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Formação de áreas verdes pode solucionar ilhas de calor nas cidades

Causado pela absorção da radiação solar em áreas construídas, o problema pode ser resolvido com a presença maciça de árvores maiores que 5 m. Leis municipais devem estimular implantações

Publicado em: 20/06/2017Atualizado em: 04/10/2017

Texto: Redação AECweb/e-Construmarket

Fenômeno comum em metrópoles como São Paulo, as ilhas de calor são causadas pela ausência de elementos naturais nos meios urbanos, como lagos e árvores, que cedem espaço para edificações e vias de circulação impermeáveis. A consequência disso é a intensificação do aquecimento global, uma vez que a radiação solar que seria absorvida pelas plantas passa a ser refletida em forma de calor ao meio ambiente.

Esse efeito é proporcional à geometria das edificações, como no caso de prédios altos muito próximos, que favorecem a elevação da temperatura do ar no entorno. Isso sem contar o calor liberado por instalações, como sistemas de ar-condicionado.

Para que as ilhas de calor não influenciem demasiadamente o clima, o ideal é que haja um equilíbrio entre áreas verdes e construções urbanas. “Quanto maior a densidade de edificações, maior a necessidade de áreas com vegetação para compensar as elevações da temperatura do ar”, afirma Maria Akutsu, física responsável pelo laboratório de conforto ambiental e sustentabilidade dos edifícios do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT).

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Via urbana com árvores de médio e grande porte (niruti Puttharaksa/ Shutterstock.com)

PLANO DIRETOR ESTRATÉGICO

O caminho mais prático para estimular a implantação de árvores, vegetações e outros elementos naturais no meio urbano é por meio do Plano Diretor Estratégico (PDE), lei municipal que orienta o crescimento e o desenvolvimento das cidades.

“É nevrálgico que nele conste um Plano Diretor de Arborização Urbana (PDAU), o qual define diretrizes de planejamento, implantação e manejo da arborização urbana”, conta Sérgio Brazolin, doutor em recursos florestais e responsável pelo laboratório de árvores, madeiras e móveis do IPT.

Quanto maior a densidade de edificações, maior a necessidade de áreas com vegetação para compensar as elevações da temperatura do ar
Maria Akutsu

De acordo com o especialista, o PDAU é um instrumento do PDE que proporciona maior qualidade de vida e equilíbrio ambiental. Seu monitoramento deve ser feito pelos órgãos públicos e privados ligados à função. “Ele deve, ainda, envolver a população no que se refere à manutenção preservação da arborização urbana”, acrescenta.

Para Akutsu, a elaboração das normativas é um assunto complexo que merece estudo e trabalho interdisciplinar. “Não deve envolver somente cientistas, arquitetos e urbanistas, mas também os responsáveis pela definição de políticas públicas”, considera.

PLANTIO DE ÁRVORES

De acordo com Brazolin, um serviço ambiental eficiente deve prever o plantio de árvores de médio e grande porte – altura superior a 5 m –, além da formação de áreas verdes (maciços florestais). No entanto, o que se vê em cidades como São Paulo são as chamadas florestas urbanas, compostas por sistemas viários verdes, praças, parques, unidades de conservação, entre outros.

“O plantio de árvores de pequeno porte e arbustos não é eficiente na minimização das ilhas de calor, embora seja conveniente para os gestores públicos e as concessionárias de energia elétrica, pois demanda menos planejamento e manejo”, alerta o doutor em recursos florestais.

O plantio de árvores de pequeno porte e arbustos não é eficiente na minimização das ilhas de calor
Sérgio Brazolin

ÁGUAS PLUVIAIS

Quando são utilizadas na formação de lagos ou espelhos d’água, as águas pluviais também ajudam a reduzir os efeitos das ilhas de calor, colaborando na melhoria do microclima.

Também é possível reter as águas da chuva em estruturas como trincheiras e valas vegetadas de infiltração, wetlands construídos, jardins de chuva e telhados verdes. A melhoria do clima se dá pelos processos envolvidos na evaporação direta e na evapotranspiração da água pela vegetação.

“Como benefícios adicionais, essas técnicas ainda permitem a redução das velocidades de escoamento das águas, a diminuição de áreas impermeáveis e a consequente recarga de aquíferos, que podem colaborar para a redução de picos de vazão quando aplicadas de maneira intensa”, observa Luciano Zanella, engenheiro civil e pesquisador do laboratório de instalações prediais e saneamento do IPT.

OUTRAS INFLUÊNCIAS

Por mais que os sistemas construtivos intensifiquem as ilhas de calor, há soluções que podem minimizar essas questões, como manter as superfícies com cores claras para reduzir a absorção da radiação solar. Na cobertura de residências, por exemplo, é possível adotar mantas refletivas e telhados verdes para um resultado mais ecoeficiente.

Já a poluição atmosférica, outro fator que favorece as ilhas de calor, só pode ser amenizada pela construção civil reduzindo a demanda por condicionamento térmico dos ambientes, uma vez que os sistemas de ar-condicionado podem emitir gases que contribuem para o efeito estufa. “No caso dos edifícios industriais, também é necessário reduzir as emissões de gases e poluentes oriundos dos seus processos de produção”, completa Akutsu.

Leia também: Muros verdes melhoram a qualidade do ar e oferecem conforto térmico a edifícios

Colaboração técnica

Luciano Zanella – Engenheiro civil pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Guaratinguetá. Mestre e doutor em engenharia civil na área de saneamento e ambiente pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Pesquisador do laboratório de instalações prediais e saneamento do IPT. Professor dos programas de mestrado em habitação e em processos industriais do IPT.
Maria Akutsu – Física pelo Instituto de Física de Universidade de São Paulo (IFUSP), mestre em engenharia civil pela Escola Politécnica (EPUSP) e doutora em arquitetura pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU-USP). É a responsável pelo laboratório de conforto ambiental e sustentabilidade dos edifícios do IPT, que realiza ensaios para determinação de valores de propriedades térmicas, acústicas e lumínicas de elementos e materiais de construção. É também a coordenadora do curso de mestrado profissional em habitação do IPT.
Sérgio Brazolin – Possui bacharel e licenciamento em ciências biológicas pelo Instituto de Biociências, mestrado em ciência e tecnologia de madeiras e doutorado em recursos florestais pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ/USP). É o responsável pelo laboratório de árvores, madeiras e móveis do IPT. Tem experiência na área de microbiologia, com ênfase em microbiologia aplicada, atuando principalmente em biodeterioração e preservação de madeiras; biodeterioração e análise de risco de árvores; fungos apodrecedores; e insetos xilófagos (térmitas e brocas-de-madeira).