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É preciso cuidar da qualidade do ar interno para preservar a saúde

Entrevista com o engenheiro Leonardo Cozac, diretor de Operações e Finanças da Associação Brasileira de Refrigeração, Ar condicionado, Ventilação e Aquecimento (Abrava)

Publicado em: 21/06/2022Atualizado em: 22/06/2022

Texto: Redação AECweb/e-Construmarket

foto de um banheiro decorado
Leonardo Cozac fala sobre a participação de especialistas em saúde na formulação do Plano Nacional da Qualidade do Ar Interno (PNQAI) (Foto: Pavel Adashkevich/Shutterstock)

Desde a chegada do SARS-CoV 2, em 2020, teve início uma série de recomendações em relação à qualidade do ar interno. Ficou claro que é preciso ventilar os ambientes para evitar a contaminação com esse ou qualquer outro vírus. Nesta entrevista ao portal AECweb, Leonardo Cozac fala sobre a participação de especialistas em saúde na formulação do Plano Nacional da Qualidade do Ar Interno (PNQAI), indica as melhores soluções e dá detalhes acerca da lei que obriga edifícios de uso público e coletivo a implementar o Plano de Manutenção Operação e Controle (PMOC).

AECweb – A pandemia da Covid 19 disparou o alerta quanto à qualidade do ar em ambientes fechados e condicionados artificialmente?

Leonardo Cozac – O surgimento do SARS-CoV2 fez aumentar o entendimento de que existem patógenos transmitidos pelo ar. O alerta é que em ambientes sem ventilação ou filtração do ar adequada aumenta-se o risco de contaminação. Levando em conta que uma pessoa adulta respira cerca de 10 mil litros de ar por dia, e permanece em ambientes fechados cerca de 90% deste tempo, os adventos dos últimos tempos chamaram a atenção da sociedade para a importância de se respirar um ar livre de impureza.

AECweb – Quais as melhores soluções para os ambientes fechados?

Cozac – Qualquer ambiente precisa ser bem ventilado, de maneira natural ou mecânica. A ventilação natural precisa ser pensada no projeto arquitetônico da edificação, como por exemplo, janelas largas em faces opostas no ambiente. Já a ventilação mecânica pode ser feita por equipamentos como ventiladores, projetados para essa finalidade. A vantagem da ventilação natural é a redução do consumo energético, mas com a desvantagem de fatores externos como temperaturas extremas, ruído e poluição. Sistemas de ventilação mecânicos, com ar-condicionado ou não, devem ter filtros de ar para tratamento do ar externo em relação a contaminantes atmosféricos.

AECweb – Como a participação de especialistas, como os médicos Gonzalo Vencina e Paulo Saldiva, vem colaborando com esse debate?

Cozac – São dois profissionais reconhecidos pela sociedade brasileira, que entenderam o risco de ambientes com baixa qualidade do ar. Eles colaboraram na criação do Plano Nacional da Qualidade do Ar Interno (PNQAI), no âmbito da Abrava. Validaram o planejamento, bem como contribuíram com caráter técnico científico do ponto de vista da saúde. Por serem formadores de opinião, podem também ajudar na disseminação da importância de cuidar adequadamente do ar que a sociedade respira em ambientes fechados.

AECweb – O que diz a Lei 13.589/18 sobre a qualidade do ar em edifícios de uso público e coletivo?

Cozac – Essa lei é muito clara ao exigir que todos os edifícios de uso público e coletivo devem ter um Plano de Manutenção Operação e Controle, o chamado PMOC. Trata-se do conjunto de documentos onde constam todos os dados da edificação, do sistema de climatização, do responsável técnico, bem como procedimentos e rotinas de manutenção comprovando sua execução. O objetivo dessa ação é garantir um ambiente com boa qualidade do ar. Isso porque sistemas de climatização dentro das normas técnicas exigentes colaboram na redução de riscos de contaminação dos usuários. A Abrava produziu uma cartilha didática a respeito do tema. Clique aqui para conferir.

AECweb – É possível avaliar se essa determinação está sendo cumprida?

