É preciso muito planejamento para construir em terreno com pouco espaço

Os desafios da execução de obras em terrenos exíguos encontram as melhores soluções no desenvolvimento da engenharia e no planejamento logístico apurado. Saiba mais a seguir

Publicado em: 14/09/2022

Texto: Redação AECweb/e-Construmarket

foto de um localizador em cima de um terreno
(Foto: Puttachat Kumkrong/Shutterstock)

As maiores dificuldades enfrentadas na execução de obras em terrenos pequenos, de acordo com o engenheiro Gustavo Martins, superintendente de Obras da Eztec, são o acesso ao canteiro e o recebimento, armazenamento, descarte e içamento de material.

Para Carlos Edmundo Miller Neto, sócio-fundador e responsável técnico da Planservice Engenheiros Associados, “mais do que como a obra é feita, a preocupação do cliente é que ela atenda ao que foi projetado e não tenha problemas recorrentes ou decorrentes de canteiros bastante apertados”, diz.

Miller atua, no momento, em obras que são realizadas em prédios em funcionamento, como a reforma de um grande centro de distribuição refrigerado. “Ainda mais complexa é a construção de uma nova torre de um hospital, em São Paulo, pois está ligada ao corpo do prédio existente, com acesso restrito ao canteiro e prazo rígido”, diz.

“Nesse cenário, é necessário realizar um estudo minucioso para elaborar o layout do canteiro, considerando as diferentes fases da obra e formatando-o para que seja possível produzir espaço para etapas futuras”, indica Martins, acrescentando que é preciso investir em equipamentos que melhor se encaixem no plano de execução.

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O canteiro

Em obras com ampla área de canteiro, os containers – hoje mais leves, bem-acabados e com isolamento termoacústico – são usados para sediar as áreas operacionais. “Mas, em terrenos com pouco espaço, a primeira opção é alugar, se houver, uma casa ou terreno vizinhos ou próximos”, fala o arquiteto Ricardo Prado, gerente de Contratos da Planservice.

O engenheiro Paulo Henrique Ferreira, também gerente de Contratos da Planservice, conta uma experiência recente: “Trabalhei em obra hospitalar, em Campinas, onde a construtora implantou seu canteiro num estacionamento alugado a dois quarteiros da construção”. Segundo ele, pode acontecer, apesar de raro, de uma construtora utilizar o terreno no entorno do seu, de concorrente que ainda não iniciou sua obra.

Quando não há opção, a estratégia é acomodar as áreas administrativa, de engenharia e dos operários em containers provisórios e obter, se possível, liberações para avançar um pouco na calçada. Essa solução tem duração de cerca de seis meses, tempo necessário para a execução das escavações, contenções e fundações do subsolo, projetadas para a garagem do empreendimento.

“A prioridade, portanto, é fazer logo o subsolo, que será nosso pulmão. A área operacional sai dos containers e é transferida para o subsolo, permanecendo ali até a conclusão da obra, assim como a área de recebimento e armazenamento dos materiais”, diz Prado. Por questão de segurança e pela disponibilidade de pé-direito alto, é possível descer containers para guardar materiais mais caros comprados antecipadamente, como os elétricos. “Ou, depositar em local fora da obra, para evitar roubo”, acrescenta.

A prioridade é fazer logo o subsolo, que será nosso pulmão. A área operacional sai dos containers e é transferida para o subsolo, permanecendo ali até a conclusão da obra, assim como a área de recebimento e armazenamento dos materiais
Ricardo Prado

Martins comenta que, em contextos como esse, é necessário trabalhar com estoques menores e adotar algumas práticas: “O ideal é subir o material assim que chegar no canteiro, para que não seja necessário utilizar uma grande área para armazenamento. A solução mais indicada é combinar com os fornecedores o formato e o momento da entrega dos materiais, garantindo que sejam realizadas no tempo certo (just in time), otimizando o uso e o armazenamento dos elementos construtivos”.

Operação do maquinário

Em terrenos pequenos, o grande desafio é a colocação de maquinário no canteiro para a execução da obra. “O equipamento ideal é aquele que se encaixa nas necessidades específicas do canteiro em questão. Equipamentos que são úteis e viáveis em outros canteiros podem não ser os mais adequados para obras em espaços restritos”, aponta Martins, dando como exemplo a grua, que é uma ótima solução, mas que tem restrições de operação.

“Neste caso”, diz ele, “precisamos buscar substitutos para içamento de materiais como minigruas ou guindastes”. Eles devem ser posicionados estrategicamente para que não restrinjam outros acessos do canteiro. Isso vale para guinchos, que precisam ser dimensionados de acordo com a produtividade planejada.

Prado ressalta que as gruas são mais eficazes e transportam maior peso, porém, durante a operação, seus braços podem colidir com os prédios vizinhos quando a obra é feita em terreno pequeno. “O uso das minigruas combinado ao das cremalheiras cumpre bem a função, podendo, inclusive, operar durante a noite sem ruído”, explica Prado. O resultado dessa substituição mandatória de equipamentos é, segundo Ferreira, a queda na produtividade.

“Na obra que gerencio de ampliação de hospital, tínhamos somente uma via para entrada e saída de caminhões. Essa condição exigiu que o carregamento de terra fosse feito por um caminhão por vez. Enquanto isso, outro esperava em vaga locada na rua junto ao órgão de trânsito – no caso, a Companhia Estadual de Trânsito (CET)”, conta Ferreira.

