Indústrias pedem pisos resistentes à corrosão e a cargas

Polidos, revestidos...pisos industriais devem ser escolhidos com ajuda de consultoria. Veja entrevista com o Eng. Paulo Bina, expert em pisos de concreto

Publicado em: 02/03/2009Atualizado em: 10/10/2019

Texto: Redação AECweb

O engenheiro Paulo Bina, mestre em Construção Civil pelo IPT e Diretor Técnico da Monobeton, considerado como um maiores ‘experts’ em pisos de concreto do país, chama a atenção para a necessidade de um bom projeto de piso industrial, o que remete para a contratação de consultoria especializada.

Pisos dos estacionamentos de locais públicos, como shoppings centers e supermercados, se mal especificados, vão apresentar graves patologias. Portanto, o piso é um quesito da construção onde ‘o barato sai caro’.

Pisos industriais, polidos ou revestidos

Redação AECweb

AECweb - Existe um piso ideal para indústrias ou cada projeto merece uma especificação personalizada?
Bina -
Cada local exige uma atenção específica, pois não há duas condições idênticas. Há uma série de fatores que interferem com o piso. Entre elas, é importante considerar as variações de temperatura, como locais com condicionamento ou não de ar, ou de regiões geográficas diferenciadas; sistemas de carregamento, em que se destacam as cargas distribuídas, cargas concentradas, cargas de alvenarias, veículos de transporte; as condições de agressividade, como o meio ambiente mais ou menos ácido, queda de materiais agressivos quimicamente ou mecanicamente; e as condições de exposição ao ambiente. Portanto, para cada tipo de utilização e construção devem ser analisadas as condições específicas de cada projeto, para especificação de materiais, cuidados durante a fase de execução e controles de materiais, e procedimentos.

AECweb - Quais são as soluções mais usuais, eficientes e de longa vida útil?
Bina -
Como se vê, não há uma solução única. Porém, as soluções mais comuns são pela estruturação do concreto com cordoalhas de aço protendido, armaduras em barras ou telas, e os concretos com adição de fibras de aço, vidro, nylon, polipropileno, entre outros materiais. Há, ainda, o sistema de pisos sobre estacas para os casos de cargas muito elevadas ou solos de baixa capacidade de suporte - áreas comuns ao longo das marginais ou estradas -, em que há necessidade de estruturação do solo com fundação profunda.

AECweb – São muitas as possibilidades de acabamentos de superfície?
Bina -
Os acabamentos de superfície podem ser variados, mais uma vez considerando-se as condições de utilização e exposição ao meio ambiente em que o piso esteja instalado. O piso interno das indústrias tem que ser liso, o que pode ser obtido através de polimento do concreto ou da aplicação de revestimento. O usual é o piso polido. Quando for necessário aumentar a resistência da superfície, é possível incorporar agregados ao concreto estrutural ou apenas ao concreto da superfície. Ao optar por tornar a superfície mais resistente, podem ser usados agregados plásticos de alta resistência (salgamento) ou aplicar reagentes químicos. Já os revestimentos cumprem o papel de ganho de resistência e, também, de resultado estético. Vão desde as pinturas poliméricas até pedras e chapas de aço – estas são ideais para indústrias de tratores e de alimentos, e para centros de usinagem que soltam farpas de metal no piso, entre outros setores.

AECweb - Indústrias que manipulam produtos corrosivos exigem pisos especiais? Quais são eles?
Bina -
Há diversas condições que podem, ou melhor, que devem ser consideradas agressivas para o concreto ou para a armadura de estruturação. Entre os inúmeros casos, podem ser citados:

- indústrias ou serviços de banhos metálicos, como galvanização, niquelação, cromação, anodização.

- indústrias de ácidos ou de elementos com presença de ácidos, entre elas, as indústrias de baterias e limpeza de peças metálicas;

- serviços de manutenção de freios, pois o fluído de freios é extremamente agressivo.

- indústrias de plástico granulado ou que o utilizam; qualquer trabalho com sementes, por serem muito agressivas em termos de abrasão.

- laticínios e frigoríficos.

- lavagem e tinturaria de fios e tecidos

- qualquer atividade atrelada a moagem de cana e produção ou estocagem de açúcar.

- indústrias ou armazenamento de fertilizantes ou suas matérias-primas.

AECweb - Cargas elevadas e trânsito de veículos de serviços interferem com a especificação do piso?
Bina -
Sim, e de forma muito intensa. É pelo piso que circulam todas as cargas e equipamentos de suas movimentação em qualquer atividade industrial ou de logística. É exceção o caso de utilização de pontes rolantes, mas que em geral também utilizam outros equipamentos de transporte, ou causam arraste de peças sobre os pisos.

