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Como reduzir a pegada de carbono nos canteiros de obras?

Durante a etapa de construção é possível adotar uma série de estratégias para minimizar impactos ao meio ambiente. Saiba mais:

Publicado em: 29/09/2021

Texto: Juliana Nakamura

Pegada de carbono
A construção civil gera 80 milhões de toneladas/ano de resíduos (Foto: Fahroni/Shutterstock)

As atividades da construção civil estão entre as que mais consomem recursos naturais, causam mudanças no solo e são intensas geradoras de resíduos e de emissões de poluentes. Segundo o CBCS (Conselho Brasileiro de Construção Sustentável), o setor consome 75% dos recursos naturais, 20% da água nas cidades e gera 80 milhões de toneladas/ano de resíduos.

Diante de uma maior conscientização da sociedade e do movimento dos investidores em direção ao ESG (Environmental, Social, and Corporate Governance), é natural que as construtoras busquem atenuar suas pegadas de carbono. Estamos nos referindo ao rastro de dióxido de carbono (CO2) e de outros gases do efeito estufa emitidos na atmosfera e gerados em atividades diversas nas obras, desde a produção dos materiais de construção.

CONHECER PARA REDUZIR

Para respaldar o desenvolvimento de ações visando reduzir impactos ambientais, é necessária a realização de um inventário dividido em três escopos: as emissões diretas da operação, as indiretas e as emissões da cadeia de suprimentos. “Somente conhecendo esses dados a fundo é possível agir para melhorá-los”, disse a engenheira Anicia Pio, gerente de Desenvolvimento Sustentável da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

É importante começar pelo básico, ou seja, trabalhar para a conservação dos recursos naturais e para a aplicação do conceito de desperdício zero
Anicia Pio

Segundo ela, as companhias deveriam começar suas jornadas de redução de pegadas de maneira simples, com pequenas economias que não afetam a eficiência ou a qualidade dos processos e dos produtos. “É importante começar pelo básico, ou seja, trabalhar para a conservação dos recursos naturais e para a aplicação do conceito de desperdício zero”, recomendou ela, durante o BW Works, evento promovido pela Associação Brasileira de Tecnologia para Construção e Mineração (Sobratema).

Para Anicia Pio, “a redução da pegada ambiental é geralmente acompanhada de economias financeiras decorrentes da redução de perdas, e não depende de investimento, necessariamente”. Quem investe em um modo de produção mais sustentável também se beneficia da redução do grau de exposição ao risco.

ESTRATÉGIAS SUSTENTÁVEIS

“A pegada de carbono pode ser avaliada desde o estudo de ciclo de vida dos materiais, buscando selecionar aqueles que têm menor emissão de C02 ou que têm maior compensação em sua concepção”, conta José Luiz Camarero Neto, diretor-executivo na Bild Desenvolvimento Imobiliário.

A pegada de carbono pode ser avaliada desde o estudo de ciclo de vida dos materiais, buscando selecionar aqueles que têm menor emissão de C02 ou que têm maior compensação em sua concepção
José Luiz Camarero Neto

No canteiro, as boas práticas podem se estender tanto nas áreas de produção, quanto nos setores de apoio. O projeto de escritórios e alojamentos, por exemplo, pode ser desenhado para tirar partido da ventilação cruzada, reduzindo consumo de ar condicionado. Além disso, a instalação de dispositivos para favorecer o aproveitamento da iluminação natural e das águas pluviais também ajudam a adicionar eficiência e reduzir o consumo de água e energia. A utilização de tapumes de materiais duráveis, que possam ser aproveitados em mais de uma obra, é outra prática recomendada.

Na rotina das obras, um dos pontos mais críticos quanto à emissão de poluentes é a alta dependência de matérias-primas como concreto e aço. “Esse último tem um fator de emissão em torno de 1,46 kg CO2/kg material”, informa José Luiz Camarero Neto. Ele conta que, no caso da Bild, que tem obras concentradas no interior de São Paulo, o deslocamento é outro ofensor, visto que os grandes centros de distribuição se localizam perto da capital.

O engenheiro recomenda que as ações para diminuir emissões se concentrem em três frentes: redução do consumo de materiais poluentes, busca por tecnologias mais limpas e industrializadas, e a compensação do carbono decorrente das atividades.

Nesse sentido, uma das medidas de maior impacto adotadas pela construtora foi a adoção de sistemas construtivos secos e industrializados. Com isso, foi possível reduzir em quase 40% a emissão de CO2 das obras, se comparado ao sistema construtivo convencional. “Isso se justifica devido ao menor peso e consumo de materiais e à maior velocidade de execução”, diz Camarero Neto.

Em canteiros que operam com atenção ao meio ambiente, não pode faltar uma gestão consistente de resíduos, com ênfase na reciclagem e na logística reversa. Outras práticas fundamentais para diminuir emissões de poluentes são selecionar máquinas e equipamentos eficientes, submetidos a inspeções e manutenções adequadas, assim como priorizar materiais regionais e biomateriais, a exemplo de madeira e bambu, que em vez de emitir, capturam dióxido de carbono na atmosfera.

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Colaboração técnica

 
José Luiz Camarero Neto — Engenheiro civil, é sócio e diretor-executivo do grupo Bild Desenvolvimento Imobiliário.
 
Anicia Pio — Engenheira civil com mestrado pela Poli-USP, é gerente de Desenvolvimento Sustentável da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).