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Distribuidoras de energia sofrem com queda no consumo

Prejuízo da energia contratada acima da demanda só é repassado ao consumidor se a variação for inferior a 5%. Do contrário, distribuidora deve arcar com o dano

Publicado em: 28/11/2017Atualizado em: 07/10/2019

Texto: Redação AECweb/e-Construmarket

A crise que afeta a economia nacional também impacta a matriz energética do país. O setor havia se preparado para um crescimento do consumo energético de 2,5% anuais no período de 2014 a 2019, porém a recessão trouxe um cenário totalmente diferente do esperado: o consumo real diminuiu 0,2% entre 2014 e 2016. Com a desaceleração, os distribuidores têm de administrar toda a energia que havia sido contratada visando a atender a alta da demanda, mas que acabou ociosa. “Entretanto, isso não quer dizer que estamos com sobra de energia”, destaca Paulo Arbex, presidente da Associação Brasileira de Pequenas Centrais Hidrelétricas e Centrais Geradoras Hidrelétricas (Abrapch), lembrando que o governo continua mantendo as usinas térmicas funcionando.

A cada cinco anos, as distribuidoras de energia são obrigadas a realizar uma previsão de demanda para os anos seguintes. “Esse cálculo, apesar de possibilitar revisões periódicas, deve ser feito levando em consideração o nível de consumo em longo prazo”, comenta Arbex. Com base na projeção, as empresas enviam os dados para aprovação na Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e no Ministério de Minas e Energia. Após a liberação do poder público, a empresa está autorizada a adquirir a energia.

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Devido à recessão econômica, o consumo real de energia diminuiu 0,2% entre 2014 e 2016
(xuanhuongho/Shutterstock.com)

Como as empresas devem fazer previsões futuras, colocam na equação as perspectivas de crescimento ou retração do consumo. A regra do setor diz que, se a distribuidora compra 5% a mais de energia do que o necessário para atender a sua demanda, pode repassar esse valor para as tarifas. Porém, se a variação for superior a 5%, a empresa tem de arcar com o prejuízo. “Outra situação é se a distribuidora contrata apenas 90% do previsto para atender sua demanda. Se, no futuro, for necessário adquirir os outros 10% para manter o fornecimento, a diferença de preço também não pode ser repassada aos consumidores”, fala Arbex.

A ENERGIA OCIOSA

Existem duas situações atuais que causam o problema de energia ociosa. A primeira delas é a diminuição do consumo motivada pela redução da atividade industrial e comercial, resultando em uma queda vertiginosa da demanda. “Já a questão principal são os grandes consumidores que estão saindo do mercado regulado e partindo para o mercado livre. Com isso, normalmente, deixam de comprar energia da distribuidora e optam por quem oferece o menor preço”, destaca Arbex.

Energia é um bem difícil de ser estocado a custo razoável. Grandes baterias de lítio são muito caras, além do enorme problema ambiental criado durante o procedimento de descarte do material
Paulo Arbex

Nesse caso, a distribuidora que havia contratado certa quantidade de energia perde clientes e precisa arcar com o prejuízo. A opção de armazenar o excedente para uso futuro é praticamente inviável. “Energia é um bem difícil de ser estocado a custo razoável. Grandes baterias de lítio são muito caras, além do enorme problema ambiental criado durante o procedimento de descarte do material”, diz.

FONTES ALTERNATIVAS

Segundo o especialista, a energia eólica não resolveu a demanda da região Nordeste do Brasil. Ao contrário, acabou agravando. “O preço da energia no Nordeste é o mais alto de todo o país, pois a geração eólica tem intermitência horária, ou seja, quando o vento está abaixo de 11 km/h, não tem força suficiente para gerar energia elétrica na maioria das turbinas”, explica. Cada vez que a fonte eólica falha, é preciso acionar as hidrelétricas ou térmicas para manter a distribuição de eletricidade. “O mesmo acontece com a geração solar. Essas fontes são complementares e não devem ser usadas como base do sistema”, ressalta.

De acordo com Arbex, a melhor maneira de se estocar energia é com água no reservatório de hidrelétricas. “Nos últimos dez anos, o Brasil multiplicou por nove as emissões de gases de efeito estufa provenientes de nosso setor elétrico. Isso por não investir em hidrelétrica. Temos a oportunidade de mais do que dobrar nossa capacidade instalada, mas não aproveitamos”, lamenta.

SOLUÇÃO

Para resolver o problema da energia ociosa, a fórmula mais correta seria o ajuste do modelo do setor, retirando de uma vez o risco das distribuidoras. “Elas poderiam ficar restritas à prestação de serviços para o setor elétrico, saindo de sua alçada a compra de energia”, recomenda o especialista. Já o governo passaria a ser o responsável pela compra da energia através de leilões. Em outras palavras, o poder público investiria na eletricidade, deixando-a disponível para a população; e as distribuidoras receberiam a tarefa de fazer essa energia chegar até a casa dos consumidores.

O problema da sobra de energia física no sistema, causada pela desaceleração econômica, só deve ser sanado com a retomada do crescimento do país
Paulo Arbex

“Já o problema da sobra de energia física no sistema, causada pela desaceleração econômica, só deve ser sanado com a retomada do crescimento do país”, finaliza Arbex.

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Colaboração técnica

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Paulo Arbex – Bacharel em Ciências Econômicas pela Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP) com especialização em Investment Banking e Project Finance em cursos de especialização ministrados pela Kellog University (Chicago), Babson College (Cambridge), Bank of Boston (Boston) e Deutsche Bank (Frankfurt). Atualmente, é sócio diretor da empresa Eninsa e atua na Abrapch desde a fundação da associação.