Especialista aponta atrasos em gestão logística no país

A construção civil ainda carece de melhor planejamento para a execução de grandes obras e políticas mais eficientes para a aquisição de equipamentos

Publicado em: 23/04/2014

Texto: Redação PE

O desenvolvimento da tecnologia da informação somado ao planejamento logístico tem ainda muito a contribuir com a evolução da construção civil no país. Porém, na prática, a dinâmica organizacional e as aplicações de TI nesse setor ainda estão muito aquém do ideal. “A médio e longo prazo é possível reverter esse quadro, sim, mas para isso, deve haver vontade política”, diz o professor-doutor Hélio Flávio Vieira, pesquisador e especialista em logística e transportes da Universidade de Blumenau.

Além de lecionar, Hélio Vieira conta com mais de 35 anos de experiência profissional em construção civil na área de infraestrutura portuária, rodoviária, edificações e também em operações em portos. Nessa entrevista, ele se aprofunda em logística aplicada ao uso de equipamentos da construção civil e nos benefícios da modernização de frotas.

Entrevista

Portal dos Equipamentos – PE

Hélio Vieira – HV

PE – Historicamente, optamos pelo sistema rodoviário como principal veia logística em todos os setores da economia brasileira, mas, na prática, há ainda muitas queixas e prejuízos. A médio prazo, é possível reverter esse quadro? Como?

HV – O Brasil, um país com dimensão continental e potencialidades hidroviárias, tem como sua modalidade de transporte dominante a mais cara entre as três possíveis, ou seja, a rodoviária. Isso é um verdadeiro absurdo. Problemas como falta de visão política e de planejamento (como não poderia deixar de ser) encaminharam a essa situação a partir da década de 50. A médio e longo prazo é possível reverter esse quadro, sim, mas para isso deve haver vontade política. As soluções existem, porém, os governos entram e saem e nenhum deles assume o compromisso de equacionar essa situação.

PE – A logística ganhou maior ênfase na construção civil brasileira nos últimos tempos?

HV – A logística não ganhou ênfase na construção civil de edificações, mas vem conquistando espaço, e a maioria dos empresários desse segmento sabe da sua importância. Porém, ela ainda está muito longe do necessário para dinamizar o setor. Aos poucos, percebe-se a relevância e a necessidade da implementação de uma logística mais eficiente como forma efetiva e definitiva de minimizar os inúmeros problemas existentes, que se arrastam ao longo dos anos.

PE – O transporte de equipamentos pesados de construção sofre diretamente com a falta de mobilidade interna, tendo apenas rodovias como opção principal. De modo geral, quais são os maiores prejuízos e quem são os prejudicados nessa realidade brasileira?

HV – Equipamentos com essas características devem, em sua maioria, ser transportados por via hidroviária (marítima, lacustre ou fluvial), a fim de evitar problemas no fluxo de uma rodovia. Temos no Brasil essa possibilidade, ou seja, essa virtude que poucos países têm, mas não sabemos explorá-la. Os prejudicados com essa realidade somos todos nós.

PE – Planejamento é a palavra-chave da logística. Diante da grande oferta de equipamentos para construção e do desenvolvimento das tecnologias de informação, o que ainda falta nos canteiros de obras para concretizar um planejamento logístico mais eficiente?

HV – O que falta é a mudança cultural na construção. Nós, engenheiros civis brasileiros, somos formados e informados para o concreto armado. Em nossos cursos, a imensa maioria da carga horária é relacionada ao concreto armado, sendo uma ínfima parcela destinada a instruir sobre a industrialização da construção. Com a industrialização da construção, há a necessidade de um planejamento mais apurado e, essencialmente, de tecnologia da informação, fatores muito pouco considerados no setor.

PE – As políticas de manutenção de equipamentos devem ser bem delineadas e preestabelecidas. Você poderia ilustrar como isso seria feito em um canteiro de obras somado ao planejamento logístico?

HV – Vamos fazer uma analogia. Se você quer estar em bom estado de saúde para poder trabalhar, não faltar ao serviço, ou mesmo para conviver com seus entes queridos, o que deve fazer? Precisa “tratar bem” e manter regularidade em seu estado de saúde. Não existe possibilidade de um planejamento bem delineado sem a consideração de uma política de manutenção de equipamentos. Ela é aplicável não somente em grandes máquinas, mas em qualquer tipo de equipamento. É a pedra fundamental para evitar as descontinuidades produtivas, qualquer que seja o setor produtivo, especialmente o construtivo, dadas as suas características de intemperismo e agressividade ambiental.

