbosa. Ele cita como exemplo as vigas muito pesadas, com alta densidade de armação, que costumam se adaptar melhor a espaçadores mais rígidos, como os de concreto.

Além disso, apenas distribuir os espaçadores nas fôrmas não é garantia de bom cobrimento. “É fundamental assegurar a fixação do acessório ao local para o qual foi previsto, bem como sua resistência mecânica às cargas para evitar deformações”, alerta Hervé Neto.

O cálculo do número de espaçadores deve levar em conta a bitola da armadura e os esforços incidentes. Via de regra, aços mais rígidos necessitam de menos espaçadores.

No momento da concretagem o principal cuidado é garantir que nenhuma peça tenha quebrado ou se deslocado. Nas ferragens positivas os espaçadores, geralmente menores, são posicionados de modo intercalado nos encontros das ferragens. Já nas armaduras negativas o usual é empregar peças maiores, como os distanciadores treliçados, sempre de acordo com as orientações do projetista.

O engenheiro Ênio Barbosa conta que um erro comum nos canteiros brasileiros é negligenciar a logística de execução. “A circulação indiscriminada de trabalhadores sobre as lajes interfere no posicionamento das armaduras mesmo com o uso de espaçadores”, alerta, lembrando que esse tipo de deslize pode implicar em áreas com falhas de cobrimento, mesmo em uma estrutura bem projetada.

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Colaboração técnica

Ênio Canavello Barbosa – engenheiro civil, diretor da Abece (Associação Brasileira de Engenharia e Consultoria Estrutural) e sócio-diretor da Edatec Engenharia
 
Egydio Hervé Neto – engenheiro civil, consultor nas áreas de tecnologia do concreto e patologias em estruturas. É também diretor técnico da Ventuscore