Cura do concreto: conheça cada técnica, suas vantagens e cuidados

Com molhagem constante, por aspersão ou química: antes de escolher é preciso analisar o processo construtivo, a velocidade de desforma e a existência de elementos pré-moldados

Publicado em: 23/08/2017Atualizado em: 24/01/2024

Texto: Redação AECweb/e-Construmarket

Homem trabalhando na cura do concreto

A cura do concreto é um procedimento que visa retardar a evaporação da água empregada na preparação da mistura, permitindo assim a completa hidratação do cimento. Executada durante as primeiras etapas de endurecimento, a atividade pode ser realizada de diferentes maneiras, dependendo da situação.

Pisos e lajes requerem muito cuidado com a cura. Em fundo de vigas e faces de pilares a atenção é menor, pois são peças protegidas pelas fôrmas. Em estruturas de grande volume e pouca área, a cura se torna importante por razões térmicas e não de resistência ou durabilidade”, explica o engenheiro Paulo Helene, professor da Universidade de São Paulo (USP) e conselheiro permanente do Instituto Brasileiro do Concreto (Ibracon).

Tempo de cura do concreto

O tempo de cura do concreto é 28 dias, período mínimo recomendado para que a mistura passe pelo processo de hidratação e endurecimento — adquirindo, assim, a sua resistência final. Durante esse intervalo, a combinação entre a água e os demais elementos do cimento cria uma matriz sólida que proporciona ao concreto as suas características mecânicas.

Respeitar o tempo de cura do concreto é fundamental para evitar problemas futuros, como o surgimento de fissuras, trincas, porosidade, menor resistência e baixa durabilidade. Na lista de manifestações patológicas evitadas pelo procedimento estão, ainda, as erosões, descoloração e lixiviação. Problemas capazes, até mesmo, de prejudicar a integridade estrutural da edificação.

Influência do ambiente na cura do concreto

Além do tipo de estrutura, o local onde está localizada a obra também tem que ser levado em consideração para escolha do método de cura, analisando a umidade relativa (UR) do ambiente, temperatura e velocidade do vento. “Curiosamente, a época de maiores problemas por falta de cura em São Paulo são os meses frios de julho, agosto e setembro. Isso acontece devido à baixíssima UR e ventos mais fortes e constantes”, fala o professor.

Já na região norte do país, que tem UR anual de cerca de 95%, não é preciso aplicar nenhuma técnica de cura. “Em contraponto, nas áreas secas do centro-oeste e no interior do Nordeste, a ação é sempre obrigatória”, diz o engenheiro.

Métodos de cura do concreto

A escolha da técnica mais apropriada de cura passa ainda pela análise do processo construtivo, verificando a velocidade de desforma e a existência de elementos pré-moldados. O custo e a disponibilidade local de ferramentas também precisam fazer parte da equação, assim como eventuais interferências futuras que o método de cura pode causar nas demais atividades que ocorrem no canteiro.

Com base no conjunto de informações, o profissional responsável é capaz de indicar qual a melhor técnica a ser empregada. Entre as mais comuns estão a cura com molhagem constante; via aspersão, irrigação ou alagamento; química; a vapor; térmica; e com agentes internos.

CURA COM MOLHAGEM CONSTANTE

Uma das técnicas mais empregadas, a cura com molhagem constante é também aquela que gera mais dúvidas. A peça de concreto precisa estar permanentemente em contato com a água e não de maneira intermitente. “Molhagem constante significa sempre saturado a 100% de UR, o que não pode ser confundido com a mangueira de água na mão de um operário que molha uma área enquanto observa as demais secando”, ressalta Helene.

O método é indicado para pisos, lajes e, eventualmente, para faces verticais. O tempo de cura da técnica varia em função da resistência à compressão, ou seja, até que a peça atinja, pelo menos, 15 MPa. “No caso de pisos industriais, onde a resistência à abrasão superficial é fundamental, o concreto tem que curar durante 21 dias. O mesmo período precisa ser respeitado em estruturas expostas a ambientes agressivos”, diz o especialista.