PE – O senhor defende uma logística mais ágil e prática em relação à produção e ao uso de concreto e cimento. Em sua concepção, o emprego de tecnologias que realizam o reaproveitamento de entulhos, ou mesmo daquelas que fabricam o concreto, é um facilitador logístico nos canteiros?

HV – Vamos analisar sob outro ângulo. Não sou “contra” o concreto armado, de forma nenhuma, pelo contrário, mas entendo que deve haver maior implementação da industrialização no setor. Você já parou para pensar que não adianta contratar o melhor calculista do mundo, pois quem vai executar o projeto dele, minuciosamente calculado, são pessoas apenas com experiência, mas sem conhecimento técnico nenhum? Outro aspecto pertinente de reflexão é que, se houver a transferência de atividades desenvolvidas antes no canteiro para fornecedores externos especialistas, os produtos terão mais qualidade. Por exemplo, a indústria manufatureira de veículos hoje não é mais chamada de “fábrica”, e sim de “montadora de veículos”. Ela delegou para os “especialistas” a confecção dos componentes, e hoje somente monta os componentes agregados com qualidade produtiva. Eu pergunto: por que a construção civil, uma indústria manufatureira como qualquer outra, não pode se aproximar disso? Feito isso, muito pouco vai se falar em entulho, descumprimento de prazos, acidentes de trabalho etc.

PE – É possível exemplificar uma política de manutenção bem-sucedida em alguma obra aqui no Brasil?

HV – Nesse momento, não me ocorre nenhum exemplo que possa ser ilustrativo.

PE – Quanto à compra e ao aluguel de equipamentos, o consumidor final deve valorizar não só a produtividade, mas também o rendimento e a regularidade. Além disso, o que deve ser levado em conta antes de qualquer aquisição?

HV – A flexibilidade/versatilidade do equipamento, isto é, um equipamento que possa ser utilizado em várias outras atividades e/ou tenha capacidades adaptáveis a outras funções, seja por adição de acessórios, seja por versatilidade própria. Esse é um fator fundamental, que determina a escolha do equipamento, até pelo custo e pela falta de espaço em setores produtivos. Isso sem falar nas políticas de manutenção, que também representam outros custos.

PE – Para finalizar. O senhor comentou recentemente que há ainda muita restrição dos profissionais da engenharia em relação ao uso de tecnologia da informação e também da internet para realizar um planejamento logístico eficiente. Há interesse definitivo do setor para reverter esse quadro? Quais seriam os principais benefícios em relação a uma gestão de frota, por exemplo?

HV – Hoje, a tecnologia de informação é de fundamental importância em qualquer empresa de ponta que queira se manter no mercado. É possível imaginar uma rede de supermercados com várias lojas regionais sem um centro de distribuição (cd) regional para o atendimento/suprimento delas? Para se ter uma ideia, um cd deve possuir em torno de 300.000 ou mais itens a ser gerenciados, são inúmeros os relacionamentos com fornecedores. Como executar todo esse fluxo de informações e relacionamentos sem a implementação de uma tecnologia de informação extremamente eficaz? Agora, imagine uma grande ou até mesmo média empresa construtora com várias obras regionais em andamento. Pergunto: existe tanta diferença entre ela e uma rede de supermercados? Estamos na era das evoluções tecnológicas em comunicação. Não dá para imaginar, em nenhum setor produtivo, a ausência de uma TI atuante em qualquer linha de planejamento.

Sobre a fonte:

Hélio Flávio Vieira é graduado em engenharia civil pela Universidade Federal de Rio Grande, pós-graduado em engenharia de produção com mestrado e doutorado na área de logística e transporte pela Universidade Federal de Santa Catarina. Possui várias publicações sobre o tema, com destaque para o livro “Logística aplicada à construção civil – Como melhorar o fluxo de produção na obra”, lançado pela editora Pini em 2006. É integrante de diversas entidades científicas, como o Simpósio de Engenharia de Produção (Simpep – UNESP) e a comissão científica de avaliadores do Simpósio de Administração da Produção, Logística e Operações Internacionais (Simpoi – FGV-SP).