Como projetar teatros de bom desempenho? Conheça desafios e soluções

Trabalho bem coordenado entre os arquitetos e os consultores das áreas de acústica e iluminação é fundamental para o sucesso de projetos arquitetônicos de teatros

Publicado em: 16/05/2016Atualizado em: 31/03/2023

Texto: Redação AECweb/e-Construmarket

projeto-de-teatro
Quebra de planos paralelos e inclinação generosa da plateia são imprescindíveis (strelka/shutterstock.com)

A arquitetura de teatros é uma realização complexa que deve dispor de uma série de apoios de palco, prever estruturação cênica e calcular especificamente algumas distâncias e dimensionamentos.

O projeto de teatro considera três preceitos: garantir que o público enxergue sem esforço, ouça com exatidão e se sinta confortável. “Para que isso aconteça, a geometria que relaciona palco e plateia está condicionada a parâmetros bastante precisos”, informa Alberto Barbour, arquiteto e sócio-diretor da URDI Arquitetura.

Veja também:
Vantagens do BIM na construção civil

“São imprescindíveis a quebra de planos paralelos, a boa inclinação da plateia e o estudo de visibilidade, aliados à combinação de materiais absorventes com materiais reflexivos, devidamente calculados”, completa Mariluce Duque, arquiteta e sócia-proprietária do Lazúli Arquitetura.

Outra complexidade é conciliar todas essas exigências de projeto aos condicionantes da engenharia, da normalização brasileira e da acústica e iluminação eficientes. “Um exemplo desta dificuldade é que, para que o público tenha uma boa visibilidade do palco e acústica adequada, é preciso uma generosa inclinação de plateia, o que dificulta – quando não inviabiliza – o atendimento à NBR 9050, que discorre sobre acessibilidade”, menciona Duque.

Dados os desafios e considerando as limitações de prazo que são impostas aos projetos de teatro, é comum que arquitetos e escritórios busquem subsídio de profissionais especializados no ramo. “Um teatro com um bom desempenho certamente é resultado do trabalho coordenado entre o arquiteto e os consultores da área de acústica e iluminação”, afirma Barbour.

urdimento-do-teatro
Detalhes do urdimento. Foto: Nelson Kon, Projeto: Teatro
Brasil Kirin – URDI Arquitetura

APOIOS DE PALCO E ESTRUTURAÇÃO CÊNICA

Os projetos de teatro devem dispor de uma série de espaços com instalações estruturadas que auxiliam a realização do espetáculo, denominadas como apoio da área de cena. Mais conhecida como palco, a área de cena fica abrigada dentro da caixa cênica, uma construção cúbica com pé-direito duas vezes superior à boca de cena (vão do palco). Na divisão entre ela e a plateia, é necessária uma cortina corta-fogo para proteger o público em caso de incêndio.

No limite superior da caixa cênica, há um conjunto de vigas denominado urdimento, um dos apoios de palco. Ele serve para fixar grelhas acima do ângulo de visão do espectador que são estruturadas com uma série de recursos técnicos e operacionais, como trilhos, sapatas, cordas de manobra, roldanas, gornes etc. Esses recursos permitem o deslocamento de varas de luz e trocas de cenário.

Nas laterais da caixa cênica, outro apoio de palco: as coxias. São espaços não visíveis ao público que atendem à equipe da peça. Sua função é garantir a circulação dos profissionais, sendo utilizadas para concentração de atores, impulso para movimentos, fuga para troca de vestimentas, abrigo de cenários etc.

Um teatro com um bom desempenho certamente é resultado do trabalho coordenado entre o arquiteto e os consultores da área de acústica e iluminação
Alberto Barbour

Acima das coxias, devem ser dispostos passadiços que apoiam a estruturação cênica, chamados de varandas de manobra e varandas de carga. A primeira é destinada a profissionais que manipulam recursos técnicos e operacionais, ficando acima do nível do palco. Já a segunda fica acima da varanda de manobra, logo abaixo da grelha, e serve para armazenar os contrapesos que sustentam as instalações.

No nível inferior ao do palco, após o proscênio (frente do palco, prolongada em nível para além do cenário), deve haver o fosso de orquestra, espaço que abriga músicos e não interfere com o visual do público.

TIPOLOGIAS DE TEATRO 

As tipologias de teatro servem para diferenciar as diversidades de projeto. A definição é feita de acordo com o posicionamento da plateia em relação ao palco. Quando ele é frontal, classifica-se como “teatro italiano”.

