Construção civil encerra 2016 com retração no PIB e menos postos de trabalho

Terceira queda consecutiva do Produto Interno Bruto no setor e perda de 441 mil empregos formais no ano sinalizam chegada ao 'fundo do poço'

Publicado em: 05/12/2016

Texto: Redação AECweb/e-Construmarket

Em coletiva de imprensa realizada no dia 01 de dezembro, o Sindicato da Construção Civil do Estado de São Paulo (Sinduscon-SP) anunciou que o Produto Interno Bruto (PIB) da construção civil no país irá fechar 2016 com queda de 5,3% em relação ao ano anterior. A retração acontece pela terceira vez seguida no setor, que fechou 2014 e 2015 com quedas de 2,1% e 6,5%, respectivamente.

Na avaliação do sindicato, o abalo no setor decorre da crise econômica que assolou o país este ano, gerando crédito caro e difícil para empresas e famílias; aumento do desemprego e da informalidade; retração das rendas das famílias; queda do consumo e do investimento público e privado, além da queda do PIB total.

Contudo, o Sinduscon-SP também apontou sinais de estabilidade da crise no setor, com melhora na confiança das famílias e empresas, desaceleração da inflação, custos setoriais abaixo da inflação, movimento de queda da taxa Selic e retomada de contratações do Programa Minha Casa, Minha Vida (PMCMV).

grafico-em-queda-do-pib-e-emprego-na-construcao
O abalo no setor decorre da crise econômica que assolou o país este ano (Egorov Artem/ Shutterstock.com)

EMPREGO

Na construção civil, entre os meses de outubro de 2015 e outubro de 2016, 441 mil postos de trabalho foram fechados no país. Dessa forma, o total de empregados com carteira no setor é de 2,6 milhões, enquanto que em outubro de 2014, primeiro mês de queda, o número era de 3,5 milhões.

As maiores quedas foram registradas em Rondônia (40,5%), no Pará (25,9%) e no Piauí (21,4%). "A retração atingiu fortemente a região norte em função do fim das obras de infraestrutura, como de Belo Monte e do Rio Madeira", explica Ana Maria Castelo, coordenadora de projetos da construção da Fundação Getúlio Vargas (FGV) — instituição parceira na realização dos cálculos do Sinduscon-SP.

A retração atingiu fortemente a região norte em função do fim das obras de infraestrutura, como de Belo Monte e do Rio Madeira
Ana Maria Castelo

Em relação à região sudeste do país, houve redução de 11,3% dos postos de trabalho em São Paulo, 16,9% no Rio de Janeiro, 16,2% em Minas Gerais e 17,2% em Espírito Santo. "Todos os estados estão com taxas negativas. São números muito ruins, mostrando o encolhimento na cadeia da construção como um todo", comenta Castelo.

O emprego com carteira na construção deve fechar o ano de 2016 com queda total de 14,5%, configurando a segunda retração seguida (em 2015 foi de 10,1%). "Estamos retrocedendo rapidamente", alerta a coordenadora da FGV.

PERSPECTIVAS PARA 2017

Para 2017, o Sinduscon-SP estima alta de 0,5% no PIB do setor. "Terminar o ano que vem com taxas positivas é um aspecto que, sem dúvidas, reverte esse cenário negativo. Mas ainda estamos muito longe de um processo que podemos chamar de recuperação", pondera Castelo.

A projeção otimista se baseia na perspectiva de contratação de 40 mil unidades da faixa 1,5 e de 70 mil unidades da faixa 1 do PMCMV, na retomada de 1,6 mil obras de infraestrutura do Programa de Aceleração e Crescimento (PAC) e no avanço do programa de concessões e licitações.

Além disso, a entidade considera crucial o início da agenda de reformas para melhorar o quadro de empregos no setor. "As reformas da previdência, trabalhista e tributária têm de sair para que a economia seja reativada e, automaticamente, o mesmo aconteça com nosso setor", aponta José Romeu Ferraz Neto, presidente do Sinduscon-SP.

"Vamos precisar das reformas e do controle dos gastos públicos, mas isso em si não será suficiente para reverter esse cenário de enfraquecimento. Também é preciso reduzir as incertezas no plano político para impactar nas decisões de investimento", acrescenta Castelo.

De acordo com Eduardo Zaidan, vice-presidente do Sinduscon-SP, o principal recado que a entidade tem a passar é de que é necessário "arrumar a casa" para voltar a gerar emprego no setor. "Se não houver um reordenamento efetivo das contas públicas no Brasil, não se retomará a capacidade de investimento, e esses números negativos continuarão persistindo", afirma.

As reformas da previdência, trabalhista e tributária têm de sair para que a economia seja reativada e, automaticamente, o mesmo aconteça com nosso setor
José Romeu Ferraz Neto

FUNDO DO POÇO

Segundo Ronaldo Cury, vice-presidente de habitação do Sinduscon-SP, o setor chegou ao 'fundo do poço' e, para sair de onde está, dependerá da velocidade de implantação das reformas macro e micro.

Em relação ao PMCMV, Cury defende que se finalizem as obras da faixa 1 que já estão contratadas e que se contratem as obras que estão paradas "quando sobrar dinheiro". Novas contratações devem ser feitas somente se sobrar mais recurso. "A gente não quer que se contrate sem ter recurso para executar. É pouco, mas é o que o país pode no momento", argumenta Cury.

SONDAGEM EMPRESARIAL

Uma sondagem realizada com empresas do Sinduscon-SP revela que o empresário está mais otimista quanto ao futuro quando se mencionam estímulos do governo para o setor, mudanças no segmento de mercado, crescimento no médio e longo prazo, melhoria do ambiente de negócios, investimento em novas tecnologias, entre outros itens. Registrados acima de 50 numa escala que vai de 0 a 100, esses aspectos denotam percepção favorável do empresário.

Já em relação ao desempenho do setor, a perspectiva do empresário evoluiu entre novembro de 2015 e novembro de 2016, mas continua baixa, registrando 37,20. O desempenho propriamente dito se manteve estável, registrando 25,68 também em novembro de 2016. "Algumas notícias mudaram o ânimo empresarial e melhoraram suas expectativas, mas não foi acompanhado pelo indicador de desempenho", constata Castelo.

NOVO INDICADOR

A coletiva do Sinduscon-SP ainda apresentou o Indicador de Atividade das Empresas da Construção Civil (Inacc), um novo parâmetro desenvolvido em pareceria com a FGV para monitorar a atividade empresarial no setor. Uma das principais novidades é que o Inacc incorpora especificidades setoriais, como o grau de uso de mão de obra e do bem de capital das empresas, permitindo estimar as atividades de maneira mais sensível.

"Saber quanto as empresas utilizam da mão de obra e do bem de capital de que elas dispõem é um complemento para a informação da atividade, proporcionando um adicional aos indicadores que possuímos hoje", diz Castelo.

O Inacc, cuja base começa em março de 2013, mostra que houve uma desaceleração das atividades das empresas até setembro de 2016, data da última pesquisa. "O pior já passou, com uma queda de 20% no fim do ano passado. Então, essa queda tende a ficar menor, pois o indicador parou de cair", afirma Castelo.