Industrialização de armaduras é opção para racionalizar obras com repetitividade

Soldada na indústria, armadura pronta proporciona agilidade de execução e redução do número de trabalhadores no canteiro

Publicado em: 10/11/2021

Texto: Juliana Nakamura

armaduras industrializadas
A execução das armaduras é uma das etapas mais críticas da obra (Foto: AJ165/Shutterstock)

Em uma obra com estrutura de concreto moldado in loco, a etapa de execução de armaduras é uma das mais críticas. Primeiro por sua importância para a garantir a durabilidade e a segurança das estruturas. Depois porque a montagem das armaduras na obra é uma atividade com uso intensivo de mão de obra, que envolve processos de corte, dobra e uniões manuais, além de exigir muito espaço físico no canteiro. A necessidade de agregar mais produtividade e assertividade a essa etapa tão relevante tem colocado em foco as armaduras industrializadas.

Um passo além do aço cortado e dobrado já utilizado por muitas construtoras, esses componentes são totalmente montados e soldados em indústrias e transportados para os canteiros prontos para posicionamento na forma. Produzidas conforme o projeto de estruturas, as peças, também chamadas gaiolas, são entregues identificadas e de acordo com o cronograma de execução da obra. Alguns fornecedores disponibilizam esses produtos, inclusive, com fôrma incorporada. As armaduras soldadas podem ser produzidas para blocos de fundação, estacas, paredes diafragmas, tubulões, pilares, colunas, etc.

PRODUTIVIDADE E MAIS SEGURANÇA NO CANTEIRO

De modo geral, empreendimentos altos, com pavimentos-tipos com plantas simétricas se beneficiam das armaduras industrializadas. “Nessas obras, existe uma grande repetitividade, por exemplo, nas gaiolas de pilares e vigas”, explica o engenheiro Jorge Nakajima (Satoro), gerente de produção de armaduras no escritório de projetos França & Associados.

Tudo isso leva a um aumento da produtividade e melhora da logística da tarefa de montagem
Jorge Nakajima

Ele cita, entre as vantagens associadas às gaiolas pré-fabricadas, a redução do número de armadores em obra, o encurtamento do tempo de montagem e a diminuição da quantidade de vergalhões soltos. “Tudo isso leva a um aumento da produtividade e melhora da logística da tarefa de montagem”, destaca Satoro, reforçando que os armadores, por não serem mais necessários nos canteiros, poderiam ser deslocados para o trabalho na indústria, onde a atuação se dá em um ambiente mais salubre.

EQUIPAMENTOS E CUSTOS

Se por um lado a industrialização das armaduras induz ganhos de produtividade e diminui a ocorrência de falhas na montagem, por outro, ainda há obstáculos a serem superados para o uso mais amplo desta tecnologia.

O primeiro deles é a repetitividade, que costuma ser uma condição para viabilizar a solução industrializada. Também podem ser identificadas complicações logísticas, visto que as armaduras prontas, por serem tridimensionais, demandam mais espaço para o transporte, em comparação às barras de aço.

“Uma limitação importante é a falta de equipamentos para produzir as armaduras e seus detalhes de forma automática. São poucas as fábricas que possuem equipamentos para produção de tela soldada, que ofereçam flexibilidade na escolha das bitolas e no espaçamento entre elas”, comenta Satoro. Ele lembra que outros dois equipamentos importantes para imprimir alta produtividade à fabricação das armaduras pela indústria são as guilhotinas e dobradeiras de mesa para tela soldada.

Há, ainda, o custo mais elevado da armadura industrializada na comparação direta com a solução artesanal. Para o engenheiro do França e Associados, o problema é que normalmente só se considera o custo unitário da armadura, ou seja, o preço por quilo montado e o frete. Na comparação entre as soluções, não se pode desprezar os ganhos obtidos com a redução de prazos da obra e a quantidade de armadores. Como acontece com outros sistemas construtivos industrializados, é preciso fazer uma análise financeira mais ampla, levando-se em conta os custos diretos e indiretos.

PROJETO DE ESTRUTURAS

Além de uma boa concepção estrutural, o empreendimento que pretende usar armadura industrializada requer a coleta de algumas informações adicionais na etapa de projeto. “Na indústria, precisamos entender os equipamentos que ela possui e suas limitações. Já na obra, precisamos saber os processos ou mecanismos disponíveis para a montagem da estrutura, como o sistema de formas utilizado (convencional ou trepante), as etapas de concretagem e os detalhes da grua disponível”, explica Satoro.

A partir destes dados, são produzidos dois trabalhos. O primeiro deles é um projeto de produção, que visa conduzir a fabricação das armaduras. O segundo é o projeto de montagem, destinado exclusivamente para a obra.

Embora um foco do projetista de estruturas seja a economia de material, ele deve ter em vista que os investimentos adicionais ligados às armaduras industrializadas são compensados pelos ganhos de produtividade proporcionados
Jorge Nakajima

Ao final, o contratante deve considerar que os projetos de produção e de montagem de armaduras, por não serem elaborados em um processo automatizado, normalmente não fazem parte do escopo de contratação do projeto de estruturas, exigindo um contrato à parte. Além disso, em geral, o projeto desenvolvido com foco na industrialização das armaduras pode envolver um maior gasto de material em função das padronizações das bitolas e limitações dos equipamentos disponíveis dos fabricantes.

“Embora um foco do projetista de estruturas seja a economia de material, ele deve ter em vista que os investimentos adicionais ligados às armaduras industrializadas são compensados pelos ganhos de produtividade proporcionados. Além disso, as armaduras industrializadas proporcionam maior controle sobre o projeto construído, resultando em mais segurança e qualidade ao produto final”, conclui Satoro.

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Colaboração técnica

Jorge Nakajima
Jorge Nakajima (Satoro) — Engenheiro civil, tecnólogo em construção civil e especialista em gestão de projetos de sistemas estruturais pela Poli-USP. Desde 2000 atua no França & Associados Projetos Estruturais, onde atualmente colabora como gerente de produção de armaduras. É co-autor do Manual de Boas práticas: Montagem das Armaduras de Estruturas de Concreto Armado.