ProAcústica quer mobilizar a sociedade por menos ruído nas cidades

Confira entrevista exclusiva com o presidente da ProAcústica e entenda quais serão as prioridades, os desafios e perspectivas para 2024

Publicado em: 18/12/2023Atualizado em: 20/12/2023

Texto: Hosana Pedroso

Foto: Adobe Stock

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O arquiteto Marcos Holtz, recém-empossado no cargo de presidente executivo da ProAcústica, conta em entrevista ao portal AECweb sobre os planos da nova gestão. Para além da continuidade da produção técnica e presença fundamental na ABNT, o foco estará no uso das redes sociais para conscientizar a população sobre a poluição sonora e suas consequências deletérias para a saúde humana. Holtz entende que a mobilização social pode levar as pessoas a cobrar das autoridades soluções capazes de mitigar o problema. Ele faz, também, um balanço das ações passadas e aponta para as futuras. Confira a seguir!

AECweb – Há muitos desafios a serem enfrentados à frente da ProAcústica?

Marcos Holtz – Sim, a começar por manter uma associação funcionando, coesa e organizada num país onde, historicamente, prevalece a instabilidade. É sempre muito difícil ter uma empresa. Mas, agora, temos aí a Reforma Tributária, que vem para simplificar os processos empresariais. Por outro lado, tem sido muito gratificante participar da ProAcústica, criada em 2011 por 14 empresas e que, hoje, chega a 90 associados. Participei do primeiro Comitê de Acústica Ambiental, que coordenei a partir de 2015. Há seis anos, assumi a vice-presidência de Atividades Técnicas. Agora, na presidência executiva, a estratégia é desenvolver a comunicação em redes sociais, lançando mão da inteligência artificial.

Tem sido muito gratificante participar da ProAcústica, criada em 2011 por 14 empresas e que, hoje, chega a 90 associados
Marcos Holtz

AECweb – A ideia é ampliar a comunicação com a sociedade?

Holtz – O foco do trabalho do nosso vice-presidente de Comunicação e Marketing, Luiz Henrique Corrêa Ferreira, da Inovatech Engenharia, é ampliar a comunicação para além dos acústicos e dos técnicos, levando o discurso mais efetivo para a população. O único evento em que falamos para as massas através da mídia (jornais, televisões e rádios) é o INAD – Dia Internacional da Conscientização sobre o Ruído. A ideia é criar, ao longo do ano, outras ações de grande repercussão como as do INAD.

AECweb – O objetivo é sensibilizar a sociedade?

Holtz – É torná-la consciente sobre as questões do ruído. Ao fazer parte da vida das pessoas, esse conhecimento passa a ser um processo exponencial. Acústica é um assunto amplo. Podemos abordá-lo por partes, por exemplo, a poluição sonora: muitas pessoas acham que não tem jeito, outras nem sabem que estão expostos, não conseguem dormir, estão estressadas sem saber que o ruído é a causa. É uma poluição invisível, e a doença que ela causa demora alguns anos para se instalar. Inclusive, o Dia Internacional da Conscientização sobre o Ruído foi criado para promover a conscientização. Teremos estratégias para levar a mensagem de que existem soluções que as cidades podem adotar para gerenciar os ruídos.

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AECweb – O que uma sociedade mais consciente pode fazer para mitigar o problema?

Holtz – Mobilizar-se e cobrar das autoridades. Veja o caso da cidade de São Paulo que está com uma poluição sonora muito forte decorrente do grande volume de novas obras de edifícios nos bairros. Uma lei voltada para a fiscalização desse tipo de ruído foi aprovada há mais de um ano, incluída no já existente Programa Silêncio Urbano (Psiu), antes voltado apenas para ruído de casas noturnas e shows. Porém, não há fiscais suficientes, até porque a prefeitura desmontou o sistema de fiscalização. Se fosse seguida, essa regulamentação traria grandes benefícios. Essa é uma informação que tem que chegar aos moradores da cidade.

AECweb – Essa lei está em vigor?

Holtz – A lei sobre o ruído de obras caiu feito um meteoro, num processo nada transparente e sua regulamentação foi tumultuada. No texto, foi inserido um ‘jabuti’ referente a shows, determinando, inicialmente, limite de 85 dB nas regiões das arenas, em qualquer dia ou horário. Diante da gritaria na imprensa, o valor caiu para 75 dB, com aprovação na Câmara dos Vereadores. Mas depois foi derrubada pela justiça. Essa é uma regulamentação que ainda está pendente, sem nada no lugar. No final de 2022, a ProAcústica assinou com outras dez associações, algumas da área de saúde, uma carta conjunta repudiando o encaminhamento dado pelo poder público municipal ao tema.

AECweb – Como a associação atua para mobilizar a população e pressionar as prefeituras?

Holtz – Nossas ações são criativas e bem-humoradas, como a que fizemos em 2017, no Monumento às Bandeiras, no Ibirapuera, colocando fones de ouvido nas esculturas que representam os bandeirantes. Aquela imagem percorreu o mundo todo. Foi um ato simbólico que dispensou palavras e, também, político no encontro paralelo que tivemos com autoridades municipais. Nesses eventos, sempre conciliamos a ação com algum movimento político, para sair com o compromisso dos políticos para adotar algum tipo de iniciativa.

