Concretagem em dias frios: como fazer e quais os cuidados?

Qualidade e aplicabilidade do concreto usinado são fortemente influenciados pela temperatura ambiente no momento da aplicação. Saiba mais

Publicado em: 26/05/2020

Texto: Juliana Nakamura

concretagem em dias frios
Em dias frios, as reações de hidratação do cimento são mais lentas (foto: bubutu/shutterstock)

O concreto tem uso consagrado na construção civil em função de características como resistência, durabilidade e versatilidade. No entanto, quando esse material não é produzido sob condições apropriadas, pode ter seu desempenho comprometido.

A temperatura do ambiente no momento da concretagem é um dos fatores que impactam a qualidade do concreto. “Quando temos uma temperatura quente, o concreto perde sua plasticidade e trabalhabilidade por causa da evaporação mais rápida da água contida na mistura”, explica o engenheiro e consultor Flávio Renato Pereira Capuruço, da Beton Engenharia. Ele conta que em climas mais frios, ocorre justamente o contrário. Há um retardo nas reações de hidratação do cimento e o concreto demora mais tempo para puxar. “Isso põe em risco as resistências iniciais, exigindo que os procedimentos de desforma sejam revistos", alerta.

Concreto dosado em central

Concreto bombeável dosado em central

COMO CONCRETAR NO INVERNO?

A ABNT NBR 7212 – Execução de concreto dosado em central – Procedimento estabelece que a temperatura ambiente para lançamento do concreto deve estar entre 5°C e 30°C. Em concretagens realizadas sob frio mais intenso, há uma série de boas práticas importantes para evitar problemas.

“Em primeiro lugar, é necessário dispor de um planejamento técnico e logístico consistente”, cita o engenheiro Egydio Hervé Neto, especialista em tecnologia de concreto. “Se o cliente necessita de um concreto que apresente maior resistência inicial e início de pega mais rápido, como os usados em pisos polidos, paredes de concreto e estruturas protendidas, a concreteira deve optar por usar cimentos que não contenham adições de escória ou pozolana e aditivos multifuncionais sem o componente de retardo de pega”, acrescenta Capuruço. Ele lembra que em concretagens realizadas sob temperaturas abaixo de 10°C, o concreto tende a continuar a puxar de forma mais lenta, mesmo com estes cuidados. “Neste caso, a obra deverá alterar seus procedimentos construtivos, prevendo um tempo maior do concreto nas formas para obtenção de resistência e módulo para desforma em idades mais avançadas”, complementa o engenheiro.

São também importantes alguns cuidados com relação à elaboração do traço. Uma estratégia que costuma ser utilizada em concretagens realizadas em dias mais frios é reduzir o teor de aditivos multifuncionais. É muito comum, também, a substituição do tipo de cimento ou mesmo do aditivo. Em casos bem específicos, podem ser utilizados, no concreto, aditivos especiais do tipo aceleradores de pega ou de resistência. “Mas os concretos produzidos com estes aditivos podem apresentar menores resistências finais. Por isso mesmo, eles exigem estudo prévio para que o desempenho final do concreto não seja comprometido”, diz Flávio Capuruço.

A ABNT NBR 14.934 – Execução de estruturas de concreto – Procedimento determina que a concretagem seja interrompida sempre que for prevista queda na temperatura ambiente para menos de 0ºC.

No frio, a reação de hidratação do cimento é mais lenta e a água utilizada na mistura do concreto estará sujeita à evaporação com o passar do tempo. A tendência do concreto é de apresentar retrações e fissuras com o tempo. Por isso, a cura deve ser feita de modo mais prolongado
Flávio Renato Capuruço

Mas em obras surpreendidas por frentes frias inesperadas, algumas ações podem colaborar. Entre elas, está a proteção do concreto novo para manter o calor do material. Para tanto, podem ser utilizados lonas enceradas, lençóis plásticos, sacos de aniagem e até papel impermeável de espessura suficiente. Outra dica é programar as concretagens para acontecerem sempre no período da manhã, aproveitando ao máximo a temperatura ao longo do dia.

CURA DO CONCRETO NO INVERNO

Assim como a concretagem, o processo de cura requer atenção especial em dias de temperaturas congelantes. “No frio, a reação de hidratação do cimento é mais lenta e a água utilizada na mistura do concreto estará sujeita à evaporação com o passar do tempo. A tendência do concreto é de apresentar retrações e fissuras com o tempo. Por isso, a cura deve ser feita de modo mais prolongado”, finaliza Flávio Renato Capuruço.

Colaboração técnica

Flávio Renato Pereira Capuruço – Engenheiro civil, especialista nas áreas de Fundações e Estruturas e em Tecnologia dos Materiais. Pós-graduado em engenharia econômica, está à frente da Beton Engenharia e Consultoria.
Egydio Hervé Neto – Engenheiro civil, é consultor na EHN Engenharia e especialista em tecnologia de concreto.