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Inventários de CO2, avanços a comemorar

Vanderley John fala sobre a crescente prática das indústrias de materiais que identificam sua pegada de dióxido de carbono durante o processo de produção

Publicado em: 03/02/2010

Texto: Redação AECweb

Entrevista: Vanderley John

Inventários de CO2, avanços a comemorar

Redação AECweb


A prática de inventariar o CO2 emitido durante o processo de produção de materiais de construção cresce nas indústrias do setor. O fato é comemorado pelo professor Vanderley John, da Escola Politécnica da USP, especialista em materiais, como uma das mais importantes ações do setor da construção civil rumo a sustentabilidade. Segundo ele, as empresas que já se dedicam a identificar sua pegada de dióxido de carbono se concentram nos segmentos de cimento e aço. “O principal interesse é permitir à empresa verificar o quanto seu faturamento é dependente do CO2”, diz em entrevista ao AECweb, acrescentando que já existem construtoras investindo para medir a pegada de carbono em seus canteiros. Membro fundador do CBCS – Conselho Brasileiro de Construção Sustentável – o professor revela que a entidade pretende desenvolver metodologias de inventário para cada atividade industrial.

AECweb – O que são os inventários de CO2?
John -
Há, hoje, um número crescente de empresas brasileiras de materiais de construção que estão fazendo seus inventários de CO2. Na prática, existe uma metodologia desenvolvida há bastante tempo que permite à empresa identificar qual é a sua pegada de CO2, ou seja, quanto de dióxido de carbono está emitindo para operar. É possível calcular, inclusive, quanto de CO2 está embutido em seus produtos. Na área do cimento, por exemplo, 70% das empresas mercado brasileiro estão fazendo seus inventários de CO2. Vale a pena verificar no site da Votorantim Cimentos os gráficos e dados de CO2 emitidos por toneladas de cimento. Agora, a Camargo Corrêa também está iniciando esse processo, assim como as empresas da área de aço que, no entanto, não estão tornando públicos os resultados.

AECweb – Qual a importância dos inventários para a sustentabilidade no setor?
John -
Essas ações revelam, em primeiro lugar, a importância que vem sendo dispensada pelas empresas às mudanças climáticas. É o reconhecimento de que esse tema precisa ser enfrentado. Mostram, na prática, que é possível fazer os inventários com algum grau de precisão, dada a precariedade de dados brasileiros. Estamos apostando que, em breve, vamos conseguir transformar esses inventários numa força de maior escala. O CBCS deverá investir no desenvolvimento de metodologias para cada atividade industrial, que ajude o empresário a fazer o seu inventário de CO2. No futuro, assim como as empresas fazem seu balanço financeiro, será necessário que façam também o balanço ambiental – e, como parte dele, da pegada de carbono.

AECweb – E isso vale também para os canteiros?
John -
Na verdade, podemos fazer o inventário de carbono também para os canteiros, utilizando alguns dados da indústria. Hoje, algumas construtoras já estão investindo para medir a pegada de carbono nos seus projetos. Mas só vai ficar mais preciso na medida em que os fornecedores das indústrias tenham esses dados apurados. Enquanto as construtoras não têm esses números, deveriam trabalhar com alguns dados genéricos, possibilitando, pelo menos, uma ordem de grandeza do impacto de carbono das suas atividades.



AECweb – O que gera CO2 no canteiro?
John -
O CO2 é gerado pelos combustíveis fósseis, como o diesel, incorporados nas emissões diretas da construção e operação do edifício, e nas indiretas, através dos produtos adquiridos para a obra. Dependendo do fabricante e do tipo, o cimento, o aço, a cerâmica, enfim, os vários materiais terão mais ou menos CO2. Um esforço a ser feito, num primeiro momento, é desenvolver uma metodologia mais simplificada para medir essa emissão. Eventualmente, essa metodologia não vai considerar aspectos como as distâncias de transportes. A idéia é identificar as atividades que geram emissões, sendo que o cálculo é uma atividade contábil, num certo sentido. O principal interesse é permitir à empresa verificar o quanto seu faturamento é dependente do CO2.