AECweb – A nova gestão da ProAcústica já está traçando planos desse tipo?

Holtz – Deveremos criar campanhas através das redes sociais da associação. Atualmente, utilizamos essa ferramenta para expor as nossas ações, o que não é mais suficiente. No mundo atual, precisamos engajar as redes sociais para obter algum tipo de rebatimento, de maneira que a informação viralize. Queremos modernizar a maneira de nos comunicarmos com a população, para atingir uma crescente mobilização para mitigar a poluição sonora.

Queremos modernizar a maneira de nos comunicarmos com a população, para atingir uma crescente mobilização para mitigar a poluição sonora
Marcos Holtz

AECweb – A ProAcústica participa da elaboração de políticas públicas?

Holtz – Neste momento, por exemplo, há um projeto de lei parado na Câmara dos Deputados que versa sobre uma política nacional de controle de ruídos. Devemos participar ativamente em conjunto com a Sociedade Brasileira de Acústica (Sobrac). Em 2016, ajudamos vereadores a elaborar a lei do Mapa do Ruído de São Paulo, em vigor. O processo foi acompanhado de diversas ações na cidade para incentivar sua implementação. A cada evento público que fazíamos, a prefeitura se mexia um pouco, porque gerava muita mídia. A prefeitura criou o comitê gestor e estabeleceu o prazo de sete anos para produzir o mapa. Quando estava vencendo e já com o comitê inteiro substituído, nos chamaram porque não sabiam o que era aquilo. Seis meses depois, soubemos que a implementação da lei foi adiada para 2029.

AECweb – Políticas públicas adotadas em São Paulo induzem o avanço em outros estados?

Holtz – São Paulo é, de fato, indutor. Por exemplo, o Mapa do Ruído foi copiado pelo município do Rio de Janeiro, que infelizmente não conseguiu aprovar. Agora, o Ministério Público de Porto Alegre nos chamou para ajudar na formatação da lei local. Estão muito empolgados, até mesmo como resultado de ação que fizemos lá. A prefeitura já adquiriu softwares e equipamentos, preparando-se para ter seu próprio mapa. Há iniciativas em vários municípios do país. Para colaborar, a ProAcústica Ambiental quer lançar no próximo INAD um guia com o passo a passo para prefeituras que queiram fazer o seu Mapa do Ruído. Nossa gestão deve criar, ainda, um programa de eventos em cada região do país, talvez trimestralmente, em que o associado local vai atuar como embaixador da entidade.

AECweb – O que é o manual preparado pela associação junto com a Cetesb?

Holtz – Acabamos de lançar o manual ProAcústica e Cetesb – Norma ABNT NBR 10.151:2019, que estabelece procedimentos técnicos para medir e avaliar níveis de pressão sonora em áreas habitadas. Porém, é comum que até mesmo peritos que não têm domínio da acústica apliquem a norma de maneira incorreta. Tanto nós quanto a Cetesb estávamos preparando um manual interno, quando vimos a oportunidade de editar um documento conjunto. Foram mais de dois anos e 120 reuniões. Hoje, é referência no país e foi uma conquista da associação de braços dados com o poder público.

AECweb – A associação também participa da elaboração de normas técnicas?

Holtz – Sim, participamos, como no caso da norma de desempenho ABNT NBR 15575. Na sua primeira versão, houve dificuldade em como fazer a classificação acústica em relação ao ruído externo. Em seguida, a ProAcústica preparou um manual estabelecendo os procedimentos muito bem aceitos e utilizados no Brasil todo. Em 2018, fui o coordenador da parte acústica durante o processo de revisão da norma, na ABNT, quando decidimos atualizar e introduzir esses procedimentos para classificação acústica de fachadas no documento normativo. O antigo manual foi substituído por um novo sobre a Norma de Desempenho.

AECweb – Hoje a ABNT conta com um grupo específico de acústica?

Holtz – No ano passado, a ProAcústica e a Sobrac criaram o Comitê Brasileiro de Acústica – CB 196 na ABNT. Eu coordeno a comissão de Acústica Arquitetônica e, agora, será implantada a de Acústica de Ambientes. Além disso, coordenamos uma ampla participação brasileira dentro da ISO. Ou seja, a associação tem forte presença na elaboração de normas técnicas de acústica. Internamente, estamos estudando a possibilidade de lançamento de uma etiqueta de desempenho acústico dos edifícios, que poderá guiar a escolha do comprador de um apartamento.

Colaboração técnica

Marcos Holtz  – É arquiteto formado pela Fundação Armando Alvares Penteado e mestre pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da Universidade de São Paulo (USP). É presidente executivo da ProAcústica e coordenador da CE 196 000 003 | Acústica Arquitetônica, da ABNT. Foi relator da revisão da parte acústica da norma de desempenho NBR 15575 (2018/2021) e é sócio-diretor da Harmonia desde 2001. Participou das conferências municipais realizadas pela ProAcústica que resultaram na lei do Mapa do Ruído de São Paulo e de diversas ações urbanas para conscientização dos problemas decorrentes do ruído. Tem participado ativamente da elaboração das normas de acústica em discussão na ABNT e na ISO referentes à acústica de edifícios e ambiental.