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Economia de água no canteiro de obras

Monitoramento do consumo, sistema construtivo, conscientização e reuso são algumas medidas que podem ser incorporadas no dia a dia

Publicado em: 26/03/2015

Texto: Redação AECweb/e-Construmarket

O colapso dos reservatórios de água de São Paulo fez acender o sinal de alerta nos canteiros de obras. Preparando-se para um racionamento severo, um dos caminhos é se espelhar nas práticas dos empreendimentos que trabalham com certificações ambientais como LEED ou AQUA. “A começar pelo monitoramento do consumo de água no canteiro de obras, que deveria ser uma prática corrente”, declara a engenheira e doutora Ana Rocha Melhado, diretora da proActive Consultoria, especializada em Gestão de Projetos e Certificações Ambientais.

Segundo ela, a ação pode ser feita por meio da quantificação do consumo por metro quadrado de construção ou, de equipamentos mais sofisticados, responsáveis por fazer a medição de água setorizada. No primeiro caso, trata-se de ferramenta de gestão do canteiro. “Em uma tabela são inseridos mensalmente dados com os valores da conta de água paga versus metro quadrado de construção, número de operários e fase da obra”, explica.

Essa tabela gera um indicador e, caso o volume de água per capita cresça muito, é preciso verificar se há vazamentos ou se alguma atividade específica fez elevar o consumo. “Mas, se não houver justificativas reais, é o momento de intensificar as ações de sensibilização dos funcionários para o consumo consciente”, alerta Ana Rocha Melhado. Ao iniciar um novo canteiro que utiliza os mesmos métodos construtivos, a construtora tem a tabela como referência de consumo, uma meta de metros cúbicos consumidos por metro quadrado de construção.

Até um passado recente, as empresas se preocupavam com prazo, custo e qualidade da execução da obra. Agora, estamos trabalhando com um quarto pilar, que é o consumo consciente de recursos no canteiro, que vale para água e energia
Ana Melhado

CONSUMO DE ÁGUA CONSCIENTE

Ana Rocha ressalta que essas são práticas que podem ser adotadas pela construtora sem a necessidade do acompanhamento de uma consultoria especializada. Basta ter uma gestão sustentável de canteiro. “Até um passado recente as empresas se preocupavam com prazo, custo e qualidade da execução da obra. Agora, estamos trabalhando com um quarto pilar, que é o consumo consciente de recursos no canteiro, que vale para água e energia – tarefa assumida pelo engenheiro responsável pela obra. E que não depende de investimento, mas de uma nova prática gerencial no dia a dia do profissional”, explica.

SISTEMA CONSTRUTIVO

De acordo com a doutora, canteiros de obras no Brasil consomem muita água, porque o setor não tem a cultura de construção seca – estrutura metálica e placas de gesso acartonado. Ao contrário, os sistemas construtivos mais empregados no país – concreto, alvenaria assentada com argamassa e revestimento argamassado – usam muita água. “A crise hídrica pode contribuir para a mudança dessa cultura. Muitas construtoras têm nos procurado para obter um desempenho ambiental mais elevado e, ao mesmo tempo, encontrar meios para reduzir seu custo de construção”, relata.

Ana Rocha lembra que, nos últimos dois anos, o custo da construção se elevou ao incorporar índices de desempenho exigidos pela ABNT NBR 15575, até porque os materiais dotados de melhor desempenho têm, em alguns casos, custos mais elevados. Na verdade, comparar produtos que não atendem às normas técnicas com outros que atendem é irreal. Para equilibrar, é preciso empregar soluções mais caras – em um primeiro momento –, mas que se mostram econômicas a médio e longo prazo.

Canteiros de obras no Brasil consomem muita água porque o setor não tem a cultura de construção seca – estrutura metálica e placas de gesso acartonado. Ao contrário, os sistemas construtivos mais empregados no país (...) usam muita água
Ana Melhado

“Sempre existe a discussão: o que é mais barato, alvenaria ou drywall? A resposta imediata é alvenaria. Mas depende. Porque, se levarmos em consideração todo o processo de produção, incluindo, por exemplo, o componente água, esse entendimento poderá ser revisto. E não se trata apenas da falta de água, mas do preço da água que tende a ser cada vez mais caro”, alerta, e opina: “A construção civil no país não pode parar por conta da crise hídrica, o que precisamos é melhorar a nossa engenharia”.

LAVA-RODAS E LAVA-BICA

A exemplo da coleta seletiva, práticas como lava-rodas e lava-bicas, comuns em canteiros sustentáveis, deveriam ser obrigatórias por lei em todo canteiro do país. O consumo é pequeno nessas práticas e, em certos casos, trata-se de água não potável, de caminhão pipa adquirido das prefeituras, e recirculada. “Portanto, a crise hídrica não poderá ser usada como justificativa para evitar essas ações”, explica Ana Rocha Melhado. “Quando a roda do caminhão não é lavada, a sujeira e o concreto vão para a rua e os bueiros, provocando enchentes quando chove”. Vizinhos e transeuntes devem ser informados, por meio de placas nos canteiros, de que se trata de água de reuso.

Ana Rocha oferece o exemplo da obra de três torres residenciais do condomínio Maison D’Art Dalí, da construtora Rio Verde, em Limeira (SP), para dar uma ideia de volumes consumidos nessas práticas. “Para o lava-rodas, são empregados 20 m³/mês de água. Quando necessário, é feita a realimentação com 20% de água potável, em função da perda que ocorre no decorrer do processo. Já as bicas dos caminhões não são lavadas com a água da obra, mas com a do tanque de cada veículo, em um total de cerca de 14 m³/mês”.

POÇO ARTESIANO

A água de poço artesiano em obra só pode ser utilizada diante de autorização do poder público, ou seja, é preciso pedir licença para a perfuração e outorga para a exploração da água subterrânea. Sem isso, a fiscalização pode embargar a obra. “É preciso, ainda, avaliar a qualidade da água do poço artesiano para a cura do concreto armado, porque, se for inadequada, a estrutura de concreto será danificada”, alerta.

ÁGUA DA CHUVA

O aproveitamento da água pluvial é prática comum em canteiros sustentáveis, e, segundo a engenheira, deveria ser aplicado em todos. “Essa prática é indicada desde que tenha um funcionário responsável para cuidar do tratamento dessa água. O reservatório deve ser coberto, caso contrário, será um foco de dengue”, ensina. Ana Melhado alerta que dengue está presente em canteiro de obra porque a água acaba acumulada em pneus, resto de material, bloco e telha emborcada. “É preciso que o técnico de segurança e o engenheiro estejam atentos a isso”.

É interessante manter um programa de sensibilização, transparência e linguagem única voltado aos operários. Eles têm se revelado fortes aliados da redução do consumo de recursos. E levam essa cultura para suas casas
Ana Melhado

Quando o canteiro não dispõe de estação de tratamento de água pluvial, mas simplesmente armazena a chuva, outros cuidados devem existir, como descartar os primeiros cinco a dez minutos iniciais e utilizar filtros. Dependendo do uso, é preciso avaliar a qualidade da água, que nunca é potável. Mas é útil para lavar calçada ou molhar o solo, de maneira a reduzir a poeira do canteiro. “Na maioria das cidades, hoje, os empreendimentos precisam ter caixa de retenção. Quando é possível determinar a sua localização definitiva para a edificação, o ideal é que seja usada ainda na fase de obra, em lugar da provisória”, orienta.


Aproveitamento de água na pia nos mictórios da nova sede do SindusCon-BA.

METAIS SANITÁRIOS

Nos canteiros, é essencial que torneiras, chuveiros, bacias e mictórios tenham qualidade, sejam produzidos de acordo com as normas técnicas, que apresentem selo que atestem a sua qualidade – fornecidos preferencialmente por fabricantes participantes de Programas Setoriais da Qualidade Setorial vinculados aos PBQP-H, além de dotados de mecanismos de consumo controlado. “No caso das caixas de descarga com maior volume, de 12 ou 18 litros, é providencial colocar uma garrafa pet com areia dentro, para reduzir o consumo”, sugere Ana Rocha. Um bom projeto de canteiro deve incorporar ainda soluções que permitam que a água da pia seja direcionada ao mictório. Já a água do ar condicionado da área administrativa, quando aproveitada para limpeza de pisos e irrigação, pode gerar economia de 80% nessas tarefas.

“Finalmente, é interessante manter um programa de sensibilização, transparência e linguagem única voltado aos operários. Eles têm se revelado fortes aliados da redução do consumo de recursos. E levam essa cultura para suas casas”, conclui.

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Ana Rocha Melhado – Engenheira civil, doutora em Tecnologia e Gestão da Produção pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (POLI-USP); pós-doutorada em Gestão Ambiental de Bairros Sustentáveis pelo ISO 14001 e pelo processo de certificação AQUA-HQE, realizado em Paris, com supervisão da empresa de gerenciamento urbano Semapa e do Departamento de Engenharia de Produção da Escola Politécnica da USP. Professora Titular do Curso de Engenharia Civil da FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado) e diretora da proActive Consultoria, especializada em Gestão de Projetos e Certificações Ambientais.