Construção modular off-site supera paradigmas e amplia presença no mercado

Edifícios e residências construídos com módulos tridimensionais pré-fabricados começam a se viabilizar no país, levando a industrialização a novos patamares<br>

Publicado em: 10/11/2022

Texto: Juliana Nakamura

foto de uma pessoa segurando uma espátula e uma tabua com argamassa líquida em cima
(Imagem: GND Incorporadora)

Chave para solucionar problemas como baixa produtividade, altos índices de desperdício e intenso uso de mão de obra, a industrialização da construção civil tem avançado no Brasil, em especial com novas aplicações da construção modular off-site.

Estamos nos referindo a um processo de construção no qual módulos tridimensionais são produzidos fora do canteiro (off-site), em uma instalação industrial adequada para isso. Uma vez prontos, esses componentes são transportados em carretas, em conjuntos ou subconjuntos, até o local da obra para a montagem e acabamentos.

Uma das empresas que têm conquistado destaque nesse mercado é a Brasil ao Cubo, que surgiu como uma startup e, desde 2020, tem a Gerdau como uma de suas acionistas. Ricardo Mateus, CEO e fundador, conta que a construtora está, atualmente, focada em quatro segmentos: industrial, residencial, hospitalar e edifícios de múltiplos andares. Segundo ele, há espaço para crescimento na linha residencial, tanto para casas quanto para prédios.

A construção do edifício Level em Tubarão, SC, ajudou a validar a tese de que era possível construir um prédio de oito andares a partir de módulos metálicos. “Agora, estamos avançando em um novo projeto, dessa vez um prédio residencial de 15 andares com lajes de 550 m² e acabamento refinado”, afirma Mateus, revelando que a ideia é executar essa obra em 2023. “Detalhes técnicos estão em estudo, como o núcleo rígido de concreto, para um melhor travamento da estrutura metálica, além de lajes em CLT ou steel deck e módulos metálicos que partem de 10 m até 15 m de comprimento”, adianta o engenheiro.

Mercado de alto padrão

Os empreendimentos residenciais baseados em módulos off-site, pelo menos em um primeiro momento, são desenvolvidos visando o segmento de alto padrão. “Atualmente, a construção modular não tem preços interessantes para atender segmentos de renda mais baixa”, diz Mateus.

Quem também identifica oportunidades para introduzir a industrialização por módulos no mercado residencial de alta renda é a incorporadora GND, que atua no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. A empresa lançou recentemente o ‘Passeio do Mar’, em Florianópolis, SC, resultado de um trabalho conjunto com a Visia, especializada em construção modular. Ambas as empresas fazem parte do mesmo grupo empresarial. Implantado a poucos passos da praia, o empreendimento terá trinta unidades de 117 e 231 m², arquitetura de linhas contemporâneas e certificação ambiental Fitwel.

Eduardo Deboni, CEO da GND, conta que as unidades foram projetadas com chassis de aço, laje pré-fabricada de concreto e paredes externas com GRC (concreto reforçado com fibras). Ao todo serão utilizados 238 módulos na obra.

“Na comparação simples, o custo do módulo em aço é maior que o da estrutura de concreto moldado no local. Mas é preciso considerar que vamos entregar o empreendimento na metade do tempo de uma obra convencional”, pontua Deboni.

O executivo da GND conta que a expectativa é equilibrar os custos mais elevados do sistema construtivo com ganhos obtidos como gestão da obra simplificada, antecipação da entrega e, principalmente, melhoria da qualidade final. Além disso, Deboni revela que o sistema construtivo modular irá proporcionar redução de 30% na quantidade de mão de obra alocada diretamente no canteiro. “Em tempos de escassez de trabalhadores para atuar na construção civil, essa é uma vantagem realmente importante”, destaca.

Construção modular: tendências

A movimentação de empresas como a Brasil ao Cubo e a GND mostra que o paradigma de que a construção modular é empecilho para conquistar arquitetura diferenciada ficou para trás. Outro ponto convergente é o uso da metodologia BIM (Building Information Modeling) para pré-construção virtual dos empreendimentos, elevando o grau de precisão dos projetos.

Ainda assim, a expansão desse método de construir depende da superação de desafios, a começar por limitações logísticas. Tanto no case da Brasil ao Cubo, quanto na experiência da GND, os empreendimentos se beneficiam do fato de estarem relativamente próximos das fábricas onde os módulos são produzidos.

Na visão de Ricardo Mateus, também há oportunidades para otimização de processos fabris, visando redução de custos e a ampliação do mercado consumidor. “Para esta evolução, estamos desenvolvendo o projeto para nosso novo parque fabril, que conseguirá atender à crescente demanda de mercado. O objetivo é melhorar a nossa forma de gestão e operação para trazer preços ainda mais competitivos ao mercado”, comenta o CEO da Brasil ao Cubo.

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Colaboração técnica

Eduardo Deboni – CEO da GND Incorporadora é, também, sócio e diretor de novos negócios na Visia Construção Modular.
Ricardo Mateus – Engenheiro civil e de produção, é CEO e fundador da Brasil ao Cubo.