Os desafios nessa obra, agora em fase de execução dos pavimentos, foram muitos. Miller conta que a escavadeira empregada para mover a terra dos quatro subsolos foi içada ao atingir determinada profundidade. As duas miniescavadeiras que substituíram o equipamento também foram içadas de grande altura no final do serviço, porque não tinha outro modo para serem retiradas.

“O limitador da retirada dos equipamentos nos obrigou a utilizar os menos adequados, o que resultou em menor produtividade. Tivemos que adotar o que era possível para operar dentro daquela área confinada, mas sem qualquer perda de qualidade para a obra, apenas com impacto no prazo para a execução do serviço”, comenta.

Nos empreendimentos de uso misto gerenciados por Prado, as limitações dos terrenos só permitiram o uso de um Clamshell, no lugar de dois ou mais, para a execução das paredes diafragma. “Isso deixou mais moroso o trabalho”, comenta. Para as fundações nessa e outras obras de condições similares, a opção tem recaído sobre as estacas do tipo barrete.

“Diante da falta de equipamentos suficientes no mercado para estacas escavadas, nossa engenharia está aproveitando o próprio Clamshell para fazer as estacas barretes, com maior agilidade no prazo. E, se em algum momento tiver que manter a estaca convencional escavada, posso substituir o rompedor pneumático pelo hidráulico, que é mais silencioso e preciso. Ou seja, com a inteligência da engenharia brasileira, as soluções são encontradas”, expõe Prado.

Boas práticas

Martins lembra que a construção é, em sua natureza, uma atividade que gera ruídos. “O cuidado mais importante a ser tomado é a conscientização de todos os envolvidos no projeto, equipe própria e terceiros, para que o trabalho seja realizado com qualidade e respeitando a comunidade ao redor, do começo ao fim”, recomenda.

O cuidado mais importante a ser tomado é a conscientização de todos os envolvidos no projeto, equipe própria e terceiros, para que o trabalho seja realizado com qualidade e respeitando a comunidade ao redor, do começo ao fim
Gustavo Martins

Os ruídos produzidos devem ser controlados e mitigados de forma a não causar transtornos para as equipes que trabalham na obra e vizinhança. “Além disso, é fundamental respeitar os horários permitidos e determinados para carga e descarga e se atentar a todas as normas e regulamentações que se aplicam ao projeto”, complementa.

Ações de sustentabilidade no canteiro são essenciais em qualquer tipo de obra, mas obrigatórias quando o empreendimento busca certificação de impacto ambiental. Nos pequenos terrenos, o lava-rodas é substituído pela lavagem com equipamento de alta pressão, menos rápido, porém eficiente. “Nesse tipo de canteiro, sai um caminhão por vez, portanto, a solução funciona”, diz Prado, acrescentando que o maior fiscal é a vizinhança.

“Mais do que uma exigência ambiental e dos vizinhos, os cuidados com os caminhões e os resíduos de obra são uma questão de consciência do pessoal do canteiro. Esses materiais contaminam e entopem a rede de esgoto e de águas pluviais”, complementa Ferreira, dizendo que a separação e destinação correta dos resíduos é, hoje, uma realidade encarada com responsabilidade pelas grandes construtoras. Martins acrescenta: “Uma obra limpa e com ruídos controlados se torna um ambiente muito mais seguro para todos”.

Colaboração técnica

Carlos Edmundo Miller Neto  – Engenheiro Civil pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (1979), com Especialização em Administração para Graduados, CEAG-FGV (1982). Sócio-fundador e Responsável Técnico da Planservice Engenheiros Associados, desde junho 1989, com atuação e direção de mais de 400 contratos de Gerenciamento de Obras e Projetos. Participa de entidades de classe, entre as quais o Instituto de Engenharia/ SP, AMCHAM – Câmara de Comércio Brasil - Estados Unidos/ SP e Royal Instituition of Chartered Surveyors/ Brazilian Chapter (RICS).
Gustavo Martins  – É engenheiro civil pela Escola Engenharia Mauá (1999) e pós-graduado em Gestão de Projetos pela mesma instituição (2008). Trabalha na Eztec desde agosto de 1998. Nesses 24 anos, se tornou Superintendente de Engenharia, tendo participado de marcos importantes para a companhia como a abertura de capital e a construção de edifícios residenciais e comerciais, utilizando diferentes métodos construtivos.
Paulo Henrique F. Penteado Ferreira – É engenheiro civil pela Universidade Federal de São Carlos (2006), com MBA em Real Estate – Economia Setorial e Mercados (2011). Desde 2008, é gerente de Contratos na Planservice, tendo atuado em grande número de obras de segmentos variados, desde hospitalar à industrial, residencial e hoteleiro, entre outros.
Ricardo Prado  – É Arquiteto pelo Centro Universitário do Triângulo - UNITri Uberlândia - MG (2008) e Member Certificate in Construction Project Management – Royal Institution of Chartered Surveyors - RICS (2015). É gerente de Contratos na Planservice, com atuação em obras de diversos segmentos, incluindo edifícios corporativos, residenciais e comerciais, entre outros.