AECweb – Essa prática é comum no exterior?
John -
Existe um consenso na Europa, especialmente na França, de criação de um imposto sobre o CO2 para indústrias. As mais dependentes de carbono, vão ver seus negócios se tornarem menos competitivos. Isso já está no futuro e pode levar de três a cinco anos para chegar ao Brasil. Recomendo, portanto, que as empresas daqui se preparem agora, estabelecendo uma meta e progressivamente identificando as fontes de emissão para delas se desvincular. Então, o fato de medir o CO2 permite à empresa reprogramar sua produção e se preparar para o futuro – do negócio, para torná-lo mais competitivo e, claro, das pessoas no planeta, porque as mudanças climáticas começaram.

AECweb – É mesmo tarefa fácil medir as emissões de CO2?
John -
É relativamente fácil e, se todo mundo fizer sua parte, vai ficar muito fácil. Quando chegar a nova ferramenta de projetos, o BIN – Building Information Modeling -, permitirá ao arquiteto arrastar determinado produto para o seu projeto e, junto, virão as propriedades, a geometria e o impacto ambiental do produto. Essa análise vai ser transparente, mais uma atividade de projeto. Precisamos, no Brasil, nos prepararmos para isso, desenvolvendo metodologias adequadas aos mais diferentes tamanhos de empresas. O que me preocupava é que estava se criando uma cultura de análise de impacto ambiental baseado em materiais de construção, que não era relevante.

AECweb – E qual a melhor forma de avaliar o material?
John -
A única forma de se medir ambientalmente o impacto do material é fazer análise do ciclo de vida, baseado no inventário de CO2. O CBCS está propondo fazer os inventários ambientais da água, de resíduos, de matérias-primas e de energia.



AECweb – A título de esclarecimento, explique o que é o BIN.
John -
O Building Information Modeling é um sistema de projeto que abandona o projeto em 2D e passa a projetar em três dimensões. O projeto deixa de ser um desenho e ganha a condição de base de dados, reunindo a geometria em 3D; o cronograma para simular a montagem; o orçamento também é automático porque a base do computador do arquiteto vai ‘conversar’ com a base de dados dos fornecedores; a especificação técnica é automática, assim como o manual de manutenção. Cada fabricante terá que fazer um arquivo, contendo a geometria do produto e todas as informações técnicas relevantes, o que inclui as questões ambientais. Esse arquivo BIN vai acompanhar o edifício para o resto da vida.

AECweb – Há outros fatos a comemorar?
John -
Sim, 2009 foi o ano em que o setor acordou para o fato de que construção sustentável não é somente edifício certificado. É prioritário desenvolver, atualizar, notificar soluções técnicas e procedimentos que tenham a dimensão de gestão da sustentabilidade, abrangendo a gestão da qualidade e da tecnologia.

AECweb – É possível falar em produtos sustentávies?
John -
Sustentabilidade é uma combinação de seleção da melhor solução para um projeto especifico. Portanto, não existe produto sustentável. Há aqueles produtos que são sempre ruins, feitos sem qualidade, sem respeito às normas técnicas e sem pagar impostos, e que vai dar uma taxa de reposição elevada de, em média, 20%. Esses nunca serão sustentáveis.

AECweb – Antes de mais nada, que sejam produzidos de acordo com as normas?
John -
O produto tem que, não só respeitar, mas transcender a norma. A sustentabilidade do edifício resulta da integração de componentes que são os melhores naquela função, naquele lugar. Essa visão de que vou selecionar de uma lista os produtos mais sustentáveis, é muito limitada. Se eu usar madeira nativa não certificada, estou fazendo uma coisa insustentável, porque 80% é ilegal. Agora, construir com madeira de plantação ou madeira certificada é sempre é sustentável? Não, nem sempre, pois se a madeira for colocada numa situação onde vai degradar mais rapidamente, ou com perda elevada porque o projeto não é modulado, aí não vai ser sustentável.

AECweb – Não é, portanto, uma questão de check list?
John -
Não é fazendo coisas menos ruins que as empresas vão ser competitivas. Para isso, basta ter em mãos um check list, não tem tecnologia aí. No futuro, quem quiser ser mais competitivo, ganhar mais dinheiro que os outros e ter o orgulho de fazer a coisa como precisa ser feita, vai precisar ir um pouco mais além do menos ruim. Estou muito entusiasmado porque as empresas e os profissionais estão começando a perceber isso. O check list está perdendo o atrativo, mas ainda serve de consolo para aqueles que não têm um conhecimento maior e estão se aproximando do tema. É um avanço muito grande a ser comemorado.






Redação AECweb