CURA VIA ASPERSÃO, IRRIGAÇÃO OU ALAGAMENTO

A cura via aspersão também é recomendada para execução de pisos ou lajes. Nessa técnica, sistemas de ar-comprimido são responsáveis por manter uma névoa próxima à peça de concreto.

“Os procedimentos de irrigação são pouco recomendáveis e muito perigosos porque o operário não consegue molhar tudo de uma só vez e acaba criando ciclos de molhagem e secagem, que são desfavoráveis ao concreto”, comenta o professor, indicando que o alagamento é o ideal. No entanto, nem sempre é possível utilizar essa técnica devido a restrições no canteiro.

CURA QUÍMICA

A cura química é a aplicação de produto, por aspersão, na superfície do concreto. A substância, que tem a função de impedir a evaporação da água, pode ser fabricada a partir de WAX, ceras, parafinas, PVA, acrílicos, estirenos, entre outros elementos. “A eficiência da técnica pode variar entre 40% e 100% dependendo da qualidade do produto”, destaca o engenheiro.

A alternativa é indicada para qualquer situação, já que apresenta como vantagem principal a facilidade de aplicação. “Todavia, traz o inconveniente de dificultar ou prejudicar a aderência de revestimentos, chapiscos, contrapisos, pinturas e argamassas colantes”, adverte o professor. As soluções químicas usadas nessa técnica de cura precisam estar em conformidade com as normas ASTM, pois a ABNT ainda não tem uma norma específica para os materiais.

CURA A VAPOR

A cura a vapor ocorre com aplicação de UR em 100% e temperatura controlada que fique acima da ambiente – até o máximo de 70º C. “A técnica é bastante comum em ambientes frios, como no sul do país, ou quando há muita pressa para realizar a desforma”, fala Helene, lembrando que o método foi muito usado na cura de lajes durante a década de 70. “No entanto, raramente é realizado atualmente”, completa.

O procedimento usa o princípio da maturidade para alcançar altas resistências a baixas idades. Por isso, não é aconselhável quando se deseja resistência elevada à abrasão ou durabilidade da superfície.

CURA TÉRMICA

A cura térmica segue o mesmo princípio de maturidade, mas é empregada em peças pré-moldadas. O procedimento demora horas e também não deve ser realizado se o produto final precisar de resistência elevada à abrasão ou alta durabilidade de sua superfície.

CURA COM AGENTES INTERNOS

O uso de agentes internos, como os aditivos, é alternativa que exige cuidados. “Porque a eficiência é relativa, pois as faces expostas a ambientes muito secos e com vento podem ser prejudicadas na abrasão e na durabilidade, apesar de o restante da massa estar bem curada e ter alta resistência e durabilidade”, destaca o docente.

O papel das fôrmas na cura do concreto

As próprias fôrmas usadas para moldar as estruturas de concreto protegem as superfícies contra dessecação prematura e funcionam como procedimento de cura. Em muitos casos em que a desforma ocorre de maneira precoce, é necessário aplicar algum dos métodos de cura até que a estrutura alcance os 15 MPa.

Normas técnicas para cura do concreto

O Brasil ainda não tem norma técnica específica para os métodos de cura do concreto. No entanto, os procedimentos são citados e exigidos pela ABNT NBR 14931 – Execução de Estruturas de Concreto – Procedimentos. “Existem também as normas internacionais, como a norte-americana ACI 308”, finaliza Helene.

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Colaboração técnica

Paulo Helene – Engenheiro Civil, especialista em “Patología de las Construcciones”, pelo Instituto Eduardo Torroja. Tem PhD e pós-doutorado pela University of Califórnia, Berkeley. É professor titular da Universidade de São Paulo, educador, investigador renomado e respeitado consultor de estruturas de concreto. É diretor da PhD Engenharia, conselheiro permanente do Instituto Brasileiro do Concreto (Ibracon) e presidente honorífico da Alconpat Internacional. Autor e coautor de 15 livros sobre concreto, reabilitação de estruturas, corrosão e materiais, supervisor de 29 teses de doutorado e 45 de Mestrado, conferencista convidado, membro de comitê editorial e científico de revistas e congressos.