Dispositivos vestíveis elevam segurança e produtividade da construção civil

Com uso incipiente no Brasil, wearables podem ser incorporados a roupas, capacetes e acessórios. Saiba mais

Publicado em: 06/05/2021Atualizado em: 07/05/2021

Texto: Juliana Nakamura

Dispositivos vestíveis (wearable technology)
Os capacetes podem ser equipados com GPS, sensores de temperatura corporal e outras tecnologias (Foto: Gorodenkoff/Shutterstock)

A tecnologia vestível (wearable, do termo em inglês) abrange um conjunto de dispositivos eletrônicos, especialmente câmeras e sensores, que podem ser incorporados a roupas, capacetes, relógios e outros acessórios, para gerar uma série de informações de saúde e localização, bem como facilitar a comunicação.

Na construção civil, a principal aplicação desta tecnologia é na proteção dos operários, compondo a nova geração de EPIs (equipamentos de proteção individual). Os vestíveis também podem ser utilizados para incrementar a produtividade, a economia e a eficiência. Esse é o caso dos capacetes com câmeras acopladas, que permitem o acompanhamento remoto de projetos através de imagens em 360º, já utilizados no Brasil.

MÚLTIPLOS RECURSOS

Em mercados mais desenvolvidos, como Estados Unidos e Japão, os wearables começaram a ser utilizados por outras indústrias até chegar à construção civil e pesada. Entre os exemplos estão os óculos de realidade mista que permitem aos profissionais visualizar, dentro de uma estrutura pronta ou em construção, desenhos em 3D da planta e comparar um projeto salvo no BIM (Building Information Modeling).

Há, também, as botas de segurança com sensores acoplados. Desenvolvidos inicialmente para aplicações militares, esses calçados podem incorporar GPS (sistema de posicionamento global), RFID, Wi-Fi e altímetro, entre outros recursos.

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CAPACETES DO FUTURO

Mas o maior potencial de aproveitamento da tecnologia vestível na construção está na conversão de capacetes em devices inteligentes. Esses acessórios podem, por exemplo, coletar informações como localização, temperatura corporal, cansaço ou níveis de estresse do usuário durante o trabalho. Esses dados, quando repassados a um sistema de informações e gestão em tempo real, pode auxiliar a tomada de decisão ágil para evitar acidentes.

Quando possuem GPS, os capacetes são capazes de emitir alertas caso o colaborador entre em local não autorizado. O EPI pode contar, também, com câmera de alta resolução 3D permitindo ao trabalhador documentar suas atividades. Os modelos mais avançados possibilitam ao usuário, ainda, atender a chamadas sem ter que remover luvas, protetores auriculares ou o próprio capacete.

Especialmente para atividades que envolvem risco elevado, os capacetes podem elevar a segurança ao incorporar sensor para detecção de monóxido de carbono, reduzindo a oportunidade de envenenamento pelo gás tóxico imperceptível ao olfato humano.

DESAFIOS PARA IMPLANTAÇÃO

Diferente de outras tecnologias, como os drones e os softwares de gestão que já são utilizados em muitos canteiros, os vestíveis ainda têm aplicação tímida na construção civil brasileira. “O setup, ou seja, a entrada da tecnologia na obra, ainda é uma barreira”, comenta o engenheiro Diego Mendes, diretor de operações na Trutec. Segundo ele, é necessário encontrar maneiras de introduzir essas novas soluções de forma paralela com o modelo atual, de forma a minimizar atritos na implantação e gerar valor aos usuários. Outro complicador é que os vestíveis demandam uma logística de distribuição que os softwares, por exemplo, não exigem.

Se antes era preciso desembolsar 5 mil ou 6 mil reais para ter uma boa câmera, hoje conseguimos adquirir um equipamento equivalente por pouco mais de 600 reais
Diego Mendes

Além disso, à medida que os dispositivos vestíveis ingressam no local de trabalho, eles impõem uma série de desafios de segurança e privacidade para os departamentos de TI, especialmente quanto ao manejo de dados pessoais confidenciais.

Ainda assim, Mendes percebe um crescente interesse pelos vestíveis, impactado pelo custo cada vez mais acessível dos dispositivos. “Se antes era preciso desembolsar 5 mil ou 6 mil reais para ter uma boa câmera, hoje conseguimos adquirir um equipamento equivalente por pouco mais de 600 reais”, compara o executivo da Trutec.

CASE DE APLICAÇÃO

A construção do Yachthouse Residence Club, arranha-céu com 81 pavimentos em construção em Balneário Camboriú (SC), tem utilizado capacetes sensoriados para o monitoramento de 55 trabalhadores que atuam em áreas de risco. A iniciativa é fruto de um projeto-piloto desenvolvido pelo SESI (Serviço Social da Indústria) e a Fiesc (Federação das Indústrias de Santa Catarina), em parceria com a construtora Pasqualotto & GT.

Além dos capacetes, a iniciativa contempla um software e um aplicativo que permitem a realização de checklists, a gestão dos equipamentos de proteção individual e o recebimento de alerta de risco. De acordo com as primeiras avaliações da construtora, a tecnologia agregou maior conscientização dos trabalhadores que se tornaram mais cautelosos porque sabem que estão em constante monitoramento.

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Colaboração técnica

Diego Mendes
Diego Mendes — Engenheiro civil e analista de sistemas, é diretor de Operações da Trutec.