Cozac – Existem alguns dados publicados relativos a 2018 pelos sistemas de vigilância sanitária, que mostram a evolução da fiscalização em ambientes climatizados. Foram inspecionados 386 estabelecimentos, sendo que 167 receberam termos de intimação e 95 receberam autos de infração. Existem dados mais recentes do Ministério Público do Trabalho, mas que ainda não foram tornados públicos. Por outro lado, percebemos um aumento na demanda por PMOC e de laudos emitidos sobre a qualidade do ar interno.

AECweb – O que deve ser feito para a melhoria do ar interno dos ambientes?

Cozac – A estratégia ideal é implantar um programa de gestão da qualidade do ar interno, introduzindo uma metodologia de avaliação de risco da edificação, com posterior plano de ação para mitigação dos riscos encontrados. Nesse plano, é preciso incluir definição de líderes, capacitação, monitoramento e avaliação dos resultados obtidos.

AECweb – Como é feita a avaliação de risco da edificação?

Cozac – São avaliados todos os potenciais riscos à saúde das pessoas que podem acontecer dentro de um edifício. E, ainda, como está a manutenção do sistema de climatização, processo de limpeza das superfícies, se produtos químicos usados estão emitindo gases perigosos e se há contaminantes do ar atmosférico. Após essa análise verifica-se as medidas de proteção adotadas, se são satisfatórias ou não.

AECweb – Qual o peso das políticas públicas, de um lado, e da iniciativa privada, de outro, para garantir a boa qualidade do ar nos edifícios?

Cozac – São dois pesos importantes nesse debate. Ambos os lados têm suas competências, porém, ainda muito pouco tem vindo do poder público. Defendemos algumas políticas públicas que poderiam ser adotadas: melhorar a comunicação de como a população pode se proteger dentro de ambientes fechados em épocas com ar mais poluído (maio a julho); fornecimento de sistemas de exaustão de baixo custo para quase 30% da população que usa o fogão a lenha para cocção; gestão dos dados já existentes da QAI, ainda não organizados. E, por fim, melhorar a renovação e filtração de ar em salas de aula.

AECweb – Como funciona a Calculadora da Qualidade do Ar, recém-lançada pela Abrava?

Cozac – É uma ferramenta para verificar o tempo de permanência e número de pessoas que podem ficar dentro de um ambiente, com menor risco de transmissão do vírus da Covid-19 pelo ar. A viabilização da Calculadora é mais uma prestação de serviço público promovida pela Abrava, disponibilizada online e gratuita, simples e objetiva. Pode ser utilizada por qualquer pessoa, pois, para o cálculo da QAI de um ambiente, basta inserir as informações, como a quantidade de pessoas e seu perfil de ocupação, e as especificações das instalações. É só entrar neste link.

AECweb – Qual a mensagem que você passa para sociedade sobre a qualidade do ar interno?

Cozac – Da mesma maneira que cuidamos dos alimentos e da água que consumimos, temos que cuidar do ar que respiramos. Com pequenas intervenções em um ambiente é possível conseguir a melhora da qualidade do ar, como por exemplo, a diluição de um ar contaminado através da sua renovação e circulação no ambiente. Ações como essa podem garantir índices satisfatórios dos parâmetros de qualidade do ar interno, que afetam desde o bem-estar e a produtividade até o absenteísmo das atividades no dia a dia.

Colaboração técnica

Leonardo Cozac – Engenheiro Civil e de Segurança do Trabalho, formado pela Universidade Paulista, e consultor Certificado de Qualidade do Ar de interior pela ACAC – American Council for Accredited. É diretor de Operações e Finanças da Associação Brasileira de Refrigeração, Ar condicionado, Ventilação e Aquecimento (Abrava); participante do Green Building Council – Divisão Qualidade de Ar de Interiores; ex-presidente do Qualindoor – Departamento Nacional de Qualidade do Ar de interiores da ABRAVA; CEO da Conforlab Engenharia Ambiental e presidente da Sociedade Brasileira de Meio Ambiente e Controle de Qualidade do Ar de Interiores (Brasindoor) e do Plano Nacional de Qualidade do Ar Interno (PNQAI).