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Conheça técnicas para remediação do solo e saiba escolher a mais adequada

Além de ter informações detalhadas sobre o terreno e o tipo de contaminante, é preciso adotar cuidados para proteção do meio ambiente. Entenda quais são eles

Publicado em: 28/04/2021

Texto: Redação AECweb/e-Construmarket

Remediação do solo
As reais condições do solo são verificadas por meio de estudos (Foto: Microgen/Shutterstock)

O Brasil não tem inventários listando com precisão a quantidade de terrenos contaminados existentes pelo país ou quais substâncias causam o problema com maior frequência. Levantamentos desse tipo são mantidos apenas por alguns estados, como acontece em São Paulo. Apesar da carência de dados nacionais, é consenso que os hidrocarbonetos estão no topo da relação de contaminantes mais comuns.

O composto é proveniente dos combustíveis derivados do petróleo e pode se adsorver (ele não se mistura, apenas adere às moléculas do fluido na superfície sólida) ao solo após derramamentos acidentais ou processos de evaporação. No entanto, o que acontece em grande parte dos casos são vazamentos nos tanques subterrâneos de armazenamento, usados pelos postos de gasolina. Uma vez atingida, a área permanecerá afetada por anos e há o risco de se tornar até mesmo inutilizável.

Hoje, sem dúvida, o que mais temos são terrenos contaminados por hidrocarbonetos, com ênfase nos locais com postos de operação ou abastecimento de combustíveis
Antonio Thomé

“Hoje, sem dúvida, o que mais temos são terrenos contaminados por hidrocarbonetos, com ênfase nos locais com postos de operação ou abastecimento de combustíveis”, afirma o engenheiro Antonio Thomé, ex-presidente do Núcleo Rio Grande do Sul da Associação Brasileira de Mecânica dos Solos e Engenharia Geotécnica (ABMS). Devido à matriz industrial nacional, também existem solos afetados por metais e organoclorados.

Estudos em laboratórios

As reais condições de determinada área são aferidas por meio de estudos, geralmente, com base na extração de amostras encaminhadas para laboratórios especializados. “É importante estabelecer um modelo conceitual de investigação do solo e água subterrânea. O nível de detalhamento, número de amostras e profundidades são definidos em planejamento elaborado com auxílio de especialista no assunto”, comenta Thomé.

Se constatada a presença de contaminantes, pode ser preciso realizar a remediação. A Resolução Conama nº 420/2009 indica o procedimento para solos com concentrações de, pelo menos, uma substância química com riscos potenciais (diretos ou indiretos) à saúde humana, considerando cenário de exposição padronizado. “Nesses casos, é feita análise para verificar a necessidade da intervenção ou se é recomendado apenas um monitoramento”, conta Thomé.

Técnicas de remediação

A definição da técnica mais adequada de remediação para cada cenário passa por diferentes particularidades, como o tipo e características do solo, detalhes do contaminante e propriedades do local. “A escolha do método ideal ainda deve levar em consideração os custos e as questões ambientais, ou seja, tornando a remediação um procedimento sustentável”, complementa Thomé.

Em sua dissertação de mestrado — que leva o título “Avaliação de Técnicas de Remediação em Processos de Contaminação da Água e do Solo por Hidrocarbonetos” e foi apresentada à Universidade Estadual Paulista (Unesp) —, o engenheiro José Eduardo Taddei Cardoso, sócio da Viva Engenharia, listou alguns dos principais procedimentos. O estudo destaca que não há uma técnica que seja sempre superior às demais e que possa ser adotada em todos os casos.

Entre os métodos amplamente empregados, estão os físico-químicos, como o bombeamento e tratamento – Pump and Treat (PT). “É o mais aplicado para lidar com contaminação em águas subterrâneas”, indica Taddei. Consiste no bombeamento das águas contaminadas, seu posterior tratamento e reinjeção no subsolo. Para retirada das substâncias indesejadas dos volumes bombeados, os meios geralmente utilizados são a caixa separadora de água e óleo, o airstripping para remoção de compostos voláteis, o carvão ativado para retirada de constituintes dissolvidos e a biorremediação para lidar com poluentes biodegradáveis.

Outra técnica é a Remoção de gases — Air Stripping (AS), que consiste na extração dos contaminantes orgânicos do solo ou da água subterrânea por meio da aplicação de vácuo ou ar. O procedimento acontece com a passagem forçada do ar através da água subterrânea contaminada bombeada para tratamento. “Geralmente, é utilizado em conjunto com o bombeamento e tratamento”, comenta Taddei.

