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Em 15 anos de existência, o GBC Brasil certificou cerca de mil projetos

Entrevista com Felipe Faria, diretor-executivo do Green Building Council Brasil (GBC Brasil)

Publicado em: 23/02/2023

Texto: Redação AECweb/e-Construmarket

foto de um edifício com muita vegetação ao redor
(Imagem: Shutterstock)

Ao longo de seus 15 anos de história, a GBC Brasil já recebeu cerca de 2150 projetos buscando certificações e emitiu cerca de 1000 certificados. Contudo, de acordo com Felipe Faria, diretor-executivo da organização, o papel da GBC Brasil vai muito além de ser uma certificadora. “Nós somos um movimento”, defende. Para ele, a certificação é apenas uma das ferramentas de transformação de mercado utilizada. “Nesse período, transformamos a percepção de que uma construção sustentável custa mais caro”, completa o executivo. Em entrevista ao Portal AECweb, ele lembra que o movimento de edificações green building, caracterizado pela eficiência, conforto e sustentabilidade, cresceu até nos anos da pandemia. Veja, a seguir, o que a GBC Brasil já realizou e as novidades que estão por vir neste ano.

AECweb – Passado o pior da pandemia, a construção civil no Brasil retomou os projetos sustentáveis?

Felipe Faria – O movimento de edificações green building, caracterizado pela eficiência, conforto e sustentabilidade, cresceu até nos anos da pandemia. Em 2020 e 2021, houve um crescimento de 20% e, no ano passado, chegou a 37% o aumento no número de empreendimentos novos buscando as certificações promovidas pelo GBC Brasil. Obtivemos o nosso recorde histórico de registros, com 219 novos projetos. Chamou a nossa atenção a quantidade de empreendimentos novos nas cidades do interior e a contínua diversificação de tipologias. São projetos LEED em 241 cidades brasileiras e o GBC Casa & Condomínio em 61. As edificações comerciais continuam sendo o principal segmento, seguidas de logística e varejo. Em seguida, vem o segmento residencial.

AECweb – Qual o legado desses 15 anos do GBC Brasil para o setor?

Faria – O GBC Brasil não é uma certificadora, nós somos um movimento. Certificação é apenas uma das ferramentas de transformação de mercado que utilizamos. Ainda assim, é interessante registrar que foram mais de 2150 projetos buscando as certificações e cerca de 1000 certificados. Nesse período, transformamos a percepção de que uma construção sustentável custa mais caro. Depois, consolidamos o green building como o melhor modelo de negócio do mercado. Ou seja, a discussão sobre viabilizar custos foi superada e passamos a comprovar vantagens econômicas como o aumento de velocidade de ocupação e valorização do imóvel. A fase atual se caracteriza por uma maior avidez ao investimento em inteligência nos projetos, representada pela valorização da arquitetura e da engenharia.

O GBC Brasil não é uma certificadora, nós somos um movimento. Certificação é apenas uma das ferramentas de transformação de mercado que utilizamos
Felipe Faria

AECweb – O GBC desenvolveu novas estratégias para abordar a urgência de uma construção civil com menor impacto ambiental?

Faria – No World Green Building Council trabalhamos em projetos globais como o acelerador de edificações ‘net zero’ (Advancing Net Zero); projetos que buscam conscientizar e melhorar a saúde, conforto e bem-estar nos espaços construídos (Better Place for People); e o terceiro projeto criado em 2022 sobre economia circular (Circularity Accelerator). Em resumo, o projeto visa maximizar o valor da edificação ao longo do tempo, estimulando o uso de produtos e serviços duráveis feitos de material secundário, não tóxico, de origem sustentável ou renovável, reutilizável ou reciclável. Eficiência de espaço ao longo do tempo por meio de ocupação compartilhada, flexibilidade e adaptabilidade. Longevidade, resiliência, durabilidade e fácil manutenção, entre outros. A principal estratégia é o reconhecimento de que fazemos parte de um movimento de transformação, onde o maior atributo para o sucesso é a colaboração. Há uma forte rede colaborativa entre a iniciativa privada, associações de classes, academia, poder público, veículos de comunicação e sociedade civil organizada. Os desafios são assumidos e os resultados são alcançados por conta dos esforços coletivos.

AECweb – As ações que o Brasil e o mundo dedicam para salvar o Planeta impulsionam os programas de certificação LEED?

Faria – Todas as discussões atuais referentes ao movimento ESG, mudanças climáticas, objetivos de desenvolvimento sustentável das Nações Unidas, quando direcionadas à construção, impulsionam o movimento de green building. Impactamos ao menos 11 dos 17 objetivos de desenvolvimento sustentáveis e diversas práticas nas certificações de green building contribuem para aspectos de planejamento urbano. É o caso do controle de poluição em canteiro, restaurar e preservar o habitat, descontaminação de terrenos, recuperação de área pré-desenvolvida, edificações de uso misto, maximizar espaços abertos e de convívio público, priorização do pedestre, estímulo ao transporte de baixa emissão, estímulo ao uso do transporte coletivo, retardar o efeito enchente, evitar a poluição luminosa e reduzir o efeito ilha de calor.

Todas as discussões atuais referentes ao movimento ESG, mudanças climáticas, objetivos de desenvolvimento sustentável das Nações Unidas, quando direcionadas à construção, impulsionam o movimento de green Building
Felipe Faria

AECweb – Até que ponto o grande número de novas obras nas cidades brasileiras se pauta por boas práticas?

