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Ensino de sustentabilidade na arquitetura amadureceu

Dos conceitos equivocados de quase duas décadas atrás à disciplina optativa, o tema está presente em todo o conteúdo na Faculdade de Arquitetura da Universidade de São Paulo

Publicado em: 27/11/2017

Texto: Redação AECweb/e-Construmarket

No início dos anos 2000, o conceito de sustentabilidade na construção começava a circular nos meios acadêmicos e profissionais. Chegava através de pesquisadores que traziam informações de fora do país ou da participação de estrangeiros em congressos locais, além de notícias publicadas pela mídia especializada no setor.

“Os alunos perguntavam muito a respeito. Havia, naquele momento, uma série de informações equivocadas e anúncios de produtos como sustentáveis e que, na verdade, não passavam de greenwashing”, conta a doutora em arquitetura Roberta Kronka, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP). Veio, então, a decisão da escola de criar uma disciplina optativa no curso de graduação, que abordava a sustentabilidade tanto do ambiente construído quanto do urbano.

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A sustentabilidade está presente nas seis disciplinas obrigatórias da FAU-USP (Jacob_09 / Shutterstock.com)

Por quase uma década, a matéria foi bastante concorrida. Entre as atividades desenvolvidas, os alunos pesquisavam determinado tema, como teto verde, e no ano seguinte a turma se aprofundava. Os estudos foram se somando e constituindo um acervo, disponível inclusive no site da faculdade.

“Há cerca de cinco anos, constatamos que as várias abordagens da sustentabilidade já estavam incorporadas nas disciplinas obrigatórias. E que os raros trabalhos produzidos por este ou aquele aluno no início da década se tornaram naturais e frequentes. Entendemos, portanto, que a disciplina exclusiva já não tinha mais razão de ser”, diz.

RESGATE

Hoje, a sustentabilidade está presente nas seis disciplinas obrigatórias da FAU-USP, que abordam os Fundamentos da Arquitetura e Urbanismo; Geometria da Insolação; Iluminação (natural e artificial); Desempenho Acústico; Desempenho Térmico; e Projetos, em que são sintetizadas as cinco anteriores.

Todo o conhecimento de sustentabilidade transferido pelas disciplinas obrigatórias é, depois, tema de teses na pós-graduação e no doutorado. “É significativo o número de alunos que o elegeu para pesquisas na especialização, inclusive muitos já estão atuando no mercado”, diz a professora.

Segundo ela, o conteúdo da graduação procura informar os alunos a partir das diferentes visões da sustentabilidade. Alguns professores focam na questão social, outros são mais conceituais e há aqueles que se ocupam do aspecto tecnológico. Porém, todas as vertentes caminham na mesma direção, constituindo a massa crítica que está construindo o conhecimento.

“Afinal, ainda não temos, no Brasil, a ciência da sustentabilidade”, ressalta. Ela cita, por exemplo, a legislação alemã que obriga as construções a receberem diariamente, pelo menos, três horas de sol no inverno. Porém, aqui, não há pesquisas que comprovem essa necessidade. A diversidade de abordagens e o incentivo à análise crítica são determinantes no propósito de formar arquitetos mais maduros, capazes de um pensamento próprio.

“É assim que eles passarão a propor sob a ótica da sustentabilidade. A arquitetura seja do ambiente construído ou urbano é a síntese dos aspectos históricos, da tecnologia, dos materiais, do conforto, do projeto. O peso que o arquiteto dá a cada um desses fatores – mais tecnológico, espetacular ou social – varia de acordo com o projeto”, ensina.

PESQUISA

A arquitetura brasileira chegou a ser referência mundial, por se adaptar aos aspectos relacionados ao clima, eficiência energética e conforto do usuário. Mas tudo isso se perdeu
Roberta Kronka

Para Kronka, o enfoque da sustentabilidade representa a retomada das questões de conforto ambiental, que ficaram esquecidas nos projetos a partir dos anos 1970. Especialista na matéria, ela se refere à boa parte dos atuais edifícios que negligencia conceitos básicos de arquitetura. “A arquitetura brasileira chegou a ser referência mundial, por se adaptar aos aspectos relacionados ao clima, eficiência energética e conforto do usuário. Mas tudo isso se perdeu”, observa.

A crítica, compartilhada por consagrados arquitetos brasileiros, é agora objeto de pesquisa financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Com a coordenação das professoras Roberta Kronka e Joana Soares Gonçalves, e a participação de alunos da FAU-USP, a investigação procura comparar o desempenho dos edifícios produzidos entre 1930 e 1964 com os atuais.

O fato de os projetos da fase Modernista assegurarem aos prédios paredes grossas, amplas janelas e pé-direito alto faz com que tenham melhor desempenho do que muitos dos novos
Roberta Kronka

“O fato de os projetos da fase Modernista assegurarem aos prédios paredes grossas, amplas janelas e pé-direito alto faz com que tenham melhor desempenho do que muitos dos novos. Inclusive, de alguns que obtiveram certificações de impacto ambiental. A ideia é comprovar o que já sabemos, mas queremos referenciar cientificamente as razões de terem sido abandonadas as boas práticas de conforto”, expõe.

Hoje, os edifícios lançam mão de sistemas de ar-condicionado para mitigar deficiências na qualidade dos materiais e ausência de soluções projetuais. Além disso, erram ainda mais quando adotam soluções tecnológicas isoladas sem, antes, garantir o básico da edificação.

“Se o projeto está ruim, logo começam a ‘pendurar’ um grande número de coisas, como painéis fotovoltaicos, turbina eólica, teto verde. Muitas profissionais acreditam que sustentabilidade é isso. Mas, em si, não representam nada. E acabam fazendo um marketing errôneo do edifício, que não tem um desempenho adequado”, alerta.

Ela critica os edifícios totalmente envidraçados, com pé-direito baixo, escuros, insalubres e que gastam muita energia. “Nesses casos, não há qualidade para o ocupante”, diz e conclui afirmando que o mercado de compradores de imóveis começa a optar por espaços mais sustentáveis, o que, com o tempo, vai pressionar a arquitetura a responder à altura.

Colaboração técnica

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Roberta Kronka – Graduada em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo (USP) com mestrado em Energia no Programa Interunidades de pós-graduação em Energia da USP e doutorado em Estruturas Ambientais Urbanas na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. É professora associada junto à Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP) - Departamento de Tecnologia de Arquitetura e Urbanismo desde 2006. Tem experiência na área de Tecnologia de Arquitetura e Urbanismo, na subárea de Conforto Ambiental, atuando principalmente nos seguintes temas: ergonomia, sustentabilidade, impacto ambiental e desempenho. Atualmente atua também junto à Superintendência de Gestão Ambiental da USP (SGA) como superintendente substituta e assessora técnica com destaque no processo de elaboração das políticas ambientais da USP. Participa desde 2012 da Rede de Universidades - WC2 - World Cities World Class University Network, junto ao Ecocampus Theme, e no Strategic Group, como representante da USP, além de atuar no WC2 Summer Symposium desde a sua primeira edição em Londres, no ano de 2015. Foi eleita membro do ISCN Advisory Committee (International Sustainable Campuses Network) em março de 2016.