AECweb  - O que a construtora de uma indústria devem saber para bem especificar o piso?
Bina -
Inicialmente, é essencial que as informações sejam divulgadas pelos futuros usuários, pois são estes que terão maior benefício ou prejuízo quando da utilização dos pisos. Em seguida, é preciso consultar especialistas que estejam acostumados com as atividades de utilização do cliente final, para que se realize uma boa especificação e análise das condições de contorno - solo, cargas, condições de exposição e de execução, cronogramas, fornecedores de materiais regionais - para garantia de desempenho e baixo custo de manutenção.

AECweb - É recomendável a contratação de consultoria especializada?
Bina -
Logicamente esta regra se aplica de forma mais intensa para as indústrias, centros de distribuição e logística, e comércios. Para as residências e pisos de baixa responsabilidade podem ser aceitas especificações ou determinações de profissionais habilitados, mas sem necessidade de especialização ou grande experiência no assunto.

Pisos industriais, polidos ou revestidos

AECweb - Quais são as principais patologias dos pisos industriais?
Bina - A lista é grande e de impacto variado, porém as mais frequentes são:

- as quebras de bordas das juntas são as mais comuns – representam cerca de 80% de principais reclamações -, pois interferem diretamente na velocidade de tráfego e na segurança dos operários e dos equipamentos;

- a agressão da superfície e a formação de desgaste acelerado surgem habitualmente em locais com agressão direta ou indireta, como nos casos de queda de agentes agressores - ácidos, açúcar, abrasivos -,  ou em locais de arraste de pneus nos casos de caminhões de dois eixos, ou das empilhadeiras em manobras para movimentação de mercadorias;

- desgaste generalizado da superfície por utilização ou por baixa resistência do concreto aos esforços atuantes;

- deformações acentuadas - recalques - dos pisos apoiados sobre solos de baixa capacidade de suporte;

-custos acentuados de manutenção.

AECweb - Quais as suas recomendações para pisos de garagens e áreas de estacionamento de locais públicos como shoppings e supermercados?
Bina
- Execução de especificação e projetos que contemplem as reais condições de utilização, com pisos polidos em áreas cobertas e semi polidos em áreas expostas a intempéries, com maior resistência ao desgaste nas áreas de curvas e manobras, inícios e finais de rampas de acesso, e nos acessos principais.

Boa capacidade de limpeza ou baixa sujidade e impregnação, muito pequena formação de poeira, baixa manutenção e baixo índice de juntas por área de tráfego.

AECweb - Em pisos industriais ou de áreas de estacionamento, o barato sai caro? Quanto e por quê?
Bina -
O maior problema a ser considerado nos estacionamentos de supermercados não são os automóveis, mas os carrinhos com compras. Cheios, eles podem pesar até 80 kg, transmitindo todo esforço de forma pontual. Além disso, a excessiva preocupação com os custos de implantação do piso ou pavimento, leva os envolvidos a se esquecerem de que será utilizado por muitos anos, e que os maiores prejudicados serão os usuários. São várias e graves as consequências, entre elas:

- operadores de empilhadeiras que trabalham horas sobre equipamento sem sistema de amortecimento das imperfeições, ou solavancos nas juntas, com grande queda de produtividade ao longo do dia, afastamentos por problemas musculares ou na coluna, e acidentes por fadiga acelerada;

- manutenção frequente de empilhadeiras por solavancos quando da passagem sobre juntas - os equipamentos de acionamento elétrico possuem sistema de distribuição lógica em plataforma, fixada de forma rígida na estrutura do equipamento, sem amortecimento;

- paralisações para manutenções de juntas em centros de distribuição, e de superfície em locais com atuação de agressores ao concreto;

- acidentes causados por quebras localizadas de placas de concreto;

- perda de longevidade e custos de manutenção


Paulo Bina
- Engenheiro civil pela Escola de Engenharia Mauá - Instituto Mauá de Tecnologia – 1979; pós-graduado em Administração de Marketing pelo IMES – SP e mestre em Tecnologia na Construção Civil pelo IPT Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo, em 2002.

Fez diversos cursos e especializações em Produção, Estruturas, Pisos e Pavimentos, Tecnologia de Concreto e de Cimento, Meio Ambiente, no Brasil, EUA, Suíça, Chile, Bélgica, França e  Canadá.

Como fundador e Diretor Técnico da  Monobeton Soluções Tecnológicas Ltda., com mais de 6.000.000 m² de obras já realizadas, é responsável pela introdução e disseminação de  uso do concreto de alto desempenho, fibras de aço, polipropileno, nylon, vidro e fibras sintéticas estruturais, e concretos poliméricos.

É responsável pelas obras pioneiras de pisos com baixo índice de juntas (‘joint less floor’), e uso de sistema protendido com cordoalhas não-aderidas em pisos e pavimentos.

É vice presidente do Instituto Via Viva, entidade social de geração de emprego e renda para pessoas com deficiência, através de trabalho de divulgação de recolhimento de pneus, com os quais, após trituração, são construídas barreiras rodoviárias, pisos e pré-fabricados em concreto Deformável e Isolante.