"As demais tipologias são elizabetano (plateia em três lados da área de cena), rua (plateia em dois lados da área de cena), arena (plateia em todos os lados da área de cena) e múltiplo (possibilidade de montagem das 4 tipologias)", classifica Duque.

De acordo com a arquiteta, não há definição de coxias e fosso de orquestra em teatros que não são da tipologia italiana.

MAIS PROGRAMAS

Além dos espaços de apoio de palco, os projetos de teatro também devem atender a outros tipos de programa que prestam apoio técnico. “São, pelo menos, três camarins, oficinas de marcenaria ou serralheria, depósitos para cenário e figurino, uma entrada diretamente no palco para cenário e bilheteria”, conta a sócia-proprietária do Lazúli.

Também há exigências que não necessariamente prestam apoio técnico, mas são convencionais em teatro, como foyer – salão onde os espectadores aguardam pelo início da peça –, sanitários, cafés e a própria plateia.

coxias-e-varandas
Áreas laterais de apoio de palco. Foto: Nelson Kon,
Projeto: Teatro Brasil Kirin – URDI Arquitetura

MATERIAIS

Materiais de iluminação, acústicos e cênicos – como vestimentas e mobiliários – devem ser escolhidos com apoio de especialistas. “Eles devem ser compatibilizados entre si e com a arquitetura para que resultem em um projeto coeso”, diz Barbour. De acordo com o arquiteto, em relação à acústica, o formato da sala interfere no alcance das últimas fileiras e na calibragem de ecos, pois o volume de ar é uma variável direta do cálculo acústico que vai se refletir diretamente no tipo de revestimento de piso, parede e forro.

Além disso, algumas instalações podem requerer desenvolvimento sob demanda. “O sistema de ar-condicionado deve ser muito bem projetado para que o ruído de insuflamento e, principalmente, da casa de máquinas, fique em níveis confortáveis e sem atrapalhar a cenotécnica”, atenta Duque.

De acordo com o Centro Técnico de Artes Cênicas (CTAC), da Fundação Nacional de Artes (Funarte), o plano de piso do palco pode ser executado por meio de elevadores hidráulicos ou quarteladas – tampos de madeira removíveis.

Desencontrar as fiadas de cadeira, desalinhando as cabeças dos espectadores, também ajuda na boa visibilidade
Mariluce Duque

DIMENSIONAMENTOS

Existem estudos que examinam a relação entre distância da fonte e as percepções visuais do ser humano. De acordo com Duque, eles servem como base para a disposição da plateia, considerando as medidas máximas de 12 m para reconhecimento da expressão facial, 20 m para gestos e 30 m para movimento do corpo.

“Desencontrar as fiadas de cadeira, desalinhando as cabeças dos espectadores, também ajuda na boa visibilidade”, acrescenta a arquiteta. O parâmetro ideal de área por assento varia entre 0,55 a 0,7 m², e de volume por assento varia entre 2 e 5 m³.

dimensionamento-da-plateia
Inclinação da plateia. Foto: Nelson Kon, Projeto: Teatro
Brasil Kirin – URDI Arquitetura

Quanto à forma das estruturas, deve-se evitar concavidades para que a concentração do som não se restrinja a determinados pontos da sala. “O formato em leque contribui com a reflexão do som para o fundo e aproxima o expectador do palco na medida em que se abre para o fundo”, explana Duque. Nesse caso, deve-se respeitar a angulação máxima de 65°.

Segundo o CTAC, o porão – espaço vazio abaixo do palco, ocupado por elementos que sustentam as quarteladas ou por elevadores hidráulicos – deve ter altura máxima de 1,10 m em relação ao piso, o que permite melhor emissão sonora.

Conheça alguns projetos de teatro que são destaque na Galeria da Arquitetura:
Teatro Porto Seguro, do escritório AIC Arquitetura e Urbanismo
Theatro Net São Paulo, do escritório Ana Paula Magaldi Paisagismo

Colaboração técnica

 
Alberto Barbour – Arquiteto e sócio-diretor do escritório URDI Arquitetura.
Mariluce Duque – Arquiteta especialista em arquitetura cênica e iluminação. É sócia proprietária da Lazúli Arquitetura, escritório especializado com 20 anos de mercado.