Evolução de máquinas e equipamentos força atualização do trabalhador

Enquanto as máquinas e equipamentos ganham espaço rapidamente no setor, cresce a necessidade de o mercado ter profissionais que saibam lidar com a mecanização. Entenda

Publicado em: 25/03/2010Atualizado em: 13/06/2019

Texto: Redação AECweb


Mecanização, um caminho sem volta

Redação AECweb

As máquinas e equipamentos têm desempenhado um papel cada vez mais importante na construção civil brasileira. A evolução dos processos construtivos tornou imprescindível a mecanização de certas atividades – seja pelo fato de as partes utilizadas em uma obra serem cada vez maiores, ou por questões econômicas, já que a mecanização reduz gastos com mão-de-obra, tempo e desperdício de materiais.

Essa tendência, porém, trás consigo aspectos que nem sempre ficam claros em uma primeira análise: como fica a preocupação com a sustentabilidade em um setor cada vez mais industrializado? Ou ainda, como os operários de construção serão afetados em um cenário onde o esforço humano é cada vez menos necessário?

O Engenheiro Norwil Veloso, presidente da N.Veloso – empresa de consultoria para construtoras na área de gestão de equipamentos, explica que há equipamentos que estão ganhando seu lugar rapidamente. Em alguns casos há painéis pré-moldados que são montados como peças de quebra-cabeças, um grande avanço no processo construtivo, que reduziu custos e ganhou tempo. “A mecanização da construção civil incorpora conceitos de produtividade e de substituição do esforço humano, aliados ao aprimoramento das tecnologias demandando equipamentos”, explica o professor Ubiraci Espinelli Souza, da engenharia civil da Escola Politécnica da USP.

ATUALIZAÇÃO PROFISSIONAL

O fato de o trabalho manual ser cada vez mais prescindível, não significa necessariamente que o operário perde importância – pelo contrário. Apesar de a tendência ser a da diminuição do número de trabalhadores por obra, há a aposta na especialização do trabalhador da construção, o que certamente acarretará uma melhora nas condições de emprego e nos salários do setor. “Do ponto de vista social, a mecanização não é vista com bons olhos por conta da diminuição de vagas, mas há outro lado: talvez se invista na melhoria do funcionário, até porque as ferramentas de trabalho que você utiliza são mais caras”, explica Ubiraci Souza.

A atualização do profissional da construção é um ponto crítico, até no que diz respeito à prevenção de acidentes. “Acho importante considerar a segurança do trabalhador como parte do conceito de sustentabilidade”, diz o professor. Ele cita o exemplo dos acidentes com gruas que ocorreram em São Paulo no último ano. As causas disso podem ser tão variadas quanto a fixação errônea do equipamento, falha mecânica ou até mau uso – no caso da grua, transportar mais peso do que o equipamento é capaz.

Outro caso clássico de má utilização do equipamento diz respeito às cremalheiras – elevadores que funcionam com uma torre na qual o elevador é atrelado por engrenagens, e que substituem os antigos elevadores por cabo. “Existia um uso indevido do elevador por cabo, que foi transferido para a cremalheira, que é o de transportar barras de aço embaixo da cabine. Na cremalheira, isso causa acidentes, porque o centro do elevador, onde as barras são fixadas, não coincide com o seu ponto de apoio, então tende a soltar. Por conta disso, começaram a cair cremalheiras e foi feita uma legislação obrigando a volta dos elevadores antigos para esse tipo de uso”, explica Ubiraci, que completa: “Não adianta colocar alguém que não sabe pilotar um carro de fórmula Indy para disputar uma corrida – ele vai perder. O equipamento não basta, tem que saber usar, o conhecimento sobre a utilização tem que acompanhar o avanço tecnológico”.

INDUSTRIALIZAÇÃO SUSTENTÁVEL

Se, de um lado, a industrialização do setor é um dos caminhos para a sustentabilidade, de outro, exige regulação. O primeiro problema é a falta de regulamentação no Brasil quanto aos níveis de emissão de máquinas para construção. “No exterior as regras de emissão são muito mais rígidas que aqui. Nós estamos alguns degraus abaixo. Não existe hoje no Brasil uma norma nesse sentido, há apenas o esforço dos fabricantes em produzir equipamentos ecologicamente mais corretos”, diz Norwil Veloso. Esse tipo de iniciativa parte sempre dos grandes fabricantes – aqueles que produzem equipamentos também para exportação, e que muitas vezes vão para países em que vigoram normas de emissão de poluentes.

Para Ubiraci, “com a mecanização há, eventualmente, problemas de poluição, uso de combustível, mas ao mesmo tempo há menos perda de material. Eu acho que tem que haver uma preocupação em aliar mecanização e sustentabilidade. Uma coisa não é necessariamente a outra, precisa haver um esforço em se cuidar disso”.

FUTURO

“O papel principal na construção, daqui pra frente, vai ser assumido pelas construtoras que forem em direção à mecanização”, decreta Ubiraci. “Em prédios, ainda prevalece o processo construtivo mais convencional. Mas a tendência é a forma industrializada crescer, porque é mais barata, prática e rápida. Acredito que crescerá, sobretudo, na faixa dos imóveis populares”, aposta Norwil Veloso. Tecnologicamente, os fabricantes brasileiros de equipamentos também têm evoluído. “Aquilo que há dez anos era subempresa, hoje não é mais. A distância tecnológica do Brasil para o exterior, hoje, é bem menor”, diz Ubiraci.

Redação AECweb


COLABORARAM PARA ESTA MATÉRIA

Ubiraci Spinelli Lemes de Souza
- Professor da Escola Politécnica da USP; Assessor da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano de São Paulo - CDHU/SP; Coordenador Geral da Pesquisa sobre Perdas na Construção no Brasil. Autor dos livros “Como Aumentar a Eficiência da Mão-de-obra - Manual de Gestão da Produtividade na Construção Civil”, “Como Reduzir Perdas nos Canteiros - Manual de Gestão do Consumo de Materiais na Construção Civil”, “Projeto e implantação do canteiro”.

Norwil Veloso
- Engenheiro mecânico com 25 anos de experiência em gestão de equipamentos em construtoras e 15 anos de atuação como consultor em gestão de equipamentos. Tem a consultoria N.Veloso, de gestão de equipamentos. Ocupou cargos de gerência na área de equipamentos na Cetenco, CBPO, Transpavi-Codrasa e Odebrecht.