Já a Extração de Vapores do Solo — Soil Vapor Extraction (SVE) é feita com a implantação de poços de injeção de ar (quente e frio) e poços de extração à vácuo na área contaminada. O objeto é acelerar o processo de biodegradação dos compostos de baixa volatilidade na área. Esse sistema é aplicado na remoção de compostos orgânicos voláteis (VOC) e compostos orgânicos semivoláteis (SVOC) de uma zona não saturada de solo.

A aplicação da Soil Vapor Extraction em compostos orgânicos voláteis e semivoláteis provenientes de produtos derivados de petróleo, como a gasolina, tem apresentado ótima eficiência
José Eduardo Taddei Cardoso

“A aplicação da Soil Vapor Extraction em compostos orgânicos voláteis e semivoláteis provenientes de produtos derivados de petróleo, como a gasolina, tem apresentado ótima eficiência”, diz Taddei. As taxas mais altas de remoção dos voláteis acontecem no início do processo, que tendem a aumentar. Já nos estágios finais, através da biodegradação, os compostos menos voláteis resistentes e adsorvidos nas partículas sólidas são removidos.

Ainda faz parte da categoria dos métodos físico-químicos a Extração Multifásica — Multi-Phase Extraction (MPE). Também chamado de extração de fase dupla ou bioslurping, trata-se do bombeamento para remoção do contaminante na fase livre, de água subterrânea com compostos dissolvidos ou de vapor do solo. O procedimento apresenta bons resultados na redução da concentração de hidrocarbonetos na zona não saturada do solo.

Também é possível utilizar microrganismos para remediação do solo, procedimento que recebe o nome de biorremediação. “É uma ferramenta viável na restauração ambiental de uma superfície contaminada, principalmente, quando ela tem grande extensão e volume. Uma vantagem deste método é o custo relativamente baixo. O processo fundamenta-se na ação de microrganismos, através da oxidação biológica, que realizam a decomposição da matéria orgânica em substâncias simples”, detalha Taddei.

Prazos e análises

O cálculo do tempo médio para remediação de solos contaminados envolve variáveis distintas, como a técnica empregada e a eficiência do projeto. “Pode demorar alguns dias, por exemplo, quando utilizada a injeção de oxidantes ou redutores em contaminações com orgânicos. Ou então, até mesmo mais de uma década, como é o caso do método de bombear e tratar um solo poroso mais reativo com o contaminante”, detalha Thomé.

Por isso, é importante que o projeto de remediação seja elaborado também com o cuidado de alcançar o menor prazo de operação possível. Encerrada a remediação, o terreno somente é liberado para uso depois de monitoramentos. “Assim, é possível ter a certeza de que o problema foi solucionado”, afirma Thomé. Quando todos os procedimentos são realizados da maneira adequada, não existem riscos de ocupar um local que antes era contaminado.

Avanços

Muitas pesquisas sobre contaminação do solo estão sendo realizadas em diferentes universidades do Brasil. “No entanto, a interação entre empresas, academia e agências de meio ambiente ainda é pequena”, destaca Thomé, informando que nesse sentido há iniciativas importantes em curso, principalmente, pelo Ministério Público. “Isso certamente trará benefícios futuros, afinal, é um tema de saúde pública e deve ser tratado como tal”, afirma.

“Além da falta de interação, a ausência de padrões e procedimentos para a realização de coletas de amostras, dos tipos de ensaios aplicados nessas amostras e, por fim, nas apresentações dos resultados dificultam o desenvolvimento de novas pesquisas”, conclui Taddei.

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Colaboração técnica

Antonio Thomé
Antonio Thomé — Graduado em Engenharia Civil pela Universidade Federal de Santa Maria (1991), tem mestrado em Engenharia Civil (Geotecnia) pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1994) e doutorado em Engenharia Civil (Geotecnia) pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1999). Em 1998, realizou doutorado sanduíche na University of Manitoba, com ênfase em Geotecnologia Ambiental e em 2014 concluiu o pós-doutorado na University of Illinois at Chicago, na área de Remediação de Solos e Águas Subterrâneas. É professor titular e pesquisador da Universidade de Passo Fundo (UPF). Atualmente, é vice-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação da UPF, conselheiro da Associação Brasileira de Mecânica dos Solos e Engenharia Geotécnica (ABMS), representante do Brasil no comitê Técnico TC215 (Environmental Geotechnics) da Associação Internacional de Mecânica dos Solos e Engenharia Geotecnica (ISSMGE) e coordenador do GT em Geotecnia Ambiental da ABMS.
José Eduardo Taddei Cardoso
José Eduardo Taddei Cardoso — Graduação em Engenharia Civil pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), com mestrado em Engenharia Civil e Ambiental, na área de Saneamento pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). É sócio da Viva Engenharia.