Faria – Boas práticas estão se difundindo independentemente de uma obra buscar certificações. Refiro-me à adoção de tecnologias para uso eficiente da água, metodologias de processos construtivos industrializados com baixa geração de resíduos, geração de energia renovável, declaração ambiental de produto. Enfim, não mapeamos esses resultados colaterais do movimento de green building. Mas temos um dado interessante a compartilhar acerca dos empreendimentos brasileiros certificados LEED em 2022. Considerando a modalidade de certificação para novas construções, foram 86 projetos certificados, sendo que 19 alcançaram o mais alto nível do LEED, o Platinum. Com 22% de certificação Platinum, o Brasil ficou atrás apenas da Índia (26%), e à frente de Itália, Espanha, Alemanha e Emirados Árabes. Lembrando que o Platinum requer níveis de desempenho bem acima do que estabelecem as normas técnicas que disciplinam os diversos sistemas de uma edificação.

AECweb – Há diferença ente a adoção pelas incorporadoras e construtoras da agenda ESG com construções efetivamente sustentáveis?

Faria – Seja no movimento de ESG ou de edificações green building, o importante é apresentar compromissos com um plano de ação e indicadores. E avançar rapidamente para um segundo momento de apresentação de resultados. Até na divulgação de empreendimentos que se destacam por conta da certificação, nós buscamos evidenciar os resultados. Recentemente, certificamos o primeiro prédio residencial no nível Platina do GBC Condomínio, o Edifício Idea Bagé da Capitânia, em Porto Alegre.

AECweb – E quais foram os resultados?

Faria – O edifício investiu em simulações diversas, visando alta eficiência energética (40%) e conforto (desempenho superior segundo a norma técnica). Gera 100% da energia da área comum e 1/3 das áreas privativas. Cerca de 70% da demanda de água quente no ano será fornecida por painéis solares. Captação de água de chuva e da condensadora do ar-condicionado que, combinado com duas cisternas para estocagem, elimina a necessidade de água potável para a limpeza e irrigação do prédio. Tecnologia de medição e gestão de consumo de água, energia e gás a serviço dos moradores durante a operação. Resumindo, uma edificação que devolve aos moradores cerca de 10 mil reais ao ano com reduções de despesas condominiais.

AECweb – A certificação GBC Casa & Condomínio é a mais próxima dos programas de habitação popular?

Faria – Essa certificação está nos ajudando a ingressar no segmento residencial. Já são cerca de 130 projetos em 61 cidades brasileiras. A maioria dos empreendimentos são de alto padrão, mas temos um conjunto habitacional certificado. O que tem aproximado este movimento de programas de habitação popular é o avanço das metodologias construtivas industrializadas, bem como ações de incentivo financeiro. A Casa & Condomínio segue o modelo da certificação LEED, mas as normas referenciadas são nacionais. E no que tange às certificações, também destaco o trabalho desenvolvido pela Fundação Vanzolini (certificação AQUA) e o Selo Azul da Caixa Econômica Federal.

AECweb – Quais as iniciativas do GBC para o ano que se inicia?

Faria – Fortalecer nossa mensagem sobre a importância de investir em inteligência na fase de projeto, para maximizar os resultados em eficiência, conforto e sustentabilidade. Entendemos que, desta forma, a certificação será uma consequência muito positiva a todos os envolvidos. Divulgar e promover oportunidades de incentivos para edificações green building e continuar com os nossos esforços de disseminação da informação e capacitação profissional. Criamos recentemente um protocolo chamado LIFE, para reforma de interior residencial, onde chamamos os arquitetos de interiores e designers a assumirem o protagonismo, além de aumentar o nosso contato com a sociedade civil.

AECweb – Haverá mais novidades?

Faria – Ainda neste semestre lançaremos uma campanha mais enfática sobre net zero water. E esperamos colaborar com iniciativas de parceiros como o CE Carbon, plataforma gratuita para inventário de CO2 da obra desenvolvida pelo SindusCon-SP e com o SIDAC (Sistema de Informação e Desempenho Ambiental da Construção), criado pelo Ministério de Minas e Energia e desenvolvido pelo Conselho Brasileiro de Construções Sustentáveis (CBCS) voltado para a indústria realizar seus estudos de avaliação de ciclo de vida com foco em intensidade energética e carbono incorporado.

Colaboração técnica

Felipe Faria  – Advogado com especialização em Direito da Economia e da Empresa pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Há 15 anos no Green Building Council Brasil, é o responsável por dirigir e executar as atividades da organização que compreendem as áreas de capacitação profissional, disseminação da informação, relação governamental e promoção de certificações para edificações verdes. Atuou por quatro anos no LEED Steering Committee do USGBC, órgão deliberativo e consultivo responsável por manter o LEED como ferramenta líder no mundo, participando do desenvolvimento da sua versão (LEED v4) e das discussões iniciais para a criação do sistema internacional de benchmark em edificações, hoje conhecido como plataforma ARC SKORU. Atualmente, faz parte do Conselho de Diretores do World Green Building Council, organização supranacional que coordena e estimula o desenvolvimento de suas atividades em 76 países, onde preside o Comitê de Network dos CEOs e o Comitê de Governança. É diretor-executivo do Green Building Council Brasil (GBC Brasil).