É preciso adotar estratégias para a ventilação natural dos corporativos

Muito além de recursos de renovação e filtragem do ar, há várias soluções de projeto e tecnologias que podem promover a qualidade do ar dos ambientes internos

Publicado em: 02/08/2022Atualizado em: 05/08/2022

Texto: Redação AECweb/e-Construmarket

foto da fachada de um edifício que tem plantas nas janelas
(Foto: Shutterstock)

Da Síndrome do Edifício Doente, identificada nos anos 1980 pela Organização Mundial da Saúde (OMS), aos dias atuais, sob o impacto da Covid-19, permanece em pauta a qualidade do ar nos ambientes internos, especialmente dos edifícios corporativos.

Na contramão das recomendações de especialistas quanto à importância da ventilação natural, prevaleceram nas últimas décadas as fachadas cortinas lacradas. Há, porém, recursos para garantir a boa qualidade do ar interno, inclusive compatibilizando com conforto acústico.

A arquiteta e pós-doutora em conforto ambiental Ana Judite Galbiatti Limongi França, pesquisadora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP e do CNPq, lembra que as edificações corporativas devem oferecer as adequadas condições de eficiência, segurança e salubridade.

“Um dos requisitos fundamentais para tal é prover boa qualidade do ar nos ambientes internos”, aponta. Caso contrário, como mostrou o documento da OMS, seus ocupantes poderão apresentar problemas de saúde, como os respiratórios, fadiga, dor de cabeça e náuseas.

Cultura das fachadas lacradas

A arquiteta avalia que as edificações com envoltórias de vidro climatizadas se popularizaram como solução arquitetônica, porque promovem a imagem corporativa supostamente associada a tradicionais distritos financeiros em países de clima frio. Foram adotados partidos arquitetônicos, sem a devida reflexão quanto às especificidades climáticas locais.

“Frequentemente, lajes corporativas são alugadas para abrigarem filiais de empresas multinacionais. Nesses casos, os responsáveis pelo processo decisório não necessariamente conhecem a realidade climática brasileira e, muitas vezes, optam por edificações com as quais se identificam culturalmente”, observa.

Soma-se a existência de uma cultura material relacionada ao código de vestuário, pouco adequado ao clima, o que torna convenientes os ambientes internos com temperatura estável.

Para o desenvolvimento imobiliário, essa arquitetura de fachadas é oportuna ao possibilitar um projeto de esquadrias mais simplificado, que não apresente componentes construtivos relacionados a sistemas de ventilação integrados a soluções para absorção sonora ou elementos externos de controle solar.

“Cabe lembrar, ainda, que vivemos uma ‘cultura do ar-condicionado’, na qual as pessoas estão perdendo a capacidade de adaptação às variações naturais de temperatura do ambiente externo. Isso traz grandes impactos negativos financeiros, à saúde do usuário e ao meio-ambiente”, acrescenta Limongi.

Ventilação natural ou híbrida

Segundo a especialista, uma das estratégias para a eliminação de substâncias nocivas à saúde presentes no ar de ambientes internos é intensificar suas taxas de renovação de ar e o nível de filtragem, mesmo em locais que possuem sistemas mecânicos de climatização. Porém, ambas as medidas implicam o aumento do consumo de energia, tanto pela maior resistência para a passagem do ar gerada pelos filtros mais eficientes, quanto pelo aumento do volume de ar a ser condicionado.

“Por outro lado, estratégias passivas para a ventilação consistem em recurso fundamental a ser explorado em projeto. Promovem a renovação do ar e, consequentemente, a remoção de poluentes, patógenos e cargas térmicas indesejadas, dispensando o uso de sistemas mecânicos consumidores de energia elétrica”, defende Limongi.

Ela adverte que é preciso ter cautela ao generalizar estratégias de projeto, devido às dimensões continentais do Brasil. Mas, independentemente da região do país, a ventilação natural é um importante recurso, devendo ser adequadamente dimensionada. Pode, inclusive, ser integrada a sistemas híbridos, combinando, por exemplo, a operação das aberturas da envoltória, o acionamento de um sistema de ventilação mecânica auxiliar e o sistema de condicionamento de ar para conforto.

“Além de promover a qualidade do ambiente interno por meio da renovação do ar, a ventilação natural também contribui para o conforto psicofisiológico do usuário. Nesse caso, a sensação do deslocamento de ar sobre a pele consiste em fenômeno indutor do bem-estar, por seu efeito aliestésico”, fala.

Estratégias de projeto e tecnologias

Há várias abordagens para incorporar a ventilação às envoltórias de edifícios corporativos, como as fachadas ventiladas. “Nelas, os elementos para condução dos fluxos de ar e para sombreamento são dispostos de modo afastado das áreas envidraçadas do prédio, permitindo assim o fluxo de ar entre estes dois sistemas construtivos”, detalha Limongi.

Outra abordagem inclui a integração entre as áreas envidraçadas e o sistema de ventilação natural na própria fachada, de modo a permitir a renovação de ar pelo peitoril ou pelos perfis dos caixilhos.

Além de promover a qualidade do ambiente interno por meio da renovação do ar, a ventilação natural também contribui para o conforto psicofisiológico do usuário
Ana Judite Galbiatti Limongi França

Entre as soluções disponíveis para o tratamento da envoltória, utilizando sistemas de ventilação integrados a tratamentos acústicos, a arquiteta recomenda os peitoris ventilados. “São sistemas construtivos usualmente compostos por um perfil de concreto no formato de ‘L’ invertido, com suas faces internas revestidas por material absorvente”, expõe.

As esquadrias ventiladas também são opção interessante. Envolvem aberturas para a passagem do vento nos perfis, tratados com material adequado para a absorção sonora de modo a evitar a propagação indesejada de ruído pela abertura.

“Em ambos os casos, pode-se prever um sistema interno de abertura e regulagem do fluxo de ar, por meio do direcionamento de aletas”, complementa. As esquadrias ventiladas, embora disponíveis na Europa e América do Norte, não são regularmente comercializadas no Brasil. O possível motivo, de acordo com a arquiteta, é a necessidade de maior engajamento por parte dos projetistas e empreendedores quanto à incorporação de sistemas de ventilação natural em projetos de edifícios verticalizados.

Varandas nos escritórios

A varanda pode ser um recurso muito benéfico em um ambiente corporativo, do ponto de vista de integração dos ambientes interno e externo. Porém, a existência da varanda em si não garante a adoção mais frequente da ventilação natural. “Em primeiro lugar, é necessário dimensionar adequadamente em projeto o(s) sistema(s) de condicionamento de ar e/ou ventilação”, diz.

Por exemplo: caso o edifício disponha também de sistema de ar-condicionado, ele deve estar preparado para operar de modo misto, por meio da incorporação de recursos de automação, que determinem o desligamento dos sistemas mecânicos quando as portas estiverem abertas.

Também é necessário resolver o layout de modo adequado. Há situações em que as condensadoras de ar-condicionado ocupam a varanda, consistindo em fontes de ruído e vibração, obrigando o fechamento das janelas para garantir o isolamento sonoro.

“Outro aspecto a ser considerado é o dimensionamento e o posicionamento das aberturas, de modo a oferecer condições eficientes de deslocamento de ar nos ambientes internos”, ressalta. Caso a própria laje da varanda seja concebida como uma proteção solar, é necessário dimensionar adequadamente os elementos da envoltória, em função, por exemplo, da orientação do prédio. Se a varanda e os vãos não forem adequadamente posicionados, os acessos à varanda possivelmente serão mantidos fechados, para controlar o excesso solar por meio de persianas, por exemplo.

“Enfim, as varandas podem ser uma excelente estratégia e melhorar consideravelmente a ambiência do ambiente corporativo. Mas devem ser concebidas de modo integrado aos demais elementos construtivos da envoltória, de forma a prover condições adequadas de conforto térmico, acústico e de iluminação nos ambientes internos”, ensina Limongi.

O papel dos arquitetos

Mesmo com todos os alertas impostos pela pandemia do SARS-CoV-2, não se verifica o debate da importância da ventilação natural nos edifícios corporativos. “Em alguns prédios existentes, houve preocupação de oferecer ambientes internos mais saudáveis aos usuários. Porém, por vezes, as adequações implementadas ficam restritas a alterações de layout e ajustes nas taxas de renovação de ar e de filtragem em sistemas mecânicos centrais”, frisa.

Já as mudanças de maior impacto, como a adoção de sistemas mistos para ventilação e condicionamento de ar, que permitam a abertura das janelas, por exemplo, não têm sido objeto de consideração.

As varandas podem ser uma excelente estratégia e melhorar consideravelmente a ambiência do ambiente corporativo
Ana Judite Galbiatti Limongi França

Limongi entende que os profissionais responsáveis pelo desenvolvimento dos projetos podem assumir protagonismo importante, propondo soluções que envolvam a ventilação natural da envoltória. E mais, que induzam os fornecedores de componentes construtivos a ofertar produtos, no Brasil, que atendam a esses requisitos de projeto.

“Embora com consequências menos abrangentes que as infligidas pela Covid-19, outros eventos epidêmicos envolvendo doenças respiratórias têm sido verificados nas últimas décadas, como o surto de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS), em 2003, e os de influenza A, causada pelos vírus H5N1 (2005) e H1N1, em 2009-2010. Portanto, considerando o ambiente corporativo inserido em um contexto globalizado, com grande mobilidade de pessoas concentradas em centros urbanos, é fundamental projetar edificações de modo a priorizar as condições de salubridade do ambiente interno”, conclui a especialista.

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Colaboração técnica

 
Ana Judite Galbiatti Limongi França – É Arquiteta e Urbanista pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo – FAU-USP (1996), com mestrado (2011) e doutorado (2016) na área de Tecnologia da Arquitetura na mesma instituição. Ali, concluiu o pós-doutorado (2019) dedicado à pesquisa do desempenho de estabelecimentos assistenciais de saúde (EASs), com ênfase em conforto ambiental. Foi docente do Departamento de Tecnologia da Arquitetura da FAU-USP, onde desenvolve pesquisa de pós-doutorado dedicada a avaliar os efeitos do ambiente construído na saúde do ser humano. Participa do Grupo de Pesquisa constante do diretório CNPq.
LinkedIn: Ana